Luiz Geraldo Mazza
O banquete interminável
Para Lerner, que adora frasismos, o futuro é agora. Assim, em nome de hoje se sacrifica o amanhã. Agiu assim relativamente às montadoras, com as quais aprenderemos que jamais darão os frutos imaginados, sacrificando receita futura pelas concessões fiscais - feitas. Não é o exterminador do futuro, como sugeriu, várias vezes, o senador Roberto Requião, mas sim o pródigo que se dispõe a gastar agora, com a volúpia compulsiva, o que poderia arrecadar amanhã para calafetar o barco que ele próprio destruiu.
É preciso deixar bem claro que o Estado foi quebrado sob o seu governo. A parte visível do iceberg é o Banestado, levado à exaustão pela fraude e a incompetência, visíveis nos casos da Leasing e da Corretora. A ausência de meios para fechar a folha de pagamento do funcionalismo é outra consequência do descalabro: mandou para o espaço o modelo de gestão financeira que vinha sendo seguido dos anos 60 para cá e para financiar suas elucubrações, como os Jogos Mundiais da Natureza, transformou agências de propaganda em válvulas de sucção no movimento de dinheiro público e de notas fiscais.
Para viabilizar o fundo de pensão do Estado, ParanaPrevidência, tenta várias acrobacias entre as quais a de comprometer os royalties - de Itaipu até 2023, comprometendo o equivalente a cinco governos, para tapar o rombo que fez em menos de cinco anos no erário. E arma, nitidamente, uma chantagem para Euclides Scalco, seu presidente, como se a sua condição de paranaense o obrigasse a atender deficiências financeiras de um governo atolado em casos de corrupção, como os visíveis no Banestado, e no carnaval da propaganda. Ora há vários intervenientes nesse processo - como a Eletrobrás e algumas das distribuidoras, como Furnas, Eletrosul e a própria Copel - e um assunto desses não se decide de estalo, como tentou junto a FHC, usando como paradigma a concessão feita a Garotinho, governador do Rio, com royalties da Petrobrás e a anuência do BNDES, que prefere, como seus dirigentes alertaram, a caução de ações da Copel como antecipação de receita.
Quebrou o Estado e quer tapar os buracos com receita de futuros governos. Só esse enunciado demonstra que não temos oposição. Se fosse minimamente máscula, não permitiria que a manobra evoluísse e tentaria contê-la no âmbito político e no do Judiciário. O mais grave é que essa tal - de ParanaPrevidência, ora já configurada por decisões judiciais como de cunho confiscatório (mata aí o hoje dos servidores sob a promessa de um impreciso amanhã), seria o fundamento de tudo. Com orçamento mais folgado haveria sobra para mais gastança e fora de qualquer controle, porque ninguém se ilude com a eficácia do Tribunal de Contas.
LEMBRETE
Sabem quanto o governo paranaense e municípios já receberam da Itaipu a título de royalties? Mais de R$ 340 milhões. Em que ralo essa dinheirama vazou? E o governador ainda quer comprometer essa arrecadação futura para viabilizar mais uma de suas criatividades. Não seria o caso de a sociedade exigir, agora sim, que mostrasse a sua criatividade em recuperar o Tesouro que afundou com benesses em favor de minorias?
BIZARRICE Antonio Anibelli aproximou-se do estacionamento e lá estava o Baiano, flanelinha, pronto para levar algum. Como o prefeito tentou sugerir que estava sem grana, o Baiano atacou: Quando você vinha em 1965, com um TL azul estourado, não deixava de dar gorjeta. Sensibilizado pela lembrança, o prefeito deu vintão para o flanelinha.
AXIOMA O MST fez tantas exigências à Prefeitura de Curitiba - 32 mil metros quadrados de lona, 30 banheiros móveis, sopão para 3.500 pessoas, 500 metros de corda fina, quatro rolos de arame, 200 metros de mangueira de meia polegada, médico, ambulância, água potável, sacos de lixo - que o seu acampamento pode ser olhado como autêntico chapa branca. Embora a lona preta.
GLOSA Lerner viajou; hoje é a vez de Cassio, que vai a Brasília. A única do basquete (e aí não há metáfora, pois já jogou na seleção paranaense) que permanece é a Emília, a que não deserta na chegada dos sem-terra.
SPRAY A gestão privada de recursos de natureza pública é inconstitucional, segundo o constitucionalista Clemerson Kleve. A observação não atinge apenas a terceirização das multas do DER, mas todas as organizações sociais, incluindo a ParanaPrevidência, hoje existentes.- Cassio Taniguchi viaja a Brasília, almoça com o embaixador do Japão, Katsonari Suzuki, e à tarde participa com mais oito prefeitos de capitais metropolitanas de encontro sobre assuntos da área e mais sobre a reforma tributária na Câmara Federal.- Polícia Militar atravessa uma das suas piores crises de imagem de sua história com o envolvimento de gente de sua alta hierarquia nas ações do vigarista Joni Rodrigues.- Atribui-se o fato ao clima politizante que tomou conta da instituição, o envolvimento com políticos ficou visível no oba-oba de uma churrascada em que foram homenageados Aníbal Khury e o Joni Rodrigues, este por haver doado um trator à PM, o que é revelador de intimidades inaceitáveis.- Relatório do deputado Plauto Guimarães sobre a questão da terra, chamando o MST de vândalo, deu margem a bate-boca. Isso, para véspera de acampamento, é gasolina no fogo.
LUTO A reportagem política está de luto com a morte de Liones Rocha, que fez pela Gazeta do Povo o que Rubens Ávila realizou por esta Folha nos anos 70: a cobertura dos fatos de Brasília e a inserção específica do interesse paranaense. Critério e caráter marcaram a sua atuação. Além disso, a solidariedade aos companheiros, como fez em relação a mim em processo judicial como testemunha de defesa.
FOLCLORE O burocrata da Prefeitura viu a lista de pedidos do MST e perguntou à Procuradoria se dava para dispensar a concorrência pública, alegando motivo de força maior e situação de emergência.
CROMO Se tivermos neve outra vez, haverá de novo os zangados reclamando que festejá-la é alienação ou eles se renderão ao espetáculo solidário e lúdico?
AFORÍSTICO Covardia será ler o relatório agressivo aos sem-terra com os alto-falantes da Assembléia Legislativa voltados para o acampamento.





