O ‘‘medium’’ social
Nada mais parecido com um ‘‘medium’’, no rigor das práticas espíritas, do que essa camuflagem que marca os movimentos sociais: pessoas da classe média, com roupagem de sem-terra, protestando e pretextando; burocratas com carteira de trabalho assinada tentando fazer o gênero ‘‘excluído’’; enfim, as radicais apropriações de ‘‘máscaras’’ alheias, como num carnaval político, estavam, ontem, representadas no palco do Centro - Cívico. Burguês fingindo de militante social, proprietário rural (pequeno, mas dono) envergando a bandeira do MST, os velhos disponíveis de todos os tempos, os estudantes profissionais (essa coisa velha e hedionda) acreditando-se no limiar da revolução.
De outro lado, outro mimetismo: o de um governo corrupto (vide o ocorrido com o Banestado, a sacanagem da propaganda, a pilantragem dos Jogos Mundiais da Natureza) querendo assumir a imagem do mediador num conflito que, no fundo, estimulou com a sua cumplicidade adiposa ao não cumprir de forma sistemática decisões judiciais de desocupação de sem-terra, e quando o fez não abriu mão da prática da tortura para convencer os recalcitrantes.
No meio de tudo isso a batalha da informação já perdida pelo governo: órgãos como a Anistia Internacional só olham um lado da questão por generalizar o conceito (não passa de um estereótipo como outro qualquer) de que estamos diante de uma polarização entre opressor e oprimido, simplificação ideológica ao gosto dos primarismos como o dos fascistas que apenas queriam com a sua compulsão de violência salvar a pátria e os valores da família. Não se vê uma observação como a da Fazenda Borborema onde os sem-terra assaltaram, torturaram e mataram, mas tão somente os sofrimentos dos humildes diante da polícia que realmente é barra pesada e não conhece outro código. Ninguém consegue retirar centenas de famílias de invasões com pão de ló, oficial de justiça e à luz do dia. O negócio é de madrugada, para surpreender sem câmeras indiscretas do PT, da CUT e da Pastoral da Terra.
Nenhum dos lados quer a reforma agrária, mas tão somente a ebulição política e ideológica para cooptar clientelas, até porque ela perdeu o bonde da história há muito tempo, como havia acontecido com a abolição da escravatura.

BIZARRICE
O pastor evangélico chegou no meio da multidão no Centro Cívico e bradou: ‘‘Prenderam o dono da Encol. Não percamos as esperanças.’’ No Palácio as pessoas se olhavam como se estivessem perto do Juízo Final.



AXIOMA Se há Chapéu Pensador pode haver também a Cueca Selada.
GLOSA Que chatice luminosa a revista ‘‘Bundas’’. A carioquice radical é o defeito maior. Um Pasquim piorado e cromático.
EPIGRAMA Os professores foram ontem à Assembléia Legislativa. Aí a cantora Mara Batista, do Tribunal de Contas, cantou ‘‘Tempo de Infância’’ de Ataulfo Alves e a liderança ideológica da APP remexia os músculos do rosto e a militância quase chorava. Esse é o Brasil real e não o que está na cabeça de supostos ideólogos. A catarse é imediata.
Mas quem resiste ao ‘‘saudades da professorinha que me ensinou o beabᒒ?
SPRAY Quem se mexia ontem, como mais realista do que o rei, era o deputado federal Sílvio Barros na hora do depoimento do delegado da Polícia Federal João Batista Campelo, na Comissão de Direitos Humanos, e para preservá-lo.- Na base da inveja, nuns casos, e da crítica, em outros, a sociedade fazia os mais variados comentários sobre o casamento da filha do governador. Uns viam uma dimensão forte de terceiro mundo; outros, o máximo.- Todo mundo em Foz do Iguaçu chiou contra o anúncio do Banco Itau, aquele que falava da obviedade dos roubos de carros em direção ao Paraguai. O Itau já ia ‘‘dançando’’ nessa estória do símbolo de Curitiba. Precisa benzer-se antes de tratar de coisas do Paraná: o Banestado, por exemplo.- O público em geral não deu a mínima bola para o agito de ontem no Centro Cívico. Nem ele, nem o governo. Houve quase uma competição de bravatas: um dizia que o acampamento permaneceria até a deposição de Lerner e de FHC; a APP afirmava que isso era o começo do fim do governo estadual, o qual, por sua vez, pensava que detonaria o professorado com o fim dos descontos em folha, o que também não aconteceu. Iludir-se é preciso.- O número de carros roubados, só em Curitiba, é a metade da produção diária atual da Audi-Volks. Isso não é economia informal. Talvez seja em respeito a esse dado dinâmico que a polícia não dá um fim no problema.- Bento Chimelli, dono da Rádio Cultura, cortou o programa que o pessoal do PMDB (leia-se Marisa Vilela, Pisseti) vinha fazendo com algum sucesso. É que Chimelli se irritou com a cobertura em favor dos sem-terra. Mas os sem rádio estão atrás de um novo prefixo. Já o Luis Cláudio Romanelli se vale da Rádio Nacional.- O deputado Gustavo Fruet está falando demais em transportadoras e isso não pega bem pra ele, embora ‘‘lobby’’ seja normal numa democracia, como diz Norberto Bobbio, autor de cabeceira do parlamentar, hoje já transformada em mera representação dos interesses.-
FOLCLORE Arrastão da polícia em desmanches, ferro velho, oficinas e lojas de autopeças para coibir roubo de carros lembra, e muito, as ‘‘batidas’’ contra o jogo de bicho, que se limitavam a prisão de apostadores e cambistas, ou de perseguição de mariposas a pretexto de combater o trotoir malicioso. Trotoir malicioso, aliás, é político mudando de legenda.
CROMO ‘‘Meu coração amanheceu pegando fogo// fogo// foi uma morena que passou perto de mim// e que me deixou assim’’. Registro de quando a música popular dava para memorizar.
AFORÍSTICO Ainda bem que só querem cadastrar frequentadores de motéis. É que falaram com tanta raiva do assunto que dava impressão que iriam castrar.

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