Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Lealdade não recíproca
Um dos maiores lugares comuns em política é a reclamação em torno da quebra de lealdade: ora é o governador que entra, eleito pelo que sai, querendo azedar a vida do antecessor, como se deu aqui recentemente entre Mário Pereira, e Roberto Requião e Álvaro Dias contra José Richa. Se há mercadoria rara nesse exercício, é justamente a lealdade, pois todos os que se dedicam a esse mister sabem que, a qualquer momento, podem ser vítimas ou autores do pecado venial.
As observações vêm a propósito dos constantes curto-circuitos entre Lerner e a vice-governadora, Emília Belinati, com os dois lados lançando mão do mesmo argumento - a quebra de lealdade. Concretamente, Emília tem sido discreta na sua tarefa, mas o faz com a competência suficiente para mostrar que não é ociosa - tanto que reclama por mais participação.
Richa elegeu Requião prefeito, carregando-o nas costas, transferindo-lhe o fulgor do seu Ibope, naquele tempo, de governador brasileiro de credibilidade máxima. Quando Requião foi candidato ao governo, sabendo que a única forma de vencer o pleito era tirar Richa do páreo, valeu-se da aposentadoria deste para marcá-lo como beneficiário de uma imoralidade. Aliás, deu-se aí uma espécie de justiça poética, pois Richa se beneficiara anteriormente de situação igual vivida pelo seu adversário, Saul Raiz, inativo do Tribunal de Contas.
Se há alguém que deve a outro a sua eleição, é o caso de Requião em relação a Álvaro Dias, que foi ao sacrifício, ficando quase uma década sem mandato, ao permanecer no governo quando percebeu a trama que garantiria a vitória de Richa, caso Ari Queiroz assumisse o Palácio Iguaçu. Ao denunciar os filhos do mal (ele queria referir-se a filhos de outra coisa, menos abstrata) Álvaro assumiu o peso da responsabilidade de eleger seu sucessor e foi da sua força e do seu irmão, Osmar, o fator de desequilíbrio que garantiria a vitória no segundo turno contra José Carlos Martinez.
Lerner viaja e alguns dos seus conselheiros sugerem que ele transfira a prática de atos relevantes (despejos judiciais, por exemplo, como aconteceu antes) para a regra 3. Agora, por exemplo, poderiam fazê-lo com o reajuste das tarifas do pedágio. Já os interessados em faturar crises estimulam Emília a demitir uns dois ou três secretários de Lerner, o que levaria o governador a desistir do hábito que mais cultiva - o das viagens ao exterior. A piada é cáustica, porém de efeitos pedagógicos inegáveis.
BIZARRICE
Quinze dias de esticada nos States para ver o casamento da filha, Lerner dá razão à pergunta do Orlando Carlini: a lua de mel é da noiva ou do pai?
AXIOMACom saudades de Curitiba, Lerner em Nova York poderia andar no ligeirinho virtual que mandou, promocionalmente, para lá.
GLOSAMuito antes de chegarem os sem-terra para o seu acampamento diante do Centro Cívico, a cidade teve aumentado, consideravelmente, o contingente de meninos de rua em Curitiba. Da época de Greca para cá, se levarmos em conta a estatística de Dona Margarita Sansone (que dizia conhecer os 60 mendigos da cidade ao que acrescentamos com os respectivos CPFs, RGs e número de conta de super-cheque), a situação degradou.
UM BREQUE?Teremos, afinal, um breque nessa onda desestatizante? O governador Lerner, dias atrás, admitiu que poderia entregar a vistoria eletrônica de veículos ao Tecpar. Com isso detona um cartório, para o qual um dos seus amigos diletos, o empresário Salomão Soiffer, já havia se habilitado. Como o Tecpar, sucessor do Instituto de Biologia e Pesquisas Tecnológicas, mantém a melhor das imagens como instituição científica - e isso internacionalmente - há uma espécie de recuo no sistema de parcerias do governo, que sempre visou beneficiar grupos privados, tanto na prefeitura como agora no Estado.
Só para lembrar: o IBPT, que precedeu o Tecpar, detinha delegação de vários órgãos como o Departamento Nacional de Águas e Energia, o de Crenologia (para certificar águas minerais), do Conselho Nacional de Petróleo.
SPRAYE o reajuste das tarifas do pedágio ficou para o retorno de Lerner de sua viagem internacional devidamente esticada. - Fica, desde já, o choque entre a posição de Lerner (75% a 100%), e a dos consórcios, que querem mais (100% nos casos mínimos). É de esperar-se que o deputado Péricles de Mello entre com ação popular porque CPI, nesta quadra, dificilmente emplaca. - Pelo jeito o governo quer entregar de mão beijada tudo, pois não faz sequer o controle dos ganhos dessas empresas pela circunstância de não ter criado a agência estadual encarregada desse papel, antes confiado ao DER. - Secretaria do Meio Ambiente e IAP deveriam dar uma olhada no Rio Iguaçu na estiagem: é cada vez maior a quantidade de espuma logo depois do Salto Caiacanga, em Porto Amazonas. O rio definha, ninguém age para tentar salvá-lo. - Dia 7, em coquetel no Hotel Rayon, o resultado do concurso Itaú sobre o símbolo de Curitiba. Se não for a Universidade é porque prevaleceu a manipulação ideológica dos ícones lernerianos. - Campo Mourão prepara a 9ª Festa do Carneiro no Buraco: julho, 11.
FOLCLOREA Salete, da Mercer, teria dito tanta coisa no depoimento ao Ministério Público sobre a relação governo-agências, que está sendo chamada de Mister M, aquele que desvenda mágicas e ilusionismo.
CROMONo espelho o mistério da atração magnética: seja para Narciso ligar-se na auto-contemplação ou para atrair balões no espaço. Cobrí-lo sempre na hora da tempestade para não atrair os raios.
AFORÍSTICOQuem viaja mais: o governo (na maionese) ou o governador?





