Luiz Geraldo Mazza




Uma história diferente
Quando teremos, clara, nítida, a história exata desse momento político do Paraná? Uma história que não se cinja a abordagem das condicionantes externas e que mergulhe fundo nas raízes de como se formou esse aparato que aí está e que sustenta o grupo dominante, a um só tempo, da nossa política e economia.
Há um jovem mestre da Universidade Federal, que já comandou o Departamento de História, Denisson de Oliveira, capaz de fazê-lo com rigor acadêmico e abertura de visão política. Numa tese de mestrado ou doutorado, identificou as raízes desse estamento metropolitano, que tem em Lerner a figura principal em função do desempenho na Prefeitura de Curitiba, juntando as peças de um quebra-cabeças em que aparece a linha empresarial, dominada pelos grupos mais fortes da Cidade Industrial, e que até hoje aí estão, embora alguns deles, como o caso de Sérgio Prosdócimo e de Roberto Demeterco, já absorvidos pelas transnacionais nessa nova etapa do nosso desenvolvimento, ora com um tom de traço dominantemente cosmopolita, bem ao gosto da globalização.
Numa interpretação da história é possível valer-se das várias escolas que se aplicaram nesse mister, desde aquela - hoje não tão cultuada - que fazia a redução do processo à economia no materialismo dialético, ao pragmatismo de Carlyle, que acentuava o dado do heroísmo. O fato é que tendemos a ver no fluxo da história o ajuste a arquétipos doutrinários como se tentássemos ajustá-los ao formato de explicações prévias e de cujas amarras os acontecimentos jamais poderiam escapar como o diagrama da tragédia grega.
Denisson de Oliveira mostrou como se estruturou esse poder do grupo Lerner nas várias etapas da expansão da cidade, suas instituições, especialmente a sua economia fortemente irrigada pela ação pública. Hoje a área de domínio é maior e abrange quase todo o Paraná e nas ações de governo, definidas no programa de expansão industrial e comercial, percebe-se que dificilmente irão conseguir obter em termos estaduais o que conseguiram na área metropolitana.
O rumo cosmopolita da economia com a abertura extrema às multinacionais não impede o exercício de domínio que prevalece, como tenho demonstrado, no leilão das empresas públicas (Banestado, Copel, Sanepar) com a designação de pessoas e executivos da mesma grei. É paradigmática a presença de Rischbieter na cabeça do processo de desestatização da empresa de energia.
Um dos maiores desmistificadores das relações de poder, o liberal Galbraith, tirava sarro da ‘‘generosidade’’ capitalista quando o empresário era incapaz de dizer a verdade de que buscava lucros quando implantava uma indústria, para amenizá-la e torná-la bem mais civilizada com o argumento de que o fazia para, isso sim, gerar mais empregos. As pessoas são ingênuas e não imaginam o fundo dessas relações nada idealísticas. O pior é que carecemos do contrapoder, essencial na democracia, para que as imposições de grupo não se tornem lei e com isso imperativa a todos. E pior ainda é que a oposição que temos consegue ser mais desastrosa, por ausência mínima de quadros, do que o stablishment.

GLOSA
Rafael Greca, ministro e coxa-branca, poderia amanhã, na reunião do Clube dos Treze, ajudar o Atlético Paranaense promovendo uma visita à Arena do rubro-negro. Seria um ato de cortesia e elegância. Atletiba digno de esgrimistas



BIZARRICE Havia gente do governo apostando, anteontem, que a CPI da Copel-Sercomtel não sai amanhã. A moratória teria permitido ao Palácio Iguaçu mais folga para reverter o processo. O fato é o seguinte: se a CPI não sair, todos estarão desmoralizados, os que intentaram montá-la como os que agiram em sentido contrário. E se poderá repetir como na peça pirandelliana: ‘‘Assim é se vos parece.’’
AXIOMA Os incidentes de Santa Cruz de Monte Castelo, com o uso das famosas bombas de efeito moral, aquelas mesmas de Álvaro Dias contra professores, quase produzem mártires. Cidades santas parecem aziagas ao governo: um sem-terra perdeu a perna em Santa Isabel do Ivaí e agora essa.
EPIGRAMA Aí o jornalista ligou para o litoral e perguntou se havia por lá as ressacas devastadoras do Rio de Janeiro. Veio a resposta: ressaca pesada é do secretário da prefeitura que até agora não acordou.
SPRAY No momento em que a Justiça decide mandar derrubar prédios na praia é preciso fazer o balanço dos absurdos cometidos por via oficial. Um deles, aquela avenida beira-mar que o Álvaro Dias mandou construir; outro, a prova de inutilidade dos aparatos colocados por Canet Júnior e João Elísio, como o sistema de gabiões que não recuperou a Praia de Caiobá. - Agora temos outras ações como a do canal de Pontal a Matinhos, que o Ministério Público está embargando e a do ‘‘engordamento’’ da praia, condenada por geólogos. - Como se não bastasse, pretende-se mudança abrupta do ambiente com a colocação de corais para mexer com a fauna e melhorar a qualidade da água. - Autoridades vão ter problema extra ainda este mês: os baloeiros voltaram com toda força. Ontem, vários registros no centro da cidade. Anteontem um no Centro Cívico, imenso, artístico, revelador de que retornaram as ações organizadas, inclusive com monitoramento dos balões. - Voltando à praia recomendaria ao governo, antes de se meter a sebo e inventivo, dar uma olhada na recuperação da areia (em mais de 100 metros) em Piçarras (SC) O valor dos imóveis subiu de forma espantosa e o aspecto de praia fantasma, que estava assumindo anos passados, mudou. - Quem tem litoral estreito, como o Paraná, não pode se dar ao luxo de brincadeiras, caras e ineficientes. - Mesmo com o frio, a frequência no Hotel Fazenda Quintas de Bocaiúva continua forte, visando o Restaurante Sabores do Campo. Aos domingos, há ali movimento médio de 500 pessoas, o que rompe com a inércia da região na divisa Colombo-Bocaiúva do Sul.
FOLCLORE Meu melhor professor de Direito (eu o vi dar um banho em Vicente Rao numa defesa de tese), Altino Portugal Soares Pereira, tinha um problema funcional que o tornava fanho. Em lugar de prejudicar suas exposições de Direito Civil, a deficiência ajudava didaticamente. Mas num dia ele pediu ao aluno Gilberto que interpretasse, desse a ‘‘inteligência’’ de um determinado artigo do Código. Gilberto também era fanhoso e o registro se deu sem qualquer surpresa, a não ser a dos que assistiam à aula.
CROMO Do meu avô materno, Randolpho Gomes Veiga, a lembrança de sua amizade boêmia com Villa-Lobos quando este morava em Paranaguá. E que tal se nas descidas das ladeiras, meu avô na flauta, veio a inspiração das Bachianas?
AFORÍSTICO Esta semana, com a ameaça de fazer e desfazer a CPI, era preciso manter elevado o estoque de Engov nas farmácias. Quem lida com a política paranaense deveria tomá-lo preventivamente. Que nojo!

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