Luiz Geraldo Mazza
Uma fragilidade fatal
É exatamente nas explosões coletivas, como as que ocorrem em Curitiba agora, que se percebe a permanência de uma tonalidade afetiva brasileira - a nossa incoercível inclinação para o melodramático. Quando os professores foram à Assembléia Legislativa e se comoveram com a música de Ataulfo Alves que fala na professorinha, percebeu-se o quanto estamos longe de Berthold Brecht em termos de expressão teatral. No seu teatro, essencialmente político, jamais desdenhou a importância do melodrama, mas não o transformou em fundamento.
Uma das dificuldades de construir a resistência social no Brasil está em contornar essa característica ou, então, em utilizá-la em favor da causa. Há um exemplo claro também da valorização excessiva da chamada arte engajada em favor de objetivos políticos imediatos. Isso se deu com a tão celebrada Pra não dizer que não falei de flores, de Geraldo Vandré, que lhe valeu a estupidez da tortura militar que lhe fundiu a mente e o quebrou na alma. O apelo Quem sabe faz a hora// não espera acontecer é um refrão cantado pela esquerda e praticado com extrema competência; naquele caso predominam a emoção e a catarse, e neste, o senso do pragmatismo.
Os professores não perderam tudo ao irem ao Legislativo, afinal ganharam algo no desengavetamento do plano de cargos e salários, embora inexista a menor condição no Estado para atendê-lo, ainda mais numa categoria numerosa. Na hora, porém, em que houve o canto sobre a professorinha, rolou lágrima entre os manifestantes e perplexidade na direção, perturbada com um fator diluidor de primeira ordem: a nossa fragilidade sentimental próxima da pieguice.
Artistas engajados acreditam que a lira vale mais do que o tacape numa batalha política. A Viola Enluarada dos irmãos Vale fala que a mão que toca um violão faz a guerra, o que é o predomínio do valor estético e da sensibilidade como opção de luta. Mobiliza, concentra energia, mas só arte, ainda que popular e profunda, não basta e pode até iludir. Como se ilude o intelectual engajado quando acha que o seu poema, seu quadro, seu romance, é suficiente para conscientizar. Há soberba e pretensiosidade nessa idéia.
INFERNO ASTRAL Lerner não ganha uma: quinta-feira o Tribunal de Contas o criticou duramente por suas prodigalidades e, anteontem, no Tribunal de Justiça, houve aprovação de mais um pedido de intervenção federal no Paraná, que se deve à omissão do seu governo, como acentuaram os desembargadores, nos casos de invasões de terras.
Antes Lerner contava com a compreensão dessas duas instâncias. Agora tudo passou dos limites, como estão convencidos o TC e TJ.
Não bastasse isso há ainda o acampamento dos sem-terra, a crise da PM (uma das mais graves de sua história), a chantagem permanente dos aliados, a sanha dos consórcios em cima do pedágio (último grande veio de financiamento das campanhas eleitorais), o Paranaprevidência fazendo água, a dificuldade de fechar a folha de junho dos funcionários estaduais, a resistência (justa) da Itaipu na manobra de antecipação dos royalties, a demolição do modelo de gestão financeira neste governo, o preço de banana a ser pago pelo Banco Del Paraná, a queda de credibilidade no instante da venda das estatais.
AXIOMA
Autoridade não pode ganhar presente. Essa restrição está no Estatuto do Funcionário Público, mas o pessoal não dá bola para isso, não, e isso se dá por aqui como rotina.
BIZARRICE Se fizessem um provão com Jaime Lerner, ele não passava! Luis Cláudio Romanelli, apesar de não reeleito, está com a corda toda.
EPIGRAMA Se Gabriel Garcia Marquez morasse em Curitiba e tentasse viver de literatura, morreria de fome. Tudo aquilo que ele se esforça para fazer como ficção no padrão realismo fantástico se dá aqui corriqueiramente: os sem-terra, acampados na frente do Palácio, exigindo que o governo lhes dê de tudo para que possam protestar, é um exemplo. Não há Cortazar, Llosa, Icasa que aguente. Lona preta, chapa-branca é demais.
SPRAY Até a construção de uma creche junto ao prédio do Fórum foi cogitada pelo MST em seus pedidos ao governo.- Está lá na relação de pedidos: um caminhão de pedra brita, 100 quilos de pregos, mil metros de arame fino, mil de fio, 5 sacos de cimento, 2 metros quadrados de areia, 20 sacos de cal, 200 metros de fio elétrico, uma caixa dágua de mil litros.- Além de ocuparem uma dependência do esqueleto do Fórum para sala de aula, o que é válido, queriam a creche. Mais um pouco e reclamam um playground. Eles fazem a manifestação, quem garante o conforto é o governo, alvo dos protestos.- O Fórum do Orçamento de Curitiba se manifestou sobre a Lei de Diretrizes Orçamentárias para o ano 2000: não escalona prioridades e simplesmente se vale de um elenco de metas; despesas de capital não parecem associadas às metas e prioridades; orientações da LDO pecam pela generalização, dificultando a monitoração orçamentária e a transparência; a LDO está em descompasso com o Plano Plurianual em vigor. Projetos como Cidadão Saudável, Coração Social e Empório Metropolitano não aparecem no Projeto 2000.-
FOLCLORE Há quem entenda que uma olimpíada de assentamentos e invasões de sem-terra daria mais retorno do que os Jogos Mundiais da Natureza. Em paralelo uma exibição didática de como ocupar áreas pelos sem- terra, seguida de uma outra da Polícia Militar revelando como desocupá-las. Seria contra-relógio para ver quem venceria na rapidez: a ocupação ou a desocupação.
CROMO Esse teu olho de bolinha de gude jogadeira me leva à infância.
AFORÍSTICO O disco voador pára no pátio da Assembléia: Aníbal Khury não deixa por menos e prende os ETs. Tudo perto do Palácio e Lerner não aprende.





