Luiz Geraldo Mazza




A novela da CPI
O que há por trás dessa CPI da Sercomtel-Copel que conseguiu o feito incomum de ‘‘assegurar-se’’, embora tenha tudo para criar problemas enormes ao governo? Seria porque as empresas de telecomunicações estão na moda como anunciantes diários dos seus feitos e projetos, aparecendo na mídia com a frequência dos reclames de cerveja e bancos? A iniciativa das CPIs pode ser de tudo, menos coisa séria, apesar da proclamada aparência em contrário. Se as razões forem semelhantes às que levaram os deputados a saírem à frente, antes das próprias interessadas, as empreiteiras, no episódio vergonhoso do pleito do aumento do pedágio, dará para entender o pragmatismo do pessoal.
Vai jorrar dinheiro tanto da Copel com a sua privatização anunciada (e que pode ser afetada por essa CPI, o que seria muito divertido) como de qualquer empresa como a Sercomtel que tenha capacidade para delegar serviços. Com que clientelas lidam os políticos se não com a constelação de órgãos públicos que atendem empresas satélites, prestadores de serviço, fornecedores? Pode haver outras conotações políticas e que visem isolar o clã dos Belinati.
A venda de ativos como a Copel e a Sanepar tira o oficialismo de campo em área delicada e é óbvio que públicas ou privadas, essas empresas, sob o novo regime, poderão aparecer entre as financiadoras de campanha eleitoral. Claro que uma Electrolux jamais se daria ao papel que a Refripar exercia exatamente nesse particular. Como a Inepar anda arredia nesse campo e o Mercadorama foi absorvido pelo grupo Sonae, percebe-se que escasseiam as fontes de respaldo aos políticos que já no ano que vem terão eleições municipais. Aduza-se a isso o fim do Banestado, que era um assistente de primeira ordem, sempre aberto a perdoar dívidas e a baixar seu custo, como faz agora na hora do suspiro final.
Sobram os bancos particulares (a absorção do Bamerindus pelo HSBC também deve ser listada como perda para os fundos de campanha), as empreiteiras (que há no caso das empresas públicas visadas pela CPI), os clientes tradicionais como as duas locadoras de veículos (Constram e Ouro Verde), fornecedores e prestadores de serviço. E virá logo um novo cartório: o da vistoria eletrônica dos veículos, provável colaborador pela facilidade da grana que receberá. Não esquecer ainda os transportadores (em Curitiba o cartel dominava a política local) tanto federais como estaduais e municipais.
Casos muito mais graves - já que se insiste na variação do empréstimo de R$ 20 milhões para R$ 40 milhões em dois anos, normalíssimo na piranhice orgânica dos nossos bancos em seu hábito de cobrar os ilegais juros compostos - do que esse da Sercomtel são de conhecimento parlamentar: os R$ 500 milhões gastos em propaganda é um deles; outro, a patifaria do Banestado e sua quebra anunciada.
Assim, pois, não dá para aceitar que de repente um surto de austeridade fizesse os nossos parlamentares estaduais entrarem em estado de graça sob uma tensão catártica daquelas que levam o crente a ver a face de Deus.

CROMO
Aguardamos a nevasca, outra vez, mas com menos fé dos que os religiosos quanto à volta de Jesus



BIZARRICE Dias passados houve uma discussão edificante na Câmara Municipal de Curitiba sobre plágio. Só que os contendores se referiam como ‘‘chupadores’’, a forma comum de alusão ao plágio no âmbito da comunicação. Um diz que não era ‘‘chupador’’, mas afirmava que outro era. Alguém que entrasse aquele momento na Câmara sem saber a origem da discussão entraria em pane.
Dá a impressão que a nossa Câmara está ‘‘chupando’’ as outras. Por que não imita a de São Paulo na máfia das regionais? Seria uma ‘‘chupada’’ santa.
AXIOMA Pode-se ter restrições ao ministro Rafael Greca, mas que ele sabe se impor e criar fatos políticos ninguém pode negar: fatura, depois de amanhã, a reunião do Clube dos 13 em Curitiba e também a apresentação do escrete nacional na Arena do Atlético Paranaense em junho.
Dizem que o seu ministério é esvaziado, mas o fato é que ele torna os seus espaços cada vez mais elásticos.
GLOSA Um dos argumentos comuns dos sem-terra a cada vez que se alega que uma propriedade é produtiva é o de que ela não cumpre sua função social. Essa linha genérica de argumento sustentaria, por exemplo, a invasão do Graciosa Country Club e dos seus lindos campos de jogar golfe, embora nada mais social, num certo sentido, do que um clube de elite como esse.
ALVARISMOS Álvaro Dias, com o seu projeto de redução do número de vereadores, deputados estaduais e federais, faz ‘‘media’’ com o sentimento comum do povo contra a classe política que, em boa parte, desejaria até o fechamento desses órgãos (o que, convenhamos, é uma reação irracional. Tromba, no entanto, com aqueles que tanto cultua, especialmente vereadores. Como não é de aprofundar raciocínios, terá dificuldade se enfrentar um deputado ou senador com um mínimo de formação cultural na justificativa da matéria.
SPRAY Um farto negócio com notas fiscais (na base de 5%) tentou ‘‘legalizar’’ operações feitas em cima dos penumbrosos Jogos Mundiais da Natureza e agora está sendo denunciado com fac-similes dos ‘‘documentos’’. - Um criador paranaense de vacas argentinas deu o nome de ‘‘Propina’’ a uma das suas maiores produtoras de leite. - Empenha-se o deputado Toni Garcia em ser o relator da CPI da Sercomtel-Copel. Já o deputado Durval Amaral estaria interessado em ocupar a presidência. - Litoral treme: Câmara Municipal de Guaraqueçaba toma conhecimento da defesa do prefeito Nuyuki Ussui, a de Pontal do Paraná ouve a de Hélio Queiroz, mas decide dar continuidade ao ‘‘impeachment’’. - Decisão do TJ que manda demolir apartamentos da empresa Irmãos Thá na praia tem um precedente não cumprido: um prédio de Guaratuba, cuja implosão foi decidida há anos, pelo STF, exatamente por desrespeito à lei de usos do solo. Muita gente saiu do prédio com medo da sentença. Está lá mais firme do que o ‘‘Fórum’’ da Capital. - Todas as categorias de nível superior - juízes, procuradores de Justiça, procuradores de Estado, delegados de Polícia - estão entrando com mandado de segurança contra as novas taxas do ParanaPrevidência.
FOLCLORE E depois que o governo vender o Banestado, Copel e Sanepar que bens oferecerá de garantia em qualquer operação financeira? Se forem bens de raiz, o Lerner terá uma vantagem sobre Esperidião Amim, podendo indicar os cabelos.
AFORÍSTICO Governo finge ter jogado a toalha: tenta evitar a CPI na segunda.

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