As batalhas de rua
Um dos delírios clássicos do populismo é achar que agito de rua derruba governo. É mais ou menos a reprodução do arquétipo que as massas ingênuas formaram sobre episódios como o da Queda da Bastilha. Normalmente, só em casos muito especiais, dão certo. Nas ‘‘Diretas Jᒒ não deram certo porque, mesmo pressionado, o Congresso negou apoio à emenda Dante de Oliveira. O caso do ‘‘impeachment’’ de Collor teve componentes mais fortes, inclusive naquele apelo que o presidente fez ao povo para ir de verde e amarelo às ruas e o traje usado foi o preto, de luto, e a cara pintada.
Convergem hoje para o Centro Cívico todos os queixumes e diante de um governo sabidamente desgastado pela corrupção, ineficiência, ausência de pulso. Só essa circunstância é o fato novo porque nas mobilizações anteriores Lerner até que detinha um Ibope bastante forte, ao ponto de situá-lo entre os melhores do País, o que dificilmente ocorreria agora. Para complicar está minado pelas crises internas, inclusive a do aparato da PM, cuja vulnerabilidade ficou visível na facilidade com que abriu espaços para um vigarista que logrou a própria corporação.
Percebe-se também que os recursos ao Judiciário no caso do confisco em favor da ParanaPrevidência são bem mais eficazes e contundentes para o governo do que palavras de ordem, repetitivas, e passeatas, inócuas, e sempre com os mesmos personagens.

BIZARRICE
E que tal um casamento de sem-terra, mesmo que seja junino, portanto simulado, para servir de contraponto à festa de Nova York? Um barquinho, no rio Belém, conduzindo o casal, parte do Bosque do Papa até a rua Cândido de Abreu com o povo lançando arroz na cabeça dos noivos. À frente o urbenauta Eduardo Fenianos conduzindo um pedalinho em forma de cisne.



AXIOMA Para decalcar a revista ‘‘Burda’’, portugueses lançaram ‘‘Nárdega’’. E agora, de forma bem mais direta, saiu ‘‘Bundas’’, do Ziraldo e do empresário paranaense Gilberto Camargo.
GLOSA Grupos favoráveis ao fechamento da Estrada do Colono mandam 75 mil cartões postais a FHC e os adeptos da abertura enviam igual quantidade de cartas. Uma batalha postal, enfim. Melhor do que uma bostal, como quase sempre acontece em assuntos polarizados.
EPIGRAMA Do panorama visto da ponte do rio Hudson para o visual da praça do Centro Cívico, da sacada do Palácio Iguaçu, a diferença é gritante. Hoje haverá mais gritos e por isso será mais gritante ainda.
SPRAY O governador passou o dia de ontem como quem despertou de um sonho, como se tivesse sido nocauteado: religiosos bronqueados contra agressões aos sem-terra, crise na PM, afundamento precoce do fundo de pensão com as liminares às dezenas, falta de dinheiro para fechar a folha de pagamento de junho, aumento do pedágio (os gaúchos o baixaram significativamente), pressão do PPB por maior participação no governo.- A batalha dos sem-terra segue como comédia de equívocos: Candinho falou que o grampo contra o MST se deu entre 10 e 25 de maio, mas o pedido do sargento PM Valdeci Pereira da Silva, na comarca de Loanda, foi no dia 12 e o despacho da juíza, autorizando-o, no dia 11. Non sense perto da sublimidade.- É a sequência de derrotas oficiais na ‘‘guerra’’ e que se acentuará logo com a divulgação de fitas mostrando como a PM faz um despejo (madrugada, lançamento de bombas de efeito moral e coação nos barracos para que todos ponham a mão na cabeça).- Há informes no sentido de que o governo teria, de seu lado, pelo menos oito fitas dos ‘‘grampos’’ em que se sinaliza subversão.- Por enquanto, os sem-terra preferem subvenção ao pleitearem que o governo sustente o acampamento lona preta, chapa-branca.- A Bahia festeou a chegada da Ford, que vai custar uma nota preta, mais ou menos como no modelo paranaense. Mais de um bi de investimento para 1.500 empregos. Nem que o desejasse o Paraná se habilitaria: a folha de pagamento de maio saiu porque o dinheiro do desconto-confisco da previdência garantiu. Com liminares não vai ser fácil juntar o numerário.- Enquanto o Paraná está literalmente num buraco, Campo Mourão bota aqueles carneiros de sonho (que saltam os obstáculos de forma interminável enquanto dormimos) no buraco no lançamento hoje, às 20 horas, no Clube 10 de outubro, de sua festa nacional a ser celebrada em 11 de julho.- Os sem-terra acampados no Centro Cívico são acusados de terem expulsado os mendigos que ocupavam o ‘‘esqueleto’’ do Fórum. É mais uma etapa da luta do dominante, ainda que ilusório, contra o dominado.- Se as agências de propaganda começarem a falar uma da outra, como se deu no depoimento da Mercer, entregando a Head‘s como beneficiária da parte do leão nas contas do Banestado, a coisa vai ficar mais preta que lona de acampamento.- Um dos hábitos da área é o superfaturamento no custo de produção (arte, cartazes), normalmente incompatíveis em preços de mercado. Nesse particular os veículos também abusam com tabelas especiais para o governo.
FOLCLORE Havia um deficiente físico que vendia bilhetes lotéricos na Travessa Oliveira Belo e que era um ‘‘corneteiro’’ (torcedor que dá palpite nos atos de diretoria e na escalação do time) coxa-branca. Um dia o Adão Plínio da Silva, então técnico do Coritiba, passava pelo local e foi assediado com mil críticas sobre a maneira da equipe atuar, ausência de variação de jogadas. Adão ouviu os insultos e não deixou para depois, olhando para o torcedor fanático bem nos olhos: ‘‘Olha, se o time continuar ganhando vou torcer para que dê cupim na sua muleta’’.
CROMO Agulha num palheiro é um sem-terra encontrar um trevo de quatro folhas, símbolo da sorte, na confusão do acampamento.
AFORÍSTICO Lerner anda tão por baixo que com o seu retorno os coxas já estão com medo de perder o próximo Atletiba. As coisas nossas não andam, bastando ver não houve lance das petrolíferas no leilão da Bacia do Paraná.

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