Luiz Geraldo Mazza
Foi, para dizer o mínimo, lastimável o estado de espírito do governador Jaime Lerner em seu contato, ontem pela manhã, com a imprensa: não conseguia disfarçar o nervosismo e até a muleta que usava para manter-se em pé fazia uma espécie de sonoplastia do espetáculo, o ruído da tremedeira do aparato com o piso palaciano. Não é para menos: além de não ter um mínimo de antígenos contra os venenos do senador Requião na CPI dos precatórios e de não saber em que partido irá abrigar-se, ainda teve que suportar pressão intolerável do guru Aníbal Khury, presidente da Assembléia, juntamente com um leque parlamentar de aliados e que pretendiam ditar regras ao governo como se isso fosse parte de suas prerrogativas.
Hoje, na hora em que essas linhas forem lidas, Lerner estará, outra vez, em viagem e para declamar ditirambos a Curitiba, a opereta burlesca de que mais se ocupa quando não está fazendo aqueles desenhos intermináveis do mapa estadual numa folha de papel em branco. Obviamente aí se sentirá bem, como o astronauta que despressuriza para voltar à Terra. Ele se sente à vontade nessas badalações em torno dos supostos feitos jamais analisados criticamente por força de um confessionalismo introjetado na mídia e entre arquitetos -o de que Curitiba é ecológica. Mas ele próprio, como se viu ontem, tem dificuldades até para respirar, pois se o ar da cidade é saudável, o da política, além de convidar à náusea, está saturado.
Convenhamos, porém, que a barra é pesada. A sua base parlamentar pede, a um só tempo, a reforma do secretariado, depuração no Banestado e fim dos biombos e bloqueios aos deputados em suas relações com o governo. Como olha tudo isso, distanciadamente, como se nada tivesse a ver com o peixe ou se não lhe dissesse respeito, entra em distonia neurovegetativa. Um Aníbal Khury, como diz aquela cantiga de roda, incomoda muita gente, dois incomodam muito mais.
BIZARRICE Com essa propalada saída em massa do PTB houve uma sentença na Boca Maldita: a de que esse pessoal é o time da gente que foge.
SPRAY Álvaro Dias estava convencido que o interessante era facilitar a entrada de Lerner no PSDB, mas quando conversou com FHC disse que o ideal seria, por causa das resistências, a sua ida ao PFL e a manutenção de um acordo entre os dois partidos. - Claro que aí funcionaria o esquema com Lerner na cabeça e Álvaro para o Senado. Obviamente o ex-governador está procurando valorizar ao máximo a sua posição e a dos companheiros, inclusive querendo participação nos órgãos federais do Paraná. - Comenta-se que no início da semana, na casa do ex-chefe da Casa Civil de Álvaro Dias, o advogado Antonio Acir Breda, houve um encontro entre o ex-governador e Lerner. - Como todos os encontros de Lerner são desmentidos por sua brava assessoria, só aqueles que vazam, como o da prensa de Aníbal com um colégio (como falta isso para os nossos políticos) de líderes do PTB, PDT, PSDB, PFL e PPB, é que chegam aos jornais. - Para o encontro desta manhã Aníbal Khury foi convidado pelo líder do governo, mas fez uma frase: Agradeço, mas estou em recesso para o governo. - Ontem mais um ato do Reage Brasil: o coronel Francimá Máximo (editor de O Farol, jornal nacionalista) e a professora Milena Martinez, da UFPR, falaram sobre a globalização e a Vale do Rio Doce. É muito difícil o governo perder essa parada, já que mobilizou todo o aparato de comunicação social e a cabeça do respeitável público está sendo alugada. Urge tirar os argumentos jurássicos da parada. Mas há um forte: neoliberais costumam apontar o Chile como exemplo de país bem-sucedido e ocultam que a Vale de lá, as minas de cobre por exemplo, persiste nas mãos do Estado. - Não esquecer da recomendação do liberal de verdade, Galbraith, que foi claríssimo ao dizer que não deveríamos pagar a dívida externa. Ele não é um petista ou um nacionaleiro. Deve saber porque fez tal afirmação com seu peso internacional. - Inadimplência no comércio paranaense espanta: 61% a mais do que em fevereiro em Cascavel, 26% a mais em Londrina. Junte-se isso à pisada no freio do aquecimento, anunciada pelo governo, e se terá a idéia do que está por vir. - O empresário Eudes Moraes encaminhou documento ao presidente do Senado e aos componentes da CPI dos precatórios atribuindo a Requião a tentativa de caracterizá-lo como sendo o Renê citado por Fausto Solano e apontando-o como autor de terrorismo telefônico. Explica a origem da provocação em fatos ocorridos em 1985 quando, como membro do PMDB, ficou a favor de Lerner e contra ele, Requião.
FOLCLORE O livre convencimento dos juízes das instâncias inferiores (que normalmente reciclam a prática do direito e nutrem a jurisprudência) fica engessado com o efeito vinculante das decisões superiores. O ex-juiz e anarquista militante, Elísio Marques, fez uma quadrinha: Ainda não vivi o bastante// para definir se o cabrestante// é o efeito vinculante// ou o meio circulante.//
CROMO Kátia diante do computador// repete a trama de MallarmS// no elogio à página em branco// o incriado, a potência de ser// o cinza tremido a pulsar// um desafio: falar com o mundo// relatar os fatos// O filtro de Kátia// não é o de todos// há cristal e seda em seu relato// distanciamento, sim// mas sempre com humanidade// A Kátia Mórbis, que já era jornalista, antes de receber, ontem, o seu diploma.
AFORÍSTICO Pelo jeito querem fazer parlamentarismo no Paraná e o premier já está escolhido: Aníbal Khury. Lerner fica tal qual a rainha inglesa. Em Greenvile, na novela, mudam a mão do trânsito, aqui desejam apenas o poder.





