Luiz Geraldo Mazza
No limiar do nocaute
Nosso governador, um dos que chegaram ao poder com maior potencial nacional, corre o risco de, ao próximo nocaute, reduzir-se à dimensão provincial. Hoje é esmagado pelos problemas internos e que lhe pareciam tão prosaicos para um espírito de elite, capaz de resolver desafios universais como a questão da camada de ozônio e o degelo da calota polar.
A reportagem-bomba da Rede Globo e da Folha, detalhando documentalmente aquilo a que já venho me referindo há 15 dias com as desocupações violentas contra o MST, registradas em vídeo, o coloca numa posição bem parecida com a de Álvaro Dias no seu conflito com os professores em 1988. Álvaro se esforçou para fugir a qualquer responsabilização, isolando a PM, e só foi sentir, mais tarde, os efeitos multiplicadores daquele conflito e que o acabaram derrotando para Jaime Lerner, de forma fragorosa.
Lerner lembra o boxeur que acabou de despertar do nocaute. Há situações que a retórica não resolve: palavras não bastam. Aconteceu com Álvaro Dias e agora vai se dar com ele. Um caso de justiça poética. Boas de volta, na linguagem lírica dos jogadores de bolinha de gude.
NEUROLINGÜÍSTICA
Uma coisa curiosa, documentada na gravação de desocupação de terras: os policiais chamam os agricultores de senhor e senhora, quando o habitual, no jargão profissional, é tratar de elemento.
BIZARRICE Brizola, pregando o golpe na televisão, é mais um caso de paleontologia do que de arqueologia: está mais para as curiosidades do período jurássico do que de faraós que se livraram dos esparadrapos. Que melancolia ver o homem da legalidade de 1961 fazer com FHC o que os adversários de Getúlio Vargas pretendiam em 1954 até levá-lo ao suicídio. E isso depois de ter pleiteado um ano a mais para o general João Figueiredo e ter sido um dos raros defensores de Collor, a quem tanto agradecia a linha vermelha.
AXIOMA Requião, falando sobre a imprensa do Paraná, na Rádio Transamérica, e sua dependência do poder oficial: Eles que lambam a rapadura que depois fará sangrar sua língua! Pelo jeito a rapadura foi comida há horas, inclusive no seu governo, ainda que com moderação.
GLOSA Lerner fala em mediar a questão da terra, mas a TV Globo resumiu bem o quadro na reportagem de anteontem: Ali o Palácio Iguaçu, aqui o seu maior inimigo: os sem-terra. Essa é que é a verdade: deu colher-de-chá demais para os sem-terra, facilitando as invasões e não cumprindo decisões judiciais. E quando decidiu fazê-lo, agiu com extrema violência. Se mediar não significasse negociar e buscar o consenso entre partes conflitantes, ele teria razão, mas o que está querendo é fazer média, coisa bem mais ardilosa, entre as partes para eximir-se de responsabilidades.
EPIGRAMA Cassio Taniguchi anunciou radares e câmeras para o trânsito e que funcionarão por 30 dias sem multar. Pergunta-se: e por quanto tempo ele e o Lerner vão cumprir ordens do Aníbal Khury?
SANÇÃO Decisão mais abrangente contra a ParanaPrevidência foi, como disse, a do juiz da 2ª Vara da Fazenda Pública, Alexandre Barbosa Fabiani, datada de 14 de junho, em favor da APP-Sindicato (vitória maior do que qualquer greve): determina, em resumo, que não se proceda o desconto com aumento de 10% para 14%, bem como os 2% para a saúde, que não se faça qualquer desconto de inativos e pensionistas com mais de 70 anos e que os valores retidos a título de previdência e serviço médico do mês de maio fiquem em conta bancária vinculada ao deslinde da demanda, sem repasse ao ParanaPrevidência.
SPRAY Ontem foi dia de avaliações sobre o baixo astral de Lerner, com ênfase para a denúncia do Jornal Nacional em torno das desocupações violentas. Uns defendiam a necessidade de o governador falar claramente também no JN, dando a versão chapa-branca. Outros temiam que a emenda saísse pior que o soneto.- Deu para perceber que a fase não é boa, os fatores negativos se acumulam e nunca o Palácio Iguaçu ficou por tanto tempo na defensiva.- Como há um setor delirante que só pensa na postulação presidencial, foi daí que partiu a defesa do uso direto da fala do governador no horário nobre. Os argumentos do secretário da Segurança, de que não houve burla à lei porque o despejo só foi formalizado depois das 6 da manhã, não colaram.- Para defender o governo ninguém se habilita. Para atacar, o doutor Rosinha entrou em pauta e pediu tudo: da soltura dos sem-terra presos à cabeça do secretário da Segurança.- Vejam como se surfa na maionese: a receita do Paraná para 87 estava orçada em R$ 7,770 bi, enquanto o arrecadado chegou a R$ 4,849 bi e o governo, assim mesmo, gastou mais de R$ 5 bi. Uma de leve do conselheiro João Féder, do TC.- Agiu bem a diretoria do Atlético fixando restrições às torcidas organizadas na Arena porque, caso contrário, os vândalos, na excitação de um resultado de futebol, detonam um patrimônio duramente acumulado com zelo e dedicação.-
FOLCLORE Com um PM filmando violências contra sem-terra chega-se à conclusão de que no tipo de governo que temos é mais fácil um agente basista infiltrar-se nas ações policiais do que o contrário. Por sinal que continua impune o caso dos 20 encapuzados da polícia, segundo o corregedor, que mataram um preso que estava na Delegacia de Furtos de Automóveis ao lado da Escola de Polícia. Só falta agora alguém da PM atentar contra o soldado espião, o que fez o vídeo dos sem-terra. Aí o penico transborda na intensidade das Cataratas.
CROMO Pela milésima vez a harpya, ave totem do brasão paranaense, tenta proteger os ovos na copa do pinheiro e rompe a sua casca frágil, minada por agrotóxicos.
AFORÍSTICO Invasão de terra é gincana, acampamento não é um quilombo.
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