Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
A insondável via tortuosa
Há quem diga que o governador está dando uma de Jaime sem braço nessa estória da CPI da Copel-Sercomtel-FonteCindam. Ele seria, na verdade, o maior interessado em isolar o clã dos Belinati, volta e meia fazendo pressões sobre o Palácio Iguaçu, como se deu mesmo depois do desembarque em Londrina, que assegurou a vitória no segundo turno. Mas no jogo de espelhos da política é apenas mais uma suposição, que nada tem a ver com supositório.
O fato é que se houvesse determinação do governador, embora a sua bancada nessas ocasiões tente valorizar-se, a manobra não prosperaria. Surpreende também o fato de o presidente Aníbal Khury, cioso das suas posições como controlador das matérias básicas, ter perdido o fluxo dos acontecimentos, bem mais importantes do que a encenação para agredir os guardas da Diretran que multavam carros mal estacionados no pátio do Legislativo.
Um dos maiores interessados na matéria, o deputado Durval Amaral, acentua a sua estranheza na variação do empréstimo feito pela prefeitura (gestão PT, Cheida), que era de R$ 22 milhões e acabou custando R$ 47 milhões para a Copel. Se houvesse interesse efetivo em esclarecer as coisas, os governistas aceitariam a proposta do PMDB, que pede a ampliação do raio investigatório sobre a ciranda de venda e compra de ações por parte da estatal de energia, bem como o montante em ações dadas em caução a empréstimos tomados pelo governo para tapar rombos de caixa. Deseja-se, ainda, saber o destino final do dinheiro arrecadado com a venda de ações da Copel e até que ponto o patrimônio, que se pretende levar à privatização, está comprometido.
Se a CPI for estancada, o governo se dá mal; se fluir normalmente, também. Só que se o raio for ampliado, como quer o PMDB, e seria o mínimo de decência exigi-lo, ficará visível que se a manobra foi governista ela estará mais próxima de um tiro na cabeça do que no pé.
De outro lado, se a CPI não andar, a desmoralização será ampla e irrestrita para todos. Especialmente para os assanhados que peitaram ou fingiram fazê-lo com o governo, que por sua vez não se mostrou tão contrariado assim.
BIZARRICE
O revide vem aí: Lerner viaja, Emília assume e demite o secretário que deita e rola. Aí Lerner volta e não viaja mais, o que o obrigará a ir mais vezes ao psicanalista para ser feliz, como sugeriu a Requião.
AXIOMA Enquanto eu for presidente da Assembléia, a privatização do Banestado não passa. Tudo dito sob intensos aplausos, especialmente do deputado Ângelo Vanhoni. É uma frase do Aníbal Khury. Vencida, é claro.
GLOSA Mestres discutiram ontem na PUC (Direito) o caso Pinochet. Um mestre espanhol, Marcos Roitman Rosenmann, da Universidade de Madri, mais o professor Marés de Souza e Samuel Gomes dos Santos. Numa roda dessas, se alguém perguntasse e se o Fidel Castro sofresse o mesmo constrangimento, assistiríamos a um espetáculo de contorcionismo intelectual para dizer que o cubano é uma vítima do embargo ianque, não é um ditador, mas um defensor dos direitos humanos, embora com o uso do paredón.
Nada mais perigoso do que juristas liberais no poder. Aprendemos isso no Brasil com a UDN. Assim também a relatividade dos conceitos no tempo e no espaço: o Tribunal de Nuremberg, derrubando o princípio da anterioridade legal, ao criar o conceito e a figura delituosa do genocídio, e a corte inglesa, ao mandar para o espaço o sentido da autodeterminação no episódio Pinochet.
Quanto a este, a experiência que está vivendo é pedagógica ao sentir-se manietado por forças externas.
SPRAY Emenda de Requião na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, que anula os títulos estaduais emitidos para supostamente pagar precatórios, pode aumentar consideravelmente os furos do Banestado, que está perdendo muito dinheiro com essas operações.- O jornalista Luis Fernando Fedeger pediu na OAB a impugnação da candidatura do advogado e Procurador do Município, Marcus Vinicius de Lacerda Costa, postulante de uma vaga do quinto constitucional no Tribunal de Alçada, sob a alegação de que corre contra ele procedimento na Delegacia de Crimes contra a Administração Pública no Escritório Pereira-Gionédis, do qual era sócio, e por ter sido o advogado da coligação Novos Caminhos.- Reunião de hoteleiros, anteontem, foi marcada por críticas pesadas aos governos federal e estadual. Um dos discursos mais candentes foi do dono do Hotel Lancaster, Alberto Noel de Paula, que no final abrandou para dizer que era feliz como atleticano, enquanto o João Jacob Mehl, coxa-branca, era um triste.- Há muita mistificação na batalha da informação no front do MST. Tanto que o jornalista Márcio Moreira Alves escrachou a mentira de que ele próprio divulgou que militantes teriam sido torturados pela polícia paranaense. Mas agora quem deu um argumento forte para os sem-terra foi a juíza Elizabeth Khater, da comarca de Loanda, por ter comemorado desocupações junto com fazendeiros, o que a torna, de certa forma, sob suspeição.- O Banco Comercial Uruguai vai instalar a sua próxima agência em Curitiba, depois das de Porto Alegre e Joinville. É um dos maiores interessados na aquisição do braço paraguaio do Banestado.- Idolatria do livre mercado e do livre trânsito de capitais representa para a sociedade ameaça maior do que qualquer ideologia totalitária. George Soros em seu último livro, A Crise do Capitalismo.
FOLCLORE Anteontem, o deputado Orlando Pessuti homenageou o cantor Peão Carreiro (que havia falecido), cantando ao microfone da Assembléia um dos sucessos daquele artista e seu companheiro Zé Paulo. O PMDB tem assunto de sobra para apertar o governo, mas depois que ficou sem o Romanelli o jeito é apelar para as amenidades: Orlando canta e Caíto Quintana declama (aliás, com muita arte) poemas gauchescos. É por isso que toda a fúria fica por conta do senador Roberto Requião, o duce do Bigorrilho.
CROMO Parece incrível que com toda a sordidez ambiental do Centro Cívico ainda flua no ventre da terra, naquela região, um veio de água mineral, uma linfa puríssima. Por onde andam as nascentes, os olhos dágua da cidade? Lembro de um, plácido, sereno, lá no gramado da praça Afonso Botelho, no qual cismávamos à procura sortilégios da mãe dágua.
AFORÍSTICO As boas ações da Copel, estamos cansados de saber quais são, especialmente nos seus feitos; se sair, a tal CPI poderá exibir as más, entre as quais a falada negociação com Sercomtel, FonteCindam e outras muitas mais.





