Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
A escalada do PMDB
Não é preciso ser um gênio em estratégia para perceber que a forma de desbancar o grupo lernerista do poder começa na Grande Curitiba. Assim foi em 1985, quando Richa carregou Requião às costas, como São Cristóvão o fez com Jesus, para derrubar Lerner, àquela época já um mito equivalente a Maria Bueno e ao Boitatá. Mas ali dificilmente se evitaria a derrota, porque se tratava da abertura de um novo ciclo, inaugurado com a vitória dos governadores do PMDB.
De lá para cá, o PMDB se atomizou e foi tomado por um unicomando, autoritário e hegemônico, o do próprio senador Requião, enquanto aquelas forças que davam respaldo ao sistema oposicionista se subdividiram. Quem manteve a unidade de grupo econômico e político foi o lernerismo. Curitiba é uma praça sob domínio, uma possessão e, de certa forma, isso se estende à Região Metropolitana. Da última eleição de Lerner em Curitiba, em 88, para cá tivemos uma sequência de vitórias do mesmo grupo com Rafael Greca e Cassio Taniguchi, este surgindo como inevitável postulante à reeleição, o mais habilitado de todos.
Tirando o período (nomeado) de Fruet e a vitória isolada de Requião em 85, temos um ciclo com nada menos de três períodos de Jaime Lerner, isso sem falar nos de Saul Raiz e mais no de Omar Sabbag. É densidade residual para ninguém botar defeito e que, a rigor, vem desde a vitória de Ney Braga nos anos 50, apenas interrompida pela conquista do populista Iberê de Mattos e retomada com a chegada ao poder de Ivo Arzua, que teve tudo para se constituir em uma espécie de força autônoma que seria estimulada, no regime militar, quando de sua passagem pelo Ministério da Agricultura.
O poder reproduz, e muito, o processo de cissiparidade dos cogumelos: Richa gera Requião, que ganha espaço próprio, e ajuda Álvaro Dias, que no poder o hostiliza para encenações moralistas; Ney Braga é lançado por Munhoz da Rocha e toca projeto autônomo que o coloca abertamente contra o criador nas eleições de 1965, a primeira do pós-golpe, apoiando Pimentel, com quem acaba se atritando por disputa de espaços e pela circunstância de contar com a linha dos pombos do Exército (Castelo Branco, Geisel).
Ninguém montou um esquema político-empresarial como esse grupo, do qual, por vezes, dá impressão que Lerner é mais refém do que comandante. E para atingir o núcleo dominante não basta hostilizar a imagem do atual governador, hoje em notória queda, mas chegar às bases do grupo, que se auto alimenta claramente no financiamento das campanhas eleitorais. Suspeita-se que com a mudança do quadro (a desestatização, o fim das megaestatais) teremos um novo complexo de apoiamento formado pelas clientelas tradicionais (mesma linha de empresários, incluindo os que operam na área pública) e as mais recentes, como montadoras e grupos empresariais que ocuparam espaços no novo perfil da economia.
Para enfrentar isso, tudo começaria por Curitiba, e a única pessoa capaz de fazê-lo seria Roberto Requião, sem os clones ou improvisações, disposto a ir para a luta com aquela garra do Palmeiras diante do Mengo. Qualquer forma de frouxidão, como as exibidas na campanha de governador, seria desastrosa.
AFORÍSTICO
E quando eu digo que a classe política é a maior promotora de vendas de Engov, ainda há quem duvide. É possível ver o fim da CPI sem vomitar?
BIZARRICE Um dos trunfos da oposição é crer nos conflitos internos Greca- Cassio, Aníbal-Cassio, como elementos de desagregação. No momento não há outro candidato com a força do prefeito de Curitiba na base aliada. Álvaro Dias não tem penetração na Região Metropolitana e candidatos do tipo Carlos Simões ou Max Rosenman não dão pra saída, como se viu da última vez. Sugere-se que esse dístico Aníbal 2000 preocupa Mário Celso Petraglia, já que deve ser o desejo de retorno do Buda à presidência do Atlético Paranaense.
GLOSA Lerner viaja novamente para os States. É possível, segundo Rubinho Ferreira, que dona Emília ataque o ponto g do governo, demitindo Gionédis, Guaraci e Guelman. Com essa notícia, Lerner permanece por aqui.
GLOSA Apelido de Lerner no interior é aquilo que se atribui ao antigo motor Perkins: Só vai no tranco. O pessoal não se refere especificamente ao caso das desocupações de terras invadidas. Mas que vai no tranco vai.
MISTÉRIO Domingo passado uma chamada da Globo anunciava a história de um prefeito dos Campos Gerais que empregava gente da família e levava R$ 13 mil para casa, e que deveria sair na Gazeta do Povo, na segunda feira. Trata-se do prefeito Alci Pedroso, de Carambeí, apadrinhado de Aníbal Khury. A matéria anunciada não saiu no jornal.
SPRAY Lerner tentou ontem, junto ao BNDES, no Rio, negociar antecipação de recursos comprometendo os royalties de Itaipu por 20 anos. BNDES trucou: só fecha negócio com ativo do padrão Copel.- Enquanto o governo se desespera para capitalizar o ParanaPrevidência, o escritório do advogado Romeu Bacellar, um dos maiores especialistas em Direito Administrativo do Brasil, ingressava com mandado de segurança em favor de sindicatos e associações contra a cobrança.- Não bastasse isso há ainda uma instrução normativa da presidência do Tribunal de Justiça regulando a questão previdenciária e que tem característica de uma trombada.- As folhas de pagamento do funcionalismo, este mês, vêm com os novos descontos. A irritação será geral e irrestrita. O governo já sabe que do funcionalismo nada pode esperar, a não ser vaia, bronca e voto contra.- A idéia-força do governo Taniguchi está aí: é o monotrilho do sistema elevado de transporte, que operará entre o Pinheirinho e o Atuba, junto, é claro, com a toalete urbanística, sem paralelo no Brasil, da grife lerneriana.- Dá para imaginar o que vem por aí na frase de Cassio: A BR-116 vai se transformar num espaço único na cidade, uma bela avenida, com paisagismo e um novo zoneamento, que vai marcar uma nova era em Curitiba. Taí o material de campanha e dá-lhe computação gráfica para valer.- O prefeito de Campo Mourão, Tauillo Tezelli, e o deputado federal Rubens Bueno (ambos do PPS) se reúnem hoje, 17 horas, em Brasília, com o ministro dos Transportes para tratar da Estrada Boiadeira. Que é assim chamada porque tem boi na linha há décadas.-
FOLCLORE O oportunismo foi a marca da CPI da Sercomtel, que como começou acabou com todos querendo faturar em cima do tema: a oposição tentando ampliar-lhe o raio (o que daria sentido à proposta) e os situacionistas fingindo uma independência caricata. Ficou ruim para todos, mas no conjunto se resumiu apenas em mais uma deserção do Legislativo, ratificador e irretificável.
CROMO Íngua, míngua, íngua. Eu te corto íngua, míngua, íngua, em uma, duas, três partes... A curandeira faz o sinal da cruz na cinza do borralho, sobre o qual repousa a perna do paciente, a área ferida cheia de vergões, até a alma latejando o rumor da infecção, vulcão prestes a entrar em erupção.





