Luiz Geraldo Mazza
O enrolador, urgente
A Globo lançou um personagem curioso, o enrolador que, com habilidade e extrema rapidez, amarra as pessoas na rua com uma fita. Pois aqui no Paraná corremos o risco - na batalha da informação sobre os sem-terra e o conteúdo dos grampos, enquanto o outro lado dispõe de vídeos que comprometem gravemente a PM no relacionamento com ruralistas, ou ainda com o ataque aos acampamentos de madrugada e o uso de bombas de efeito moral - de ambas as partes acabarem se enrolando em tanta informação e contrainformação.
O pior é que tanto um quanto outro acusam a existência de informações em seu favor e que desequilibrariam a batalha: vídeos detalhados de uma desocupação, de madrugada, e até de encontros entre PMs e ruralistas, o que insinua quebra de neutralidade, se é que houve em algum momento, configurando uma ilegalidade indiscutível, conforme os preceitos processuais, e, do lado do governo, o anúncio de ações subversivas, com ameaça de destruição de prédios inclusive.
Como os dois lados fazem esse jogo de terror quanto à informações de cocheira, pode-se vislumbrar aí uma espécie de pôquer em que o blefe pode ter efeitos maiores e mais arrasadores do que o de um conjunto de cartas. Convoca-se, pois, o quanto mais urgente, o enrolador da Rede Globo para amarrar, à maneira dos filmes de Mack Senet, todos os participantes desse confronto que parece expor, cada vez mais, a sua medida de opereta bufa, em que pese o fato de ter igualmente uma dimensão de tragédia.
Uma coisa fica bem clara: o governo perde a batalha da informação, que se acreditava fosse o território de domínio de Lerner. Não tem como responder rapidamente a questionamentos como aqueles do Tribunal de Contas e também aos fundamentos da última concessão, pelo Judiciário, de aprovação a um pedido de intervenção federal. Ontem, mais uma paulada no triunfalismo ôco oficial com a reportagem documental da Gazeta Mercantil mostrando a derrota na batalha do emprego, quer para Santa Catarina, quer para o Rio Grande do Sul.
BIZARRICE
Dentro em pouco o Brasil será o país com maior número de celulares por grupo de 100 habitantes. Em compensação, um trabalhador rural que estiver com a unha suja será considerado um latifundiário pela quantidade de terra que leva nos dedos.
AXIOMA Aquele comercial do PT sobre privatizações e que apaga a luz pode ser uma alegoria da derrota anunciada, a próxima, de Lula. Já deu, por três vezes, um apagão como candidato, quando tudo indicava que poderia ganhar, tal qual se dá agora, conforme o DataFolha.
GLOSA Nunca, na história pelo menos recente do Paraná, se viu um governo murchar tão rapidamente quanto o atual e em tão curso espaço de tempo, em que o normal era inflar como a rã da fábula e não atrofiar como maracujá de gaveta.
PEDAGÓGICA Se é certo que onde falta a democracia não há Justiça que mereça o nome, também é verdade que não haverá democracia verdadeira onde faltarem tribunais independentes para, quando o impuserem a Constituição e as leis, contrariar as injunções da maioria política da conjuntura do dia. Frase do ministro Sepúlveda Pertence ao assumir a presidência do STF.
SPRAY A liminar mais abrangente, já concedida, contra a ParanaPrevidência, é a da APP-Sindicato: o juiz Alexandre Fabiani, da 2ª Vara da Fazenda Pública, determinou taxativamente à Secretaria de Administração que não proceda o desconto criado para o Fundo de Saúde (2%).- O maior absurdo ocorre numa defesa do Estado em que este se recusa ao pólo passivo da pendência por ser a ParanaPrevidência de caráter privado. Aliás, essa questão é das dominantes para fulminar a instituição, pelo fato de que é inconstitucional gerir recursos públicos pela iniciativa das privadas.- Parceria: a Secretaria da Segurança assina hoje, às 16h30, com a Reitoria da Federal, convênio para formação superior de polícia. Haverá dois cursos: um de especialização superior e outro de especialização em Administração Policial. E a base, como é que fica?- Grupo de estudantes da FAE (Administração e Economia do Bom Jesus) vai fazer um trabalho de fôlego para analisar planilhas, custos e gestão das rodovias cedidas para o regime de pedágio no Paraná. O foco vai ser a BR-277. Tomem cuidado, porque senão desaparecem num dos milhares de buracos da rodovia.- O Estadão publicou matéria de primeira página acentuando um detalhe por demais conhecido sobre os sem-terra: o de que professam o ideário socialista. Só que é um tipo de socialismo (e a vertente agrária aí é dominante) que está mais para Karl Kautski do que para Karl Marx. Como apoio carismático, essa linha favorece o messianismo com o qual as pessoas se aproximam mais do Antonio Conselheiro do que de Che Guevara. Qual dos dois mais articulado do ponto de vista militar? Klaus Barbie, o carniceiro de Lion, dizia que o Che não chegaria a cabo do exército germânico.
FOLCLORE Segundo o anarquista e coxa-branca Elíseo Marques, o Coritiba está mais perto do título inédito de penta-vice do que o de campeão, que ao menos assegura a participação na Copa do Brasil. E vai mais longe, principalmente depois do jogo de anteontem com o Atlético: Só Abel não basta para ser campeão. Tem que chamar o Caim.
EPIGRAMA O Chefe da Casa Civil, Pretextato Taborda, ao dar o ponto de vista do governo no pedido de intervenção, lembrava em tudo o porta-voz de FHC: a postura tinha a majestade de um acórdão.
CROMO As frutas que amarram como o caju e o caqui também têm a sua sedução.
AFORÍSTICO Há pessoas que já estão com saudades das viagens do governador e clamam até para que o faça com maior frequência. Cada cabeça, uma sentença.





