Luiz Geraldo Mazza
Concurso da corrupção
Qual o governo mais corrupto que tivemos? Vamos pensar com calma, pois há muita gente que ainda coloca Lupion como um fora de concurso e parece condicionada pela campanha de Ney Braga e as ações do seu secretário da Justiça, Rubens Requião. Isso aconteceu há quase 40 anos e as pessoas, na hora da analogia, esquecem da escala em que se dão os acontecimentos. A atual, com o volume de negócios, na base dos bilhões (meio bilhão gasto em propaganda, mais perto de 1 bilhão nas perdas acumuladas de apenas dois setores do Banestado), torna difícil a interpretação comparativa. Junte-se aí a venda de ações da Copel e Sanepar e teremos, com o leilão das duas (há gente babando para que isso aconteça, logo depois do arremate do banco oficial) uma pálida idéia dos valores.
No passado, no tempo de Manoel Ribas, dificilmente seria imaginável situações como as de hoje, bastando lembrar que uma de suas obras mais relevantes foi a Estrada do Cerne, que nos ligava ao norte cafeeiro, caminho tortuoso e apenas macadamizado. Assim, quem quiser saber qual o mais eficiente e corrupto, e às vezes há convergência entre as duas coisas, deverá fazer estudos em cima da renda estadual, da receita, população, nível de urbanização.
Para os contemporâneos, o julgamento sobre corrupção e feitos se dá na época eleitoral, a mais apropriada, até por nossas deficiências cívicas, para se fazer o julgamento de governantes e candidatos, pois a apatia das massas acaba tirando essa temática do cotidiano. Mas é um exercício interessante e com uma certa dimensão lúdica: por exemplo, quando Munhoz da Rocha era governador, embora o acusassem das obras suntuosas do Centenário e de possíveis desvios, jamais demonstrados, ele respondeu à acusação de que protegia Curitiba com o fato de ter levado o asfalto (aquele tempo importado) entre Londrina e Cambé.
Com Lerner, o Estado provedor, aquele que induziu o desenvolvimento do Paraná, dá seus últimos suspiros e obviamente muitas pessoas e instituições vão ganhar fortunas com isso. A Copel, sempre a maior empresa do Paraná, sai das mãos do Estado, e justamente num momento em que alterava seu mix operacional ao ingressar nos campos da telemática e das telecomunicações. O leilão desse elefante implica na acumulação de todos os feitos da empresa ao longo de sua existência: conhecimento, know-how, obras, cadastros.
Não se pretende com essa lembrança fazer a defesa prévia desse governo, e sim acentuar que as coisas devem observar as escalas. Por exemplo: antes o DER tinha turmeiros nas estradas, muitas das quais construídas por administração direta, isto é, sem a interveniência de empreiteiras. Hoje as empreiteiras não são convocadas para fazer um trecho de rodovia: elas são as donas da estrada e o Estado é precário para fiscalizá-las, se é que lhe interessa fazê-lo.
BIZARRICE
Até anticoncepcionais estavam na lista de remédios solicitada pelos sem-terra. Não deixa de ser um fato positivo não darem bola às posições da Igreja, radical na resistência ao controle da natalidade e que tanto os protege. Por sinal que agnósticos costumam lembrar que o Vaticano tem ações de laboratórios que produzem anticoncepcionais.
Nada há de mal em que a Igreja defenda frascos e comprimidos ao lado também dos fracos e oprimidos.
AXIOMA Francisco Albuquerque, leitor infatigável, me revela ter visto uma tradução de O Espírito das Leis, de Montesquieu, feita por FHC. Alguém, ao lado, observou: Pelo jeito temos que esquecer também, além das suas obras, as suas traduções. Montesquieu rebolaria diante das Medidas Provisórias e do ACM e do Aníbal Khury por acumularem mais de dois poderes.
GLOSA Na PM, o Estado-espetáculo se funde às tradições históricas, segundo o anarquista Elísio Marques, e o nome do comandante do Batalhão de Choque, oficial tenente, é Sílvio Santos de Moraes Sarmento. A família Moraes Sarmento é presente desde a fundação da milícia.
SPRAY PMDB paranaense está de olho na pesquisa nacional (Ibope) que em alguns aspectos foi favorável a Requião (67% querem a mudança da política econômica) e noutros nem tanto: 26% gostariam que apoiasse mais FHC.- PMDB superou PFL no tópico que aponta o partido que mais ajuda o presidente.- Na verdade, o PMDB está cada vez mais parecido com o PFL, como o PSDB se esforça para não parecer um PMDB encabulado.- Desdobramento das investigações do Ministério Público em cima da propaganda oficial pode ser bem mais penosa para o governo do que se imagina. A questão das notas fiscais que aparece na contabilidade dos Jogos da Natureza é uma delas. O Banestado ficou com o mico de R$ 2 milhões do próprio governo.- Farta especulação em torno de documentação fotográfica e em vídeo do casamento da filha do governador num barco no rio Hudson. O casamento da filha de Lupion no Castelo do Batel foi usado na revista Guaíra como arma de propaganda contrária. Abuso ou não, em política não há escrúpulos.
FOLCLORE Hélio Alves, anos 70, era técnico do Coritiba e costumava colocar a dupla Servílio e Kosilek (que vieram do Jandaia), no interior, em lugar dos titulares Kruger e Walter, que jogavam na Capital. Um dia chegou em casa e a família não estava: havia um bilhete pedindo que fosse providenciar no IPE (Instituto de Previdência, este que o governo quebrou) o internamento da filha. Foi lá e de cara um médico o abordou para que escalasse Kruger e Walter no ataque. Nervoso, xingou o doutor. Saiu da fila de espera e justamente o doutor coxa-branca iria atendê-lo. De cara foi dizendo: Quem mais o senhor gostaria de escalar no time? Foi atendido, o doutor não.
CROMO E quando iremos homenagear o Liberalino Estevam, o poeta populírico que apascentava nuvens e transformava caspa em purpurina?
AFORÍSTICO Os sem-terra queriam, ontem, ocupar o prédio do Fórum condenado. Para quem condena a Justiça, nada como habitar um fórum condenado.





