Dos nossos políticos se poderia dizer que lembram em parte criações do Luigi Pirandello, aquele da peça teatral ‘‘Seis personagens em busca de um autor’’: é que se adaptam a qualquer legenda que se poderia dizer que delas independem e, ao revés, elas é que deles dependem. Tudo vem a propósito da anunciada e, ao mesmo tempo, negada - em se tratando de Lerner, isso não espanta - disposição de o governador deixar o PDT.
Como os tucanos originários - e não são tantos assim, pois o maior eleitor pulou rapidamente do PMDB, com uma escala no PST, para o PP e daí para o PSDB da moda - não admitem chupim em seu ninho (embora vários deles não passem disso) já piaram para FHC que não aceitarão o ingresso de Lerner, ainda que esse fosse o desejo presidencial. Já Aníbal Khury, que também salta de uma legenda para outra com a mesma naturalidade de um Affonsinho Camargo, anuncia sua saída do PTB e ingresso no PFL.
Como Aníbal é um puxador de cordão, o Nelson Justus, presidente regional do PTB, nega que esteja ocorrendo um esvaziamento gremial e só falta sugerir que seria o domicílio mais correto de Lerner. Não chegou a lembrar que a esquerda em Israel é justamente a do Partido Trabalhista, o que o aproximaria de versão mais avançada da social democracia e com cadeira cativa na Internacional Socialista. Seu argumento: o PTB tem 54 prefeitos, três deputados federais, nove estaduais, 625 vereadores, 154 diretórios e que tal patrimônio político não pode ser subestimado. Além disso possui 229 comissões provisórias e está atraindo mais 44 prefeitos.
O fato é que se Aníbal sai vai haver um ‘‘arrastão’’ com as consequências mais funestas para a acomodação das forças nas bases capilares do partido. A perda do controle do Bamerindus pelo senador Andrade Vieira também influi em setores mais pragmáticos porque nem todos entraram com sentimentos nobres no partido e muitos que agora desejam sair estejam longe de razões éticas para fazê-lo. É uma situação que define tanto o caráter dos nossos partidos como o das pessoas.
Lerner, cuja imaginação criadora tanto exaltam, estaria admitindo, diante da resistência alvarista (aqueles que ele surrou fragorosamente em Londrina), que a melhor saída seria o surgimento de um novo partido, o que o colocaria como uma espécie de Collor 2 da política brasileira. Isso implica numa rejeição ao PFL, sua sigla de origem porque, afinal, é o PDS encabulado, sucessor da Arena.
O povo brasileiro não merece os políticos que têm, mas os partidos, de um modo geral, se ajustam aos seus integrantes nesse império de Macunaíma.
BIZARRICE Bastou o relator da CPI declarar que nada havia contra Maluf, embora tente sugerir à força que Lerner está comprometido, para que dissessem na Boca Maldita que Requião malufou.
SPRAY Espaços generosos da Capital estão sendo destinados à cultura do lazer: além do complexo da antiga estação ferroviária há no disparo parques temáticos, inclusive o da Mônica, o do Beto Carrero (estádio do Britânia na avenida das Torres), o da construtora Mehl, o maior de todos, e agora o da Multiplan (grupo Bozzano-Simonsen) ao lado do parque Barigui. - Prefeitura de Curitiba resistiu às primeiras pretensões da Multiplan, mas acabou cedendo na questão do viaduto (consideravelmente reduzido em quase um quinto), 60% de aproveitamento da área (adquirida junto ao empresário Joel Malucelli) e bateu o martelo. - Embora se acredite que haja estudos de mercado espanta o fato de que estejamos caminhando para a saturação no setor de shoppings e agora na exploração do lazer. Vai haver deseconomia, velha tradição da praça como na época dos tobogãs quando havia três no Rio e em São Paulo e aqui dois. - Frase do presidente do PDT, Francisco Pereira, está repercutindo: teria dito que a agremiação independeria do governador, caso fosse para outro partido. Devoto sem voto é a mesma coisa, seja presidente do PDT ou secretário do PSDB. - Com o papo do grupo alvarista com FHC estreita-se o caminho de Lerner, mas é bem possível que seja novamente enganado pelos tucanos que o apóiam e que aleguem ter maioria para garantí-lo como fizeram no pleito municipal com a tese afinal derrotada da coligação. Seria o mesmo confronto e com derrota maior. - Richa, no entanto, no desempenho de missão, que lhe foi conferida pelo presidente da República, está tentando remover arestas e para tanto marcou encontro com Rubens Bueno, cujo sucessor em Campo Mourão já disse que é pró-Lerner. - Por falar em Lerner, lá em Virgínia, nos States, onde faz palestras, agendou dois contatos com grupos interessados em investir no Paraná.
FOLCLORE No fim do mês, o padre Gustavo, capelão dos universitários, vai receber o título de cidadão do Paraná, ele que é gaúcho, mas aqui deu a maior parte do seu testemunho missionário. Vai relatar coisas incríveis de suas vivências como, por exemplo, a do revolucionário Flores da Cunha, general, que parecia agnóstico, mas que confessou que nas situações-limite descia do cavalo e se dirigia a Deus. Ele corrigiu o general que se referia a ficar embaixo do cavalo por que não o fazia na cama, aliás o lugar apropriado para a oração.
CROMO Frei Miguel, fonte de esperança dos pobres, estuário dos queixumes dos humildes, o que repartia o seu pão com os outros, o que criatianizava a Vila Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, com sua legião de ex-favelados, aquele que tinha o dom de exorcizar mais do que o mal e também a falta de fé, viajou para o imponderável. Ninguém é insubstituível, mas o amor e a dedicação a uma causa certamente são. Que alguém pegue esse bastão no revezamento da cruzada.
AFORÍSTICO Vai ouvir um político? Tome Engov antes. É indispensável.

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