Luiz Geraldo Mazza




Ventos nada bons
De homem ameno, do dia para a noite, Lerner passa a ser comparado a Pinochet. Os sem-terra vão mais longe (estavam, afinal, habituados à moleza das ocupações sem resistência que a cumplicidade do governo facilitava) e chegam a lembrar de Hitler, o que, diante da origem religiosa de Lerner, é terrível.
Nos dois casos há o transbordamento caricatural do exagero, instrumento, no entanto, legítimo em batalhas políticas, já que estamos diante de uma delas e com um condimento satânico, o dado ideológico. Lerner é mais um desarticulador dos movimentos de adversários do que um repressor. Quando cortou a consignação dos sindicatos, especialmente o dos professores, nas folhas de pagamento, pisou no tubo de oxigênio dessas organizações. Mas guerra é guerra, como dizia a velhinha da anedota, e quem leva um golpe desses tem que denunciar, ir à justiça e, se nada der certo, montar o seu esquema próprio de cobrança.
Também na questão das invasões, notoriamente abusivas e delinquentes com a matança de gado, roubo de pertences dos proprietários, apelou para o recurso da desarticulação com hábeis manobras da Polícia Militar e ainda com o cuidado de documentar prisões e despejos com vídeos, entrevistas, revisão médica dos presos. Tanto que hoje, diante da Comissão de Direitos Humanos, em Brasília, o secretário Cândido Martins de Oliveira, da Segurança, vai apresentar relatórios e farta documentação negando qualquer sinal de violência como apregoam o MST e a Pastoral da Terra.
Não encaixa no perfil de Lerner essa onda de acusações. Mesmo quando regia a cidade, sob regime militar, recusou-se a acatar pressões dos milicos contra funcionários que militavam na resistência, como Zélia Passos, que manteve até em posto de direção. Mas da mesma forma que se aproveitou da repressão da Polícia Militar em cima dos professores na campanha de 94, é agora vítima de recurso idêntico por parte dos basistas, que andam desesperados com o refluxo do MST no Paraná, a partir das desocupações.
Já a prisão do estudante que panfletava é de um primarismo que não se inscreve no estilo do governo. Em 1961, quando da invasão da Baía dos Porcos, em Cuba, por expedicionários norte-americanos, montamos rapidamente um comício de protesto contra a intervenção ianque, na Praça Tiradentes. Eu próprio, mais o ex-deputado Léo de Almeida Neves e o jovem Cândido Martins de Oliveira, então dirigente de entidade estudantil, demos o recado em discursos irados. O mais quente, o mais radical, lembro bem, foi o Candinho, prova clara de que o arrebatamento dos jovens precisa ser compreendido. O registro estava na minha ficha da DOPS como também na de Léo de Almeida Neves; na do Cândido, não sei.

BIZARRICE
A Telepar demitiu ontem 650 trabalhadores do seu quadro, 16% do seu efetivo. Diz que fica mais enxuta e flexível. Pior do que está é impossível que venha ficar. E a decadência começou antes da privatização, quando decidiu adotar a terceirização como norma. Aí iniciou a queda de padrão.


AXIOMAAndam ultimamente reabilitando, se é que é possível, o trocadilho. A propósito desse caso da Telepar e das 680 demissões, houve um sofisticado assim construido: é um registro de tefelonia e não de telefonia. Felonia é traição, deslealdade, perfídia.
GLOSAMaldade foi a daquele sem-terra que ao ver o Paulo Nunes, assim que fez o gol, botar aquela máscara de plástico chiou: ‘‘A troco de que a homenagem para um político do Paraná!’’ A quem queria se referir?
EPIGRAMA‘‘Um procurador incomoda muita gente, Três incomoda muito mais.’’ O Três referido é o homem das contas externas de Cascavel, personagem nacional. Como é bom ver um paranaense assim projetado.
SPRAYO maniqueísmo dificulta a análise tranquila dos conflitos de terra. MST e Igreja criaram, em certas áreas do público, a fantasia de que são anjos e tanto a polícia como os ruralistas, vilões.- Os vídeos, que sempre foram arma forte do basismo, funcionam agora contra eles: há aquela gravação, levada à televisão, de tortura de seguranças e morte do Django na Fazenda Borborema e agora, na sequência de desocupações, a polícia reuniu documentação fortíssima que mostra roubo de gado e de maquinário agrícola e devastação de plantações, o que será mostrado hoje à Comissão Nacional de Direitos Humanos pelo secretário da Segurança do Paraná.- Nas 14 desocupações recentes, tudo está documentado: relatórios e laudos, inclusive os periciais médicos que negam a existência de tortura.- Sabe-se, porém, que há um vídeo, que não é da polícia, e que mostra em detalhes uma desocupação de madrugada com lançamento de bombas de efeito moral seguidas de ordens claras em todas as barracas para que todos ponham as mãos na cabeça e assim por diante. Vivemos o tempo dos ‘‘grampos’’ e do vídeo.- Álvaro Dias deve, em parte, a sua derrota ao vídeo dos sindicalistas que mostrou o lançamento das bombas no Centro Cívico para dispersar professores em 1988.- Já o outro vídeo, aquele que flagrou políticos e empresários em romaria ao sindicato dos transportes coletivos, no tempo de João Simões, foi infrutífero: a maioria dos visados se reelegeu e ainda ganhou ação de perdas e danos contra a TV Educativa.- Quem está em Curitiba é Eduardo José Daros, presidente da Abraspe, Associação Brasileira de Pedestres, que já conseguiu emplacar em São Paulo, onde atua, o Disque Pedestre, implantado junto à Secretaria das Administrações Regionais.
FOLCLOREO escapismo é uma arte. Numa de suas viagens ao exterior, o pessoal de Lerner quis passar o abacaxi das desocupações das fazendas para Emília Belinati. Agora, pelo jeito, vão recompensá-la em dobro: ela vai se ver com o acampamento do MST diante do Palácio Iguaçu, já que Lerner vai viajar, e ficará ainda com um pepino adicional, o de anunciar as novas tarifas do pedágio. E se o ‘‘regra três’’ se recusar a entrar em campo, se essas questões não forem resolvidas antes e pelo maior interessado?
CROMOAnunciaram ciclones na previsão do tempo, as ressacas voltaram a agredir o litoral, mas no fim da tarde o firmamento ganhava um tom púrpura quando mais o frio se acentuava.
AFORÍSTICO
Agora que o Ministério Público estadual resolveu agir com firmeza é que sentimos o quanto carentes são os instrumentos de controle do governo como o Legislativo (vide o vexame da Sercomtel-Copel) e o Tribunal de Contas. Saber que promotores estão ouvindo gente do governo estadual até serve para sustentar que estamos diante do Estado de Direito Democrático.

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