A cizânia na PM
Muito antes do que se poderia esperar, as consequências da passagem, com livre trânsito, do vigarista Joni Rodrigues na alta hierarquia da PM gerou problemas internos. Como há copiosa documentação em vídeo desse estranho contubérnio entre homens da lei e um foragido da Justiça, criou-se um clima de caça às bruxas no interior da corporação. Ontem, por exemplo, o major Betes, chefe da Comunicação Social da PM, estava empenhado em desfazer equívocos plantados por um oficial superior, que o acusava de ter fornecido as fitas à imprensa, o que não é verdade. Ele só tomou conhecimento delas quando a mídia o procurou para ouvir o comando sobre o assunto.
Esse incidente é decorrente da ‘‘politização’’ da PM e o clima daí decorrente, com seus efeitos perversos que acabam influindo nos códigos internos, como se deu no governo Requião, quando nomearam para o Corpo de Bombeiros, a mais preservada instituição da milícia no conceito popular, um oficial de patente inferior ao exigido regulamentarmente para o posto. O fato gerou uma crise interna que acabou provocando a ida para a reserva de vários coronéis, também inconformados. Esse trauma deu margem a denúncias sobre exageros nas compras e aproximação extrema entre fornecedoras de equipamentos e oficiais.
Agora o caso é muito mais grave: não se trata de aproximação a fornecedores regulares, que afinal constam de cadastros oficiais, mas da facilidade com que transitava na instituição, com agilidade de lambari de sanga, um delinquente, já condenado, e com mandado de prisão desde 1996 nas gavetas da Delegacia de Vigilância e Capturas, o que corresponsabiliza também esse setor da polícia civil. Não há razão política que justifique qualquer empenho no sentido de subestimar a relevância do episódio, que se agrava no fato de o estelionatário ter obtido o mais amplo sucesso nas suas investidas, inclusive no próprio seio da corporação.
Está aí aquilo a que os militares de 64 tanto se referiam: a cizânia chegou aos quartéis e intestinamente, intramuros, facilitada pela inércia daqueles a quem cabia o máximo de zelo com os códigos da instituição.

BIZARRICE
Será que a polícia usa os mesmos grampos que emprega para ouvir os sem-terra em casos como o dos 20 encapuzados que mataram um preso dentro de uma delegacia e que o próprio corregedor acredita serem policiais?



AXIOMA ‘‘Tudo o que é sólido se desmancha no ventilador!’’ É a paráfrase do ex-magistrado e advogado anarquista sobre os eventos de Brasília, inclusive os de ontem na CPI dos Bancos.
GLOSA Caça às bruxas na Polícia Militar: a prioridade não é examinar o fato em si de a corporação ter convivido com um vigarista, e sim o de saber quem teria levado aos meios de comunicação os vídeos do oba oba. Raciocínio igualzinho ao dos tempos de chumbo de 64 em diante.
LUTA DE CLASSES Aí o repórter indiscreto descobriu que líderes sem-terra estavam em hotéis. É a prova de que a luta de classes é eterna, tanto que nem a ditadura do proletariado evitou o surgimento da nova classe, a nomenklatura, na extinta União Soviética. O consolo é que enquanto a hierarquia estava em hotéis (na verdade, pensões humildes) de uma estrela, a massa ficava num com todas as estrelas do céu. Para os menos favorecidos o consolo é sempre religioso, moral ou poético. Isso faz parte da condição humana e de seu itinerário trágico.
A propósito, dá para notar que o pobre sempre leva a melhor sobre o rico nas anedotas, como também o capiau no meio urbano, o malandro brasileiro sobre o estrangeiro ou o caiçara ante o veranista. Sabidamente uma farsa, pois o dominante só perde para o dominado em alegoria.
SPRAY O Palácio Iguaçu estremeceu e não foi por causa dos sem-terra, mas do material do Ministério Público publicado na imprensa sobre gastos com propaganda.- Telefonemas nervosos foram trocados com Nova York, pois a orelha de Lerner estava rubra diante das notícias.- Acusação básica do promotor Delazari: o Banestado teria gasto pelo menos R$ 91 milhões em publicidade sem licitação entre 95 e 98.- Como há coisas mais graves na área, esperava-se um terremoto em cima das agências de propaganda, acusadas pelo sindicato de jornais e revistas de levarem a parte do leão como repassadoras de verbas por trabalhos diversos de consultoria.- Como o dia não estava bom para o governo, veio outra bombinha: o mandado de segurança, impetrado anteontem pela oposição (bancadas do PT e PMDB) contra o arquivamento da CPI Sercomtel/Copel/ Banco FonteCindam.- No pedido de liminar argumentam que, caso não seja instalada a CPI, os prejuízos aos cofres públicos podem se tornar definitivos.- Como nessa ditadura disfarçada, que é o sistema de freios e contrapesos constitucionais do Paraná, tudo se acerta nos panos quentes, o eleitor Rubens Ferreira está constituindo advogado para pleitear a intervenção do Ministério Público na questão da Sercomtel-Copel. Estranha-se que nem o prefeito de Londrina, muito menos a Sercomtel e a Copel tenham dado explicações cabais sobre o tema.- O Ministério Público de São José dos Pinhais, em 22 de outubro de 98, alegando que a Fundação Boticário não tem prestado contas ao setor de fundações sobre os seus programas na Mata Atlântica, pede providências.
FOLCLORE Oscar, o maior ídolo do basquete brasileiro, nunca recebeu tantos prêmios como os obtidos por ter errado o lançamento de uma lata de refrigerante num cesto de lixo em Curitiba. A peça ganhou o Grand Prix da Associação Brasileira de Colunistas de Marketing e Propaganda, como já havia obtido mais dois prêmios ‘‘colunistas do Paranᒒ e da regional sul. O feito é da agência Master na melhor imagem até agora do ‘‘lixo que não é lixo’’.
CROMO Que tal uma festa junina dos sem-terra no Centro Cívico? Afinal, por não terem terra não significa que sejam sem alegria.
AFORÍSTICO É mais fácil hoje dançar quadrilha do que uma quadrilha dançar.

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