Luiz Geraldo Mazza
Muito antes do que se esperava, a CPI dos títulos estaduais, depois de uma escalada ascensional na mídia como um foguete de três estágios, começa a mostrar sinais evidentes de fadiga do material, stress, tanta energia que despendeu para subserviência à sociedade do espetáculo e ao estrelismo de alguns dos seus principais integrantes. O Paraná felizmente está presente nisso para o bem e para o mal e ao menos não parece como figurante ou, o que seria pior, omisso.
Quem deu o tom de veemência ao processo foi o relator Roberto Requião, mas quem o deteve (sem apelar e apenas se escudando num arrazoado técnico) acabou sendo aquele que pretendia pulverizar, o burocrata Murta Ramalho, presidente do Banestado. Requião ousou - e isso é uma qualidade - enfrentar aquele que o suplanta em matéria de autoritarismo e prepotência, o presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães. E essa é outra causa do curto-circuito na engrenagem da CPI: Malvadeza está irritado com a ruptura de um acordo que limitava a quebra do sigilo telefônico e bancário aos que tivessem prestado depoimento. Esse seria, no mínimo, um pré-requisito. Claro que o presidente da Câmara Alta pretendia proteger os bancos do assédio excessivo e também Maluf. A quebra do sigilo de Celso Pitta foi a gota que transbordou o cálice.
A maioria dos senadores está convencida de que o papel da CPI se esgotou e que as providências daqui para a frente devem caber à Polícia Federal e, é claro, ao Ministério Público. Magalhães estabeleceu restrições em gastos para a CPI e isso significa que irá mais longe, além de dizer que não fala mais com o senador paranaense e tão-somente com Bernardo Cabral, presidente.
Requião queria mais 45 dias, o que o deixaria exposto na mídia, como quando era governo ou simulava disputar uma eleição no PMDB com Quércia (tudo, aliás, com dinheiro público, o que consta do seu processo de cassação), subestimando que o assunto está saindo das manchetes e perde em impacto, de longe, das cenas de Diadema como do engasgamento das reformas de FHC. O desplugamento, conforme previ há uma semana, está em andamento e agora caberia apenas diante do apagar dos holofotes deixar ao fundo a declamação, à conta de Paulo Autran, do E agora, José? de Drummond de Andrade.
BIZARRICE Quando da guerra do pente, um quebra-quebra que sitiou Curitiba em 1957, obrigando a intervenção do Exército, já que a PM se mostrava incapaz de controlá-lo, um repórter da Rádio Cultura praticamente contaminava a população pelo tom emocional dado à cobertura. À certa altura pergunta à técnica, depois de duas ou três notas sensacionalistas (uma das quais sugeria que uma criança de três a quatro anos teria sido morta a pata de cavalo, alertando que se o fato fosse confirmado o furo é nosso), quem atendia o posto número 1 da reportagem. E nada de resposta. De repente timidamente o rapaz da técnica, diante das seguidas perguntas do repórter chefe, balbuciou que o posto número um é o senhor. Mais ou menos isso se deu com Requião quando Murta do Banestado disse que na gestão dele haviam sido adquiridos títulos estaduais num total de R$ 359 milhões de Goiás e no mercado secundário.
SPRAY O investigador investigado: isso vai acontecer fatalmente com o fantasma que ligou domingo último para o celular do empresário Eudes Moraes se dizendo Fausto Solano e que tudo iria estourar na CPI do Senado. Eudes retrucou alegando que não sabia de quem se tratava e por isso já pediu à Telepar a quebra do seu sigilo telefônico para descobrir a chamada de origem. - Richa esteve com FHC que lhe pediu apoio no trabalho de remoção de arestas para o ingresso de Lerner no PSDB. No café da manhã FHC disse da importância estratégica dessa aquisição que deveria ser feita de uma forma que não violentasse o diretório regional. É o que se diz e quem contou parece ter visto até a fumaça do café em Brasília. - Por falar nisso, Álvaro Dias em Brasília teve contacto com Sérgio Motta, mas reluta em aceitar a Telepar se não ficar com todas as diretorias. Foi assim que perdeu a binacional de Itaipu. Ouviu apelos para a aquisição tranquila do passe de Lerner no ninho tucano, onde, aliás, não é estranho, tanto que o PSDB o apoiou na sua derrota na aliança PMDB-PP. - A CPI do Banestado é necessária, ainda mais depois do que o senador Tuma falou sobre o Del Parana e que seria a maior lavanderia de dólares. Há essa estória e outras como a dos cisnes negros e do cachorro quente de US$ 1 milhão por dia do governo passado. Que tal passar a limpo tudo isso de uma vez?
FOLCLORE 1 Enquanto pega fogo na política e na CPI, Lerner vai aos Estados Unidos fazer palestra para mostrar que Curitiba é exemplo ecológico. Fantasia dupla, mas dessa vez é bom levar um guia se não pode querer entrar na linha e acabar fazendo-o na de um metrô. Viaja hoje para a Virgínia. -
FOLCLORE 2 Valdir Leal, o Tabaco, motorista impagável de Requião (até hoje não recebeu o que o ex-patrão lhe devia), acampou em Brasília fazendo o protesto, segundo o qual quem não paga o que deve não tem o direito de fazer cobranças. Dizem que FHC passava com o automóvel e até deu uma olhada no protesto isolado que felizmente não era contra o seu governo. Foi notícia em O Globo e teve os seus minutos de glória como o Eriberto, aquele que entregou as trutas dos fantasmas de PC Farias e virou capa de revista.
CROMO Político engajado acha alienante olhar o vôo de uma borboleta.
AFORÍSTICO Burguesia, rapaz, não é o regime dos que comem hamburguer.





