Brincando com estatísticas
O governo - e quando falamos nele nos referimos a todos, independentemente de quem está de plantão - insiste em brincar com números. Apesar de indicadores vários revelarem recessão, queda no nível de emprego, tanto o governador como a Fiep tentam ocultar o sol com a peneira.
Ocorre que hoje o poder não tem o monopólio desses indicadores: além de serem vários são assinados por entidades diversas, públicas e privadas. O Dieese, por exemplo, altamente categorizado, é um organismo de bases trabalhistas e sem o vício das patronais, normalmente arregladas com o sistema, e cuja atuação é reconhecida nos meios científicos e acadêmicos.
Cada vez que trato do tema, costumo lembrar o ocorrido com o Censo de 1980, quando o traço hegemônico atribuído à Copel, no interior do governo, atribuiu-lhe o monopólio das previsões até de ordem demográfica, e aquela empresa fez uma previsão de 10 milhões, indicador que não temos ainda, quando foi apurado pouco mais de 7 milhões e meio de habitantes.
Para tentar, com uma rapidez maior do que o fluxo real dos acontecimentos, justificar a atração de megainvestimentos ao Paraná, especialmente os da área automotiva, os órgãos oficiais começaram a sugerir que batíamos todos os recordes na área do emprego, quando a realidade se mostrava diversa. Somos, como clareia o Dieese, no sul a unidade de pior desempenho industrial, em confronto com gaúchos e catarinenses.
Raramente há uma notícia positiva do setor automotivo, como a mais recente da Audi-Volks, que anunciou investimentos e expansão que permitirão suplantar - a etapa quase artesanal de produção (50 veículos diários) para a quadruplicação e que permitiria a contratação, desde logo, de 700 trabalhadores. O layout dessas unidades fabris é singelo demais, porém com amparo tecnológico e de robótica que lhe permite, em termos capitalistas, obter o máximo de retorno com um mínimo de mão-de-obra.
Os segmentos que empregam na área industrial são aqueles que beneficiam matérias-primas agropecuárias e além desses, é claro, os inclusos no setor terciário da economia (comércio, serviços, intermediários financeiros, transportes, telemática). De um modo geral, não há o que comemorar, embora os bestalhões do triunfalismo, os de sempre, não saibam fazer outra coisa.
Curitiba está com cerca de 200 mil desempregados, embora muitos se empenhem no chamado mercado alternativo, cuja expressão alcança 25% da mão-de-obra, conforme projeção recente da Fundação IBGE. Trata-se de um tipo de desemprego crônico, endêmico, resultante das baixas condições de escolaridade das massas da periferia metropolitana inflada. E essa é a causa maior da dificuldade de o governo aceitar estatísticas sobre nível de emprego, que de ordinário o desmoralizam e revelam a falácia do seu projeto de desenvolvimento, pelo menos a curto e médio prazos.
BIZARRICE
UNE, UPE e congêneres, mais uma vez, saem desmoralizadas no esforço para boicotar o ‘‘Provão’’. Se não tivesse outros méritos, esse já seria bastante alentador em favor do teste.



AXIOMA Com essa experiência do rio Hudson com um barco matrimonial, há quem esteja prevendo que, no fim deste governo, alguém deverá reproduzir o Noé com uma arca-gigante para distribuir a turma pelo mundo porque aqui os espaços estarão bastante limitados. Que a nave vá e não volte, resmunga o PMDB.
GLOSA A vitória da Universidade Federal como símbolo de Curitiba deixou Lerner e seus áulicos arrasados. O esforço de alguns dos seus seguidores para que o Banco Itaú ponha três ícones (mais o Jardim Botânico e o Parque Tanguá) tenta diluir a escolha da população contra a vontade de Sua Majestade.
EPIGRAMA O casamento da filha do governador lembrou em tudo o Baile da Ilha Fiscal, aquele que precedeu o fim da Monarquia: num Estado em crise grave, a maioria da equipe governamental se desloca para o exterior com a maior das naturalidades. Há uma analogia com o casamento da segunda filha de Lupion, em festa realizada no Castelo do Batel, e que assinalou o começo do fim de um ciclo de poder. Samuel Guimarães da Costa fez uma reportagem curiosíssima sobre a festa na revista ‘‘Guaíra’’, que irritou muito a burguesia da praça com as fotos insólitas de alguns figurões alcoolizados e em posturas nem sempre aristocráticas.
Em inusitado a festa de Nova York faz a de Lupion parecer a de um plebeu.
SPRAY Depoimento da executiva da Mercer acentua as diferenças de ganho dessa agência com a da Head‘s, a do genro, nas negociações do Banestado.- PMDB está fazendo alguns programas de oposição em rádios: um deles é na Cultura, a cargo do Benedito Pires; outro é do Romanelli.- Enquanto o PFL está atrás do Belinati pai, o Belinati Filho é alvo de uma avaliação por parte do seu primeiro suplente, o Tortato, quanto a gastos de propaganda. Segundo Rubinho Ferreira, há dessas coisas no PSB.- Pesquisa da Early Warning de Sampa junto a empresários, para presidenciáveis, deu Covas na cabeça, seguido de ACM e lá embaixo o Tarso Genro. Lerner e Garotinho não apareceram nas escolhas.
FOLCLORE Punks acabaram chegando junto ao acampamento dos sem-terra. Dos punks de Curitiba pode-se esperar de tudo, até mesmo o hábito de dormir cedo. Como o MST engrossa seu movimento com a periferia urbana (desempregados e favelados) nada mais apropriado do que assimilar também os punks.
CROMO ‘‘Para encontrar o azul, eu uso pássaros’’ - Apenas o título do livro do poeta Manoel de Barros que projeta no enunciado.
AFORÍSTICO Quem não recebeu convite para o casamento é indiferente?

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