Uma reprise entediante
Antes do atual acampamento do MST no Centro Cívico, tivemos rituais muito parecidos com o de agora: havia presos no interior e pressão dos sem-terra para liberá-los. Também os acampados faziam reivindicações como se houvesse uma obrigação de atendê-las e alegoricamente significasse a rendição do governo. A única diferença é que agora o governo cumpre ordens judiciais, despeja os sem-terra e não faz um só assentamento porque não recebe recursos prometidos de Brasília.
A governadora em exercício, Emília Belinati, conversou nesta semana com o ministro da Reforma Agrária, a quem comunicou a urgência do problema pela circunstância de estarem no disparo 14 pedidos de intervenção federal no Paraná por descumprimento de ordens judiciais. O ministro Raul Jungmann prometeu se empenhar para levantar os recursos solicitados.
Resumindo a opereta: os papos se tornam inúteis por causa dessa inércia. O governo despeja, mas não assenta e, como se não bastasse, mantém vários líderes presos, o que aquece as mobilizações e estabelece riscos de a qualquer ‘‘curto-circuito’’ haver confronto, baderna e se crie, aquilo que muitos ideólogos radicais desejam, um mártir ou mártires, como, aliás, assim são olhados os que foram presos e torturados. Há provas de violências documentais, em fotos inclusive, no Ministério Público estadual, hoje distanciado daquela condição passada de apêndice do Executivo, ainda que agindo em nome de toda a sociedade.
Tanto o governo quanto os sem-terra já cometeram transbordamentos demasiados e a conversa arrastada dos seus porta-vozes, dos dois lados, parece decoração de peça de teatro mambembe, a sublimação do mau gosto. Espera-se que haja um sinal de bom senso até o esgotamento da manifestação que aguarda a volta do governador, viajante compulsivo e que também repete o mesmo ‘‘scrip’’ no palco do Banco Mundial.
Só falta agora o Rafa ter algum relato como aquele gol de ‘‘peixinho’’ do Jaime Lerner quando jogava no Combate Barreirinha.

BIZARRICE
Na rádio CBN o comentarista esportivo Alexandre Zraik dizia que haveria a Lei Greca para substituir a Lei Pelé e que por sua vez entrou em lugar da Lei Zico. Como Zico e Pelé jogavam futebol, o locutor perguntou ‘‘em que posição jogava o Rafael Greca?’’



AXIOMA As espumas de mais de 2 metros que saíam do Lago Azul, em Umbará, segundo um peemedebista, são mais concretas, como indicadoras de poluição, do que as ‘‘espumas’’ da propaganda oficial.
GLOSA Em Ciudad del Este, Paraguai, funciona o Alkapone Bebidas, que oferece em anúncios a venda de qualquer tipo de bebida aos melhores preços e em domicílio. No reclame aparece a careta sorridente do gângster norte-americano. Essa entrega em casa é parecida com ações de contrabando. No anúncio um alerta: ‘‘Consuma o que o Paraguai produz’’. Seria a confissão do uísque fajuto.
Fábio Campana lembra que uma empresa que fazia em alta escala fita cassete pirateada levava o nome de ‘‘Capitão Drake’’, o pirata histórico.
Redundância ou deboche, cinismo ou sinceridade, isso ficaria muito bem nas mensagens de governo. Por exemplo: em vez de Curitiba ecológica se poderia dizer escatológica.
SPRAY Circulou ontem, na Boca Maldita, provocando inusitado interesse, uma cópia do depoimento de Salete Santini, da Mercer Propaganda. - Uns achavam que o depoimento do Jaime Lechinski foi pior para o governo; outros entendiam que ele abria caminho para novos procedimentos. - Enfim, a Boca voltou a viver momentos que só desfrutava na ditadura militar, quando Anfrísio Siqueira trazia xerox de chunchos do governo e até detalhes de ações da temida CGI. - Por falar nisso, dias passados, Cândido Gomes Chagas mostrou um ‘‘confidencial’’ de 1972, em que o presidente da CGI (Comissão Geral de Investigações) estadual pede os exemplares da revista ‘‘Paraná em Páginas’’ de agosto a dezembro de 70. Com isso, Candinho explica tratar-se de uma sequência de atos hostis de Lerner, entre os quais o de havê-lo denunciado ao SNI. Só o que faltava: dedo-duro. - Vereadores estão impossíveis: uns querem retirar o aeroporto do Bacacheri, outros a linha férrea do norte (Cachoeira, Bacacheri, Ahu, Hugo Lange, Cristo Rei) curitibano, nesta por causa da poluição sonora. A população não retira os vereadores com a frequência necessária. - O senador Álvaro Dias deu bom aproveitamento à sua participação no programa do Ratinho, justificando seu projeto de diminuir o número de parlamentares federais, estaduais e municipais. O público presente o aplaudiu, mas os detentores de mandatos, em geral, o vaiaram em silêncio. - Sobre a questão ontem suscitada em torno da corrupção, muita gente se referiria a Haroldo Leon Perez. Percebe-se que a tentativa de busca de vantagem é mais punida do que o ato consumado.
FOLCLORE Discursando na Câmara Municipal, o vereador Mário Celso elogiava o seu xará Mario Celso Petraglia, a quem pretendia conceder o título de cidadão honorário para o que o presidente do Atlético pediu ‘‘um tempo’’. No meio da oratória, confessou que há 14 rubro-negros na Câmara de Curitiba. Aí um vereador coxa resmungou: ‘‘Eles estão numa boa. Nós é que estamos mal: temos o prefeito (Cassio), o governador (Lerner) e nosso único ministro (Greca).’’
CROMO Trens de passageiros já não permitem que a estação ferroviária seja o lugar mais importante da pequena cidade. Para o amor e também a maldade: lembro da mocinha de Paranaguá que fugiu com o circo para longe e o prazer mórbido das pessoas em vê-la derrotada ao retornar para a cidade, impotente.
AFORÍSTICO Inconsciente e próximo do embotamento foi aquele político que, ao ouvir o sem-terra pedir para ir ao Fórum (aquele do Centro Cívico e nele ocupar instalações vazias), julgou que se tratasse de casa de shows com esse nome que funciona no bairro do Portão.

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