Luiz Geraldo Mazza
A grande recepção
Nunca, na história universal, um só governante em início de segundo mandato foi procurado, a um só tempo, por representações tão variadas (variegadas, diria o Rafael Greca) da sociedade: sem-terra, professores, desempregados, punks, mendigos, estudantes, ambientalistas, sindicalistas. É o que vai se dar hoje, provavelmente (quem sabe haja um desvio de rota ou aquela vontade de ajustar o fuso horário depois da estafante missão aos States), com o retorno de Jaime Lerner. O Livro dos Recordes, que deve em breve homenageá-lo como o viajante que não cansa, está de olho nesse encontro de Lerner com as massas que se dizem espoliadas. Na perspectiva palaciana, Lerner, diante da plebe, será como o Papa no Vaticano à frente dos fiéis.
Deixou o Paraná com turbulências terríveis: o acampamento sem-terra pedindo a liberdade dos companheiros presos e reclamando por novos assentamentos, pois até agora, pelo menos, nos dois últimos meses, o governo apenas desassentou; o ParanaPrevidência fazendo água por todos os furos das liminares que ameaçam acabar com a idéia vendida como miraculosa; o Ministério Público iniciando a devassa em pelo menos uma das múltiplas caixas-pretas do governo - a da propaganda; o leilão das estatais, Copel e Sanepar, observado com maior carga de desconfiança de toda a sociedade, da mesma forma que o pedágio, confiscatório como as contribuições do Fundão num funcionalismo com salários arrochados e, mais ainda, com os tumultos na hierarquia da Polícia Militar.
Agora retorna e desperta, como se tomado por sonambulismo, com essa megaconcentração de descontentamentos diante do Palácio, isso sem falar nas outras que afetam a base aliada, cada vez querendo mais quando o governo tem muito menos a oferecer. E vai ouvir a multidão chamá-lo de Pinochet, o que não é justo, mas não deixa de ser uma retribuição poética à exploração que fez do massacre dos professores para desqualificar Álvaro Dias. Hoje só os áulicos o desejam por perto: o Álvaro Dias, que ainda permanece com aquele mesmo discurso e o ar de galã de fotonovela (Lerner o acha mais parecido com maitre de churrascaria de estrada), é o procurado da moda quando o governador não chegou sequer à metade do primeiro ano de remandato.
BIZARRICE
Deputados estaduais deveriam ser mais desapegados. Já que pretendem acusar os sem-terra de violências contra os bens das fazendas invadidas, o que é incontestável, deveriam fazê-lo com alto-falantes dirigidos para o acampamento. Outro dia o Plauto Guimarães ameaçou fazer o discurso e depois o Nelson Justus. Que tal ter os sem-terra como auditório?
AXIOMA O casamento em Nova York pode ter sido o Baile da Ilha Fiscal, aquele que precedeu a queda da Monarquia, relativamente a Lerner. D. Pedro II, irritado com o excesso de prodigalidade, saiu mais cedo, pouco depois da uma da madrugada. Descuidado, escorregou e quando vieram acudi-lo, saiu-se com esta: O império tropeça, mas não cai! Na semana seguinte, caiu. Lerner tem uma fórmula insuperável para evitar quedas: viaja. Assim mesmo foi apanhado por um carro em Londres. Por enquanto, balança, balança, mas não cai.
GLOSA Mais uma vez estudantes e outras categorias se valem dos sem-terra para colocar suas velhas arengas, como o passe escolar. Derrotados no Provão e nas privatizações, juntamente com a liderança sindical, parecem pés-frios para o MST, que arregimenta até punks.
EPIGRAMA O País está no desvio: o presidente FHC não impõe o respeito e insiste em nomear um delegado da Polícia Federal acusado de tortura; presidentes da Câmara e do Senado trazem para o cenário uma briga de feira.
SPRAY Na Cotriguaçu em Paranaguá, uma descoberta de soja papel que explica parte dos desvios de carga.- Intensos comentários em torno de mudanças na cúpula da PM. Pelo jeito, a linha geral, do envolvimento na política, deve prevalecer, o que é péssimo para a corporação.- Logo estoura nova crise: a a questão, até aqui empurrada com a barriga, dos salários da hierarquia intermediária para baixo, que não teve reajuste.- Ontem, à tarde, plenária de entidades sindicais no IPE, o moribundo, discutia a tese da eleição indireta para os delegados que comporão o Conselho do ParanaPrevidência.- Chantagens dos aliados de Lerner deveriam sair obrigatoriamente do noticiário: os meios de comunicação são usados por factóides para impressionar o governo que está em paranóia. Eles têm uma defesa: o Aníbal Khury faz isso individualmente e obtém melhores resultados, com mais talento e bala na agulha. Afinal, é chefe de um poder.- Desdobramentos relativos à descoberta de como funciona o sistema de propaganda do governo levam à conclusão de que era bem melhor quando não havia licitação. Um trocadilho se impõe: licitação nem sempre é ação lícita.- Amanhã será conhecido o parecer do conselheiro João Féder sobre as contas de 1997 do governo Lerner. Vamos profetizar: fará restrições doutrinárias e até de ordem técnica, mas nos finalmente aprovará o registro. Era assim desde o tempo de Raul Vianna. Precisamos de menos considerando, como dizia o sábio Odorico, e mais finalmente.- O médico Jefferson Ricardo Leal, lá do Hospital de Ortigueira, nega que os sem-terra que examinou tivessem sofrido tortura. Esclarece também que é leigo na matéria, isto é, não domina a área forense.- Uma criança de seis meses morreu numa creche da Amar em Curitiba. Estavam querendo botar pano quente em cima da ocorrência.
FOLCLORE A lista de pedidos de mercadoria dos sem-terra tem as dimensões de uma que a Cruz Vermelha poderia imaginar para Kosovo: 300 quilos diários de arroz e feijão. Essa reforma agrária à brasileira é altamente antieconômica. Se cada grupo desses recebesse essa quantidade de alimentos, só com a venda se daria bem. Se a cada assentado se ajuntasse um japonês, bateria recorde.
CROMO A pinha se abriu como a palma da mão: seguiu-se a chuva de pinhão.
AFORÍSTICO Lerner e FHC não sabem se impor e, quando o fazem, a escolha, quase sempre, é a pior.





