Inspetor Clouseau, o modelo
Se fôssemos erigir um modelo para a nossa área de segurança ele certamente não ficaria muito distante do Inspetor Clouseau, aquele imortalizado no filme ‘‘A Pantera Cor de Rosa’’, na interpretação de Peter Sellers: por mais de duas semanas registrei e comentei o fato de que havia, em mãos da Pastoral da Terra, tutora do MST, um vídeo das desocupações. Não importa que tenham feito a ‘‘colagem’’ com cenas de treinamento antiguerrilha de cinco anos passados e que o oficial, entusiasta dessa linha de simulação, tenha falecido e esse tipo de orientação, desdenhado pelo comando. Importa que a Segurança, com seus serviços de inteligência (isso não seria uma contradição em termos?), sabia dos fatos e poderia antecipar-se, quer para neutralizar e até contra-atacar o fluxo das informações.
É visível que o soldado que colheu as imagens, Antonio Cláudio Cardoso de Meira, não agiu como ‘‘infiltrado’’ do MST nas fileiras milicianas. Não entra na cabeça de ninguém que haja lugar para esse tipo de quixotismo. O que se pode depreender é que agiu em função de estratos superiores da hierarquia, que não se conformam com os desatinos praticados na politização da PM. Tudo visível na destituição de comandos por imposição de deputados e no episódio asqueroso, nojento e desmoralizante do convívio com o vigarista Joni Rodrigues, cuja coexistência com a área superior aparece em vídeos, inclusive numa homenagem ao deputado do milênio (essa é mais dura de engolir do que bário na radiografia do estômago), Aníbal Khury.
Uma Secretaria de Segurança que é refém da delinquência interna (vide como o crime organizado nela se infiltrou em casos como os da delegacia de Almirante Tamandaré e mais os da área de roubo de automóveis e do narcotráfico, essa especialmente do delegado Adauto de Oliveira, que apontou 33 integrantes como envolvidos diretamente no tráfico ou na extorsão de viciados e familiares) não tem como libertar-se das amarras que se agravam com a interferência aberta dos políticos. Um referencial pedagógico é o da ação dos 20 encapuzados, agindo como esquadrão de extermínio, que invadiram a delegacia de Furtos de Veículos e executaram, em seu interior, o autor da morte de um policial.
O mau exemplo vem de cima, tanto nas corporações, a civil e a militar, como no do comandante em chefe, o governador, tolerante demais e que promove a secretário o diretor da Leasing do Banestado, isso sem falar na prodigalidade dos gastos que sempre foi um dos fatores que facilitam a corrupção em suas formas sutis ou escancaradas.



GLOSA
O político do PDT deu mais um recado
e deitou no sarcófago.


ARQUIVO O pior que poderia acontecer seria mais uma ‘‘queima de arquivo’’ em cima do soldado que providenciou os vídeos ou ainda uma ‘‘caça às bruxas’’ no interior da PM, para ver se o miliciano estava a serviço de uma ação moralizadora por parte de oficiais inconformados. Lerner reduziria em muito as dimensões dessa crise se afastasse o pessoal da reserva em posto superior. É entendimento geral. Há experiências anteriores, como a de Álvaro Dias, quando teve por causa disso que sacrificar, de uma só vez, o comando e a chefia do Estado Maior, fato que corrobora essa preocupação dos mais experientes.
BIZARRICE Quando se soube que o autor das filmagens da desocupação era um soldado, Antonio Cláudio, muitos se lembraram do Heriberto, o motorista do caso Collor-PC Farias. Heriberto ganhou mais do que os minutos de glória a que se referia o artista pop norte-americano: foi bajulado, capa de revista, e é possível que hoje seja mais um integrante da legião dos desempregados.
AXIOMA Lerner caiu para o quinto lugar no ranking dos governadores, segundo o DataFolha. Na visão da oposição minoritária, vai logo para os ‘‘quintos’’.
EPIGRAMA O desempenho de Lerner, hoje quinto lugar entre os governadores, contamina a taxa de credibilidade de Cassio Taniguchi, que caiu no DataFolha do primeiro para terceiro lugar. Como os dois se socorrem agora em Aníbal Khury, acreditam que sobem: para o ‘‘espaço’’.
SPRAY Associação de Empresas de Topografia, AETEP, denunciou favorecimento, sem concorrência, já que nenhuma das empresas cadastradas foi convidada, em favor da empreiteira Rigoni, que não estava cadastrada e nem tinha registro no CREA num contrato de topografia na Prefeitura de Curitiba.- Detalhe relevante: o penúltimo engenheiro responsável da Rigoni era, segundo a denúncia, o Secretário Municipal de Obras Públicas.- Sinal de desagregação fortíssimo na PM é a criação da Adepre, Associação de Praças de Pré, que na verdade inclui segmentos de 1º tenente para baixo. A circunstância dos aumentos diferenciados (capitães para cima tiveram reajuste maior), ao lado de outras, fundamenta essa atitude. Tudo como decorrente do clima interno de descontentamento com os rumos da corporação.- Para que se tenha uma idéia de como a gestão Lerner abusou dos dispêndios em propaganda, basta ver o ocorrido no Banestado: Requião (mais o tempo de Mário Pereira, de 1991 a 1994) investiu menos de US$ 60 milhões, Lerner despendeu mais de US$ 100 milhões de 95 a 98.- Assustador é que o banco oficial, justamente em 98, quando sangrava no interbancário, sinal de quebra próxima, despendeu quase US$ 40 milhões, 10% do valor atribuído ao Banestado, conforme a denúncia do Ministério Público.
FOLCLORE Como ontem era dia de São João, falava-se muito em dançar quadrilha no acampamento dos sem-terra. Aí um deles, muito atilado, olhando para a frente, disse: ‘‘Nossa festa seria maior e mais santa se comemorássemos o fato de que a quadrilha teria dançado.’’
CROMO A pele aveludada como pêssego e de tom jambo, olhos de jaboticaba, boca de romã: quem não aspira beber dessa fonte?
AFORÍSTICO Depois dos grampos, tivemos os vídeos: até na escolha do meio de comunicação, os sem-terra levaram a melhor.

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