Luiz Geraldo Mazza




A fauna mais odiada
É curioso ouvir a insistência com que Aníbal Khury tenta atribuir todas as virtudes aos políticos e os defeitos aos técnicos. A dicotomia é falsa pela circunstância de que esses pólos de uma suposta dialética se interam. Já houve época em que a observação era válida, justamente regime militar, quando a tecnoburocracia ditava todas as regras.
Mas os políticos não estão com essa bola toda imaginada pelo guru. Pesquisa da revista ‘‘Época’’ (1.628 entrevistas em 108 cidades de 23 Estados, mais Brasília), feita pelo ‘‘Vox Populi’’, mostra que eles são os mais rejeitados e contaminam igualmente instituições representativas como o Senado e a Câmara e também os partidos políticos. Aparecem na tabulação do último degrau com cinco pontos de confiabilidade e 94 de rejeição.
É por esse motivos que discursos como o do desfrutável Jair Bolsonaro e projetos como o de Álvaro Dias, propondo redução no número de representantes, emergem no cenário para atender o que seria uma demanda popular. Bolsonaro defende o fechamento do Congresso, tese compartilhada por muitos que parecem ter perdido a memória da história recente do País, cuja herança aí está com a elefantíase das estatais e as duas dívidas impagáveis, a externa e a interna, sem falar na ‘‘social’’, que não passa de um refrão de discursos.
Além do anátema aos políticos (94 a 5 é escore próximo da rejeição quase absoluta), a pesquisa mostra os partidos políticos com 11 pontos de confiança e 85 de hostilidade. Já para a Câmara Federal a rejeição é de 82 a 14 e no Senado, que ganhou alguns pontos com a CPI dos precatórios e a do Judiciário, ela é um pouco menor, com 75 a 20, mesma contagem sobre como é visto o governo federal. Como se vê, a despeito dos avanços da democracia e do nível de participação da cidadania, hoje bem melhor do que no passado, é baixa a nota que a sociedade dá às instituições. O nível de confiança máximo é o dos professores de escola pública e privada (85 contra 13 de desconfiança); médicos, com 81 a 17; Igreja Católica (76 a 21); comércio (59 a 38); imprensa (58 a 39); juízes (55 a 42); associações de moradores (51 a 39); sindicato de trabalhadores (49 a 44). Se os juízes têm nota satisfatória, o mesmo não se dá com o maior tribunal do País, o STF, que tem 36 de confiança e 58 de veto.
Algumas instituições entram no processo de entropia como se dá com o MST, que já esteve melhor cotado, inclusive por causa do patrocínio da Igreja, e que na pesquisa obteve 38 de confiança e 55 de desconfiança. Os ruralistas também são execrados, mas com menor ênfase: 39 a 45.

CROMO
Na borracharia, os olhos são para o retrato da Tiazinha pelada e ignoram a beleza da lua cheia no firmamento azul com a janela tosca parecendo moldura de um quadro acadêmico. Que lua, meu!



BIZARRICE As revelações do ‘‘grampo’’ das teles, de que o presidente FHC sabia das operações de estímulo e delas participava, não implicam corrupção, como querem insinuar os novos udenistas da praça. O presidente está investido, na operação desmanche, no papel de leiloeiro, aquele que fica estimulando os concorrentes com a pergunta ‘‘quem dá mais?’’
AXIOMA O presidente, aliás, aparece em primeiro lugar naquela pesquisa da ‘‘Época’’ como o brasileiro que mais envergonha o País na atualidade, com 26 pontos, seguido de Collor, com 16; Sérgio Naya, 5; Chico Lopes, 4; Lula, 2 (mais Jorgina de Freitas e Celso Pitta, com o mesmo indicador). Para descompensar, FHC aparece junto com Ratinho, Roberto Carlos e Pelé, todos com 4 pontos, como o brasileiro mais admirado, seguido de ACM, Lula, Sílvio Santos, Renato Aragão e padre Marcelo Rossi, estes com três pontos.
GLOSA Outra pesquisa, também para alertar os políticos abismados com a sua própria arrogância, da Unesco, feita no Rio, entre jovens de 15 a 20 anos, revela que 21% deles acreditam que a ditadura é a melhor solução. É, sem dúvida, o pessimismo sem esperança se alastrando.
FILIGRANA Essa campanha ‘‘Aníbal 2000’’ é uma injustiça contra Mário Celso Petraglia. É o que se depreende do apelo: o retorno do Buda à presidência do Atlético Paranaense. A outra hipótese, a de ser candidato à prefeitura de Curitiba, é tão viável quanto a eleição do vereador Edde Abib à presidência da Câmara Municipal, também inventada pelo criativo deputado.
SPRAY A oposição, inconformada com a dissolução da CPI da Sercomtel-Copel- FonteCindam, tenta um argumento jurídico para reconstituí-la. Os maiores constitucionalistas do Paraná foram consultados.- Nunca, em toda a história do legislativo estadual, se desmoralizou tanto a instituição como anteontem. O pior é que alguns deputados, como Ângelo Vanhoni, pouco antes da sessão, na TV Bandeirantes, deram a entender que tudo estava sob controle.- A oposição superestimou-se ao não perceber que cairia em manobra primária, como de fato aconteceu.- A suspeita de superfaturamento - R$ 20 milhões para R$ 40 milhões - partiu do deputado Durval Amaral, que teve uma experiência de desconto de dívida do Banestado, que, se aplicada ao caso Sercomtel, obviamente cairia pela metade e jamais dobraria.- Quebra-cabeças dos Jogos Mundiais da Natureza começa a ser decifrado: um semanário publica novas trocas de notas fiscais.- A semeadura de ilusões na área do esporte de Lerner não se limita à derrota do Paraná Basquete e do vôlei do Rexona. Vamos perder logo a sediação da CBG, Confederação Brasileira de Ginástica, porque o governo se recusa a pagar os aluguéis atrasados há 10 meses.- No agito da favela da Vila Parolin contra a remoção de lombada houve morte e supõe-se que a bala perdida tenha sido disparada pela polícia. Como dias atrás tivemos a abordagem truculenta e que redundou na morte de um pedreiro, dá para perceber que a fase não é boa, apesar do relativo sucesso das desocupações no Noroeste.- O coral da Polícia Civil foi convidado para a execução dos hinos dos países participantes da Copa América. O comitê organizador, por intermédio de Antonio Aranda Encina, vai produzir um clip do grupo junto às Cataratas.- Maioria dos 31 presos do MST é de fora, até do Nordeste, nenhum do Paraná, segundo o governo. O cadastro vai revelar aquilo que se sabe: a gincana tenta imitar, alegoricamente, a ‘‘guerra’’ de movimentos, e tudo isso desmistifica o lado heróico da questão.- A cada desocupação, o problema se volta para as lideranças regionais com as cobranças dos sem-terra. Ocorre que em muitos casos a falta de esperança é de tal ordem que muita gente quer sair dos acampamentos, mas não deixam.
FOLCLORE Um deputado federal tem contra si um pedido de cassação de mandato por ter distribuído caminhões de areia e com isso ter praticado delito eleitoral. Sugere-se agora que a sua eleição era areia demais para o seu caminhãozinho.
AFORÍSTICO Emília Belinati tem a oportunidade de dar o troco ao - governo. Como Penélope, no aguardo de Ulysses de Ítaca, faz e desfaz a costura para ver qual dos auxiliares de Lerner que, despedido, afetaria mais o sistema.

mockup