Luiz Geraldo Mazza




Vamos à devassa
Segundo Aníbal Khury, o governo teria esgotado seus esforços para reverter a CPI da Sercomtel-Copel-FonteCindam e que, pelo jeito, a coisa sai lá por segunda ou terça-feira. O fato, porém, é que ainda na sessão de ontem nem se tentou consumá-la.
Se o governo efetivamente desistiu de dobrar os parlamentares para que retirassem as suas assinaturas, o que também seria compensado com o apoio dos deputados do PMDB, agora sem impor qualquer condição, dá para presumir, de forma silogística, que jamais, em tempo algum, esteve interessado em demover pessoas e mudar comportamentos. Suspeita-se, diante da facilidade com que se nega naquela Casa um simples requerimento a secretário de Estado, que o governo, e mais ninguém, era e é o maior interessado em fomentar a temática.
As CPIs precisam, como se sabe, de objeto determinado para funcionar. E esse negócio havido em Londrina, embora relevante, tem todas as características de assunto menor, fora da escala habitual de patologias do governo como, por exemplo, as do Banestado.
A Copel sempre foi extremamente protegida de qualquer olhar indiscreto. E só se abriu um pouco por força do entusiasmo e vigor dos primeiros meses do governo Richa e na chamada prática de participação. Quando agredida por Cecílio do Rego Almeida, inconformado com a perda da empreitada de Segredo no governo Álvaro Dias, até que soube sair-se bem, privilegiando, no entanto, o foro para detalhar como o consórcio DM-Cesbe-Sinoda tocava a obra.
Com o governo lançando a toalha, suspeita-se, e com fundadas razões, que, no fundo, estava interessado na CPI, desde que ficasse manietada como está a uma questão de campanário. Hoje ninguém sabe o quanto a Copel já está nas mãos de particulares, tal o volume de ações vendido, e também do BNDES com aqueles empréstimos-Mandrake, feitos para fechar a folha de pagamento e até, quem sabe, aventureirismos como o dos Jogos Mundiais da Natureza. Não vamos saber de nada. E merecemos porque, afinal, votamos nesses artistas, todos magos, felizes com a inexistência de um Mister M para desmascará-los.

BIZARRICE
Mais um motivo para o nosso governador ou viajar ou ir ao analista: a revista ‘‘Time’’, de maio, produziu um texto sobre as lideranças do milênio na América Latina e, do Paraná, incluiu o líder sem-terra Gilmar Mauro. Dos governadores foram listados os do Rio e do Acre.



AXIOMA O homem dos direitos humanos, José Gregori, não foi notificado do ataque de 20 encapuzados (segundo o corregedor, ‘‘policiais, com certeza’’) a uma delegacia (Furtos de Veículos) onde executaram um preso ritualisticamente.
Certos direitos humanos não têm charme: diariamente a polícia tortura gente do povo. Quando se fez isso com políticos, tratou-se o tema como hediondo, tal qual se faz agora com os sem-terra, que também torturam e matam (da Fazenda Borborema há imagens de TV nítidas sobre isso, inquestionáveis).
GLOSA Há quem diga que o projeto do senador Álvaro Dias para reduzir a representação parlamentar teria sido inspirado no caso do curso de Direito da Tuiuti, com os seus 600 alunos do primeiro ano. É aluno demais para pouca escola. Como entende Álvaro Dias acontecer com parlamentares municipais, estaduais e federais. Os quais, é claro, não vão concordar.
PRECONCEITO Dona Arlete Caramês, militante generosa de movimentos de crianças desaparecidas (até hoje busca o seu filho Guilherme), era uma das que estiveram presentes, ontem, nas audiências de José Gregori, da Secretaria dos Direitos Humanos. E teve uma intervenção infeliz ao ver que a minoria de ciganos estava presente e ao repetir o ‘‘clich꒒ do passado remoto que essas criaturas nômades roubam crianças.
Lembro que em minha infância, quanto pintava cigano na cidade, vendendo aqueles tachos de cobre e tapetes, havia aquele receio, sustentado de forma folclórica, mítica, de que raptavam a piazada.
SPRAY Cada vez que Aníbal Khury faz charminho, ameaçando sair da aliança governista, querendo valorizar-se, tudo não passa de encenação, como se deu agora com a ida a Brasília e a convicção de que não sai do PFL e está com ACM para a Presidência, recado indireto para mexer com áulicos lerneristas.- Em Brasília, um mundo com outra dimensão, não há espaço para o presidente da Assembléia Legislativa aparecer com o destaque obtido aqui na província, em que chega a pautar como rotina a reportagem política.- E cresce porque os atabalhoados da Prefeitura, em lugar de defenderem a integridade dos guardas da Diretran agredidos, vão pedir desculpas. Ficaria bem a esses agentes do governo Taniguchi pedirem ‘‘desculpas por terem nascido’’.- É de se esperar que, na volta do Japão, o prefeito Cassio Taniguchi não pague vale desse jeito. É a pessoa mais importante do Paraná, depois do governador, na área executiva, e não pega bem essa subserviência e falta de auto-estima.- O prefeito de Guaraqueçaba, Noliuk Ademar Miranda Ussui, está à beira da cassação: a instalação da comissão processante por unanimidade é um indicador; outro, é o fato de seis dos nove vereadores estarem a favor do ‘‘impeachment’’.- Só falta agora alguém ligado a Aníbal Khury sugerir que há outro prefeito de origem nipônica na ‘‘bica’’ da cassação.- Uma das maiores broncas de pequenos clientes do Banestado, aposentados, é contra as taxas de juros para os cheques especiais, antes limitadas a 7,4%, e que ora chegam a 9.4%. Essas pessoas não têm reposição salarial há anos e pagam, ainda por cima, juros compostos, juros sobre juros, o que tem sido condenado como ilegal por alguns juízes.-
FOLCLORE Havia no time do Paula Ramos, em Florianópolis, o ponta de lança Armando da Silva, apelidado de Mandico. Num jogo contra o Figueirense houve empenho para que o Mandico não jogasse, com a exigência de que o atleta fosse alfabetizado. O pessoal do Paula Ramos em dois dias ensinou o Mandico a escrever Armando da Silva. Na hora de assinar a súmula, o centro avante se deixou trair ao ser convidado a ler o que escrevera e soletrou Man-di-co, quando tinha assinado por extenso o nome e não o apelido.
CROMO Na paisagem vítrea o frio vai esculpindo o cenário da nevasca: sem a saturação da atmosfera pela umidade é impossível o retorno a 1975, o dia incrível em que o curitibano saiu da casca, desencaramujou e se tornou solidário e lúdico. Quando o termômetro desce há sempre a esperança: quem sabe nossa gente desperte para a alegria, mesmo sem a neve?
AFORÍSTICO Por que será que os deputados saíram à frente das próprias empreiteiras, pedindo o aumento do pedágio? A razão é a mesma de agora em torno da CPI da Sercomtel-Copel. É a lei de Gerson aflorando. Até mesmo o espírito público, quando exacerbado, assusta.

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