Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Distantes do contrapoder
O Paraná é um bom laboratório para análises políticas. As amarras de uma elite, empresarial e política, em contubérnio permanente com o poder são uma tradição histórica que alcançou a sublimidade no estágio atual. Quando Richa ganhou o governo, embora em nome da oposição, já se percebia, até pela circunstância de fazer maioria no Graciosa Country Club, que tipo de mix social o respaldaria. A nossa burguesia triunfante fez de tudo para dele aproximar-se no sentido de cooptá-lo: nomes da genealogia o levavam para as pescarias em Guaratuba e o convidavam para os acontecimentos mundanos. Isso tudo é natural, como é também quando um juiz ou promotor público chega numa e é assediado pelos clubes de serviço.
É com Lerner que essa sincronia entre o econômico e o político se torna quase perfeita. No PFL, então, isso fica melhor definido do que nos tempos da Arena e depois do PDS. Analisando essas questões é que se chega à compreensão do caráter naturalíssimo do boicote à CPI da Sercomtel-Copel. A perda do controle sobre o Legislativo, momentânea e episódica, foi removida na hora em que todos foram chamados à ordem.
Não há sinais de que venhamos a construir algo próximo do contrapoder por aqui, e por uma razão muito simples: de um lado, a oposição é paupérrima e de escassa confiabilidade e, de outro, a comunidade é deseducada civicamente e sem qualquer empenho de participação mais determinado, apesar das melhoras havidas em função de modismos como o da defesa do consumidor, da ecologia, das minorias, enfim, de todos os estratos que sensibilizam os mais engajados. Diz-se que a representação política não expressa o tipo de sociedade que temos, mas no caso paranaense pode-se dizer que o rolo da CPI lembra em tudo a mediania da terra.
Vítimas de massagem cerebral, da mídia manipuladora, do conformismo, não se desenvolve aqui espírito crítico mínimo. A verdade oficial ganha aquela conotação latina do magister dixit, verum est, o mestre falou, é verdade. Por isso que as providências do Ministério Público, apurando denúncias contra o governo, ganham uma conotação pedagógica e que tende, pela constância, a reeducar o conjunto da população.
A estupidez, havida anteontem, no caso da prisão de um estudante que panfletava contra o governo, fez lembrar os tempos do regime militar, o que não assenta bem em Lerner, que jamais foi um repressor e que parece ter um temor reverencial de ser assim encarado. Se contra um estudante - jovem, quase sempre um descompromissado e vibrante - a polícia faz uma selvageria dessas, é justo acreditar que em momentos de tensão moeria de pau um sem-terra.
AFORÍSTICO
E amanhã a polícia vai bater no
pessoal da terceira idade?
MEMÓRIA O convívio do estelionatário Joni Rodrigues com oficiais da PM, relatado nesta Folha pelo repórter Dimitri do Valle, comprovado em nítidos fotogramas, numa festa em homenagem ao deputado Aníbal Khury, lembra outro fato ocorrido na descoberta da gangue dos 60 do ICMS. Na casa em que dois dos articuladores do golpe, Ademar Costa e Francisco Gevaerd, recebiam figurões, compareciam secretários de Estado, magistrados, deputados, empresários. Ademar e Gevaerd foram chefes de zonais do PDT na campanha de Lerner em 85 e afastados por desvio de conduta, já naquele tempo.
Como o escritório oferecia consultoria em matéria fiscal, um empresário que visse o showroom se sentiria seguro pela elite presente e nessa até dirigentes como os irmãos Demeterco, Rui e Roberto, entraram.
Essas ligações às vezes aparentam normalidade, e aí está o xis da questão.
BIZARRICE Estudantes tentam reagir com humor à violência da polícia e alguns estão usando em repúblicas (ainda existem algumas) e pensões o dístico à porta Entre sem bater. O saque é do Barão do Itararé (Aparício Torelly), quando a ditadura de Vargas ia aporrinhar a redação do jornal A Manha.
AXIOMA O governo continua perdendo a batalha da comunicação no caso dos sem-terra: o vitimalismo, que vem sendo explorado pelo MST, o deixa acuado.
Internamente, no governo, pergunta-se: e que tal se botar o Gerson Guelman no mesmo estilo da luta contra a cólera em Paranaguá? A cólera dos sem-terra é outra.
GLOSA Publicitários jamais imaginaram que teriam de responder a inquérito no Ministério Público que investigasse gastos do governo. No caso, eles apenas se desgastam com os gastos do Palácio Iguaçu.
SPRAY A coisa que Lerner mais teme - imagens de ataque aos sem-terra -, tal qual se deu com Álvaro Dias na repressão aos professores, é capaz de pintar no pedaço.- Aliados do MST e o seu braço político, o PT, estão cuidando de fazer a documentação, embora as operações de despejo estejam sendo feitas no meio da madrugada.- Afora esse material há outro, igualmente dramático, na coleta de depoimentos de presos que se dizem vítimas de tortura. O material é de primeira já para a campanha eleitoral de 2000.- Lerner explorou à exaustão, no enfrentamento de Álvaro Dias, a repressão policial no Centro Cívico. Agora o feitiço pode se virar contra o feiticeiro.- Dois estupros, em menos de duas semanas, aconteceram no Jardim Botânico. O pior é que a Guarda Municipal tem seu campo delimitado na defesa do patrimônio público. Isso lembra o absurdo ocorrido em São Paulo com o massacre de um torcedor corintiano por santistas, com os guardas do Metrô simplesmente assistindo quando poderiam intervir. Se for para omitir-se, que acabem com a Guarda.- O uso indiscriminado de grampo telefônico aparece para valer em processos judiciais e não adianta a parte ofendida alegar o caráter ilegal da gravação. Semana passada houve situação dessas numa vara cível quando uma testemunha, que deveria comparecer debaixo de vara porque vinha resistindo às convocações, foi substituída por gravação telefônica, obtida por outra pessoa, em que ela alegava estar sob ameaça de morte.- Urge uma jurisprudência já para que se saiba até onde vai essa linha de argumento. O governo, por exemplo, está querendo enquadrar os que fazem a gravação não autorizada pela Justiça. Deve iniciar pela Globo no caso da CBF que acabou suspendendo o Mário Celso Petraglia.-
FOLCLORE A vida daquele servidor municipal é mesmo uma pedreira: trabalha lá na Paulo Leminski. Lembra o saque do Fernandinho do Batuque: Todos tem a sua cruz. A minha é a Cruz Machado. Ponto barra pesada de Curitiba.
CROMO A ausência da amada lembrada no fio grudado no sabonete. Dalton Trevisan resume tudo num flash.





