Luiz Geraldo Mazza




O pólo dos negócios
A palavra negócios contém uma conotação negativa. Essa é uma deficiência à brasileira de origem ibérica e jesuítica. Quando se dizia, por exemplo, que uma determinada secretaria era de ‘‘Negócios do Governo’’, havia acepção neutra e limpa e não maliciosa como se proferida nos dias atuais, diante de tudo o que está acontecendo, nacional e regionalmente.
Nunca se fez tanto negócio como agora. Mudou tudo, especialmente a escala. Dá para imaginá-lo no atual ciclo vivido pelo Paraná com o saneamento e o salto para a privatização do Banestado e a venda de ativos com a Copel e a Sanepar. É massa de dinheiro pra ninguém botar defeito. Isso sem falar que saímos à frente no sistema de pedagiamento das rodovias.
Há diferença, é claro, entre negócio e negociata, embora os que hoje ocorram no setor público já, de saída, recebam conotação pejorativa. Há uma presunção generalizada de que todos os procedimentos públicos são nebulosos, tortuosos e fraudulentos. E convenhamos que órgãos de controle orçamentário, como o Tribunal de Contas, pouco fazem para que se dissipe essa visão negativa. A simples constatação de que o TC aprova todas as contas de governos acaba favorecendo essa noção conspiratória.
À medida em que a escalada dos negócios - volume de obras pesadas como as barragens, ferrovias, rodovias, aeroportos - se acentua, há paralelamente um afrouxamento dos controles, algo ditado por uma pragmatismo terrível que tudo legitima, mesmo quando repulsivo. A impressão que se tem é que os rituais de acompanhamento são mera liturgia e que não penetram fundo na análise dos contratos, termos aditivos e tudo o mais. São feitos precisamente para operar metabolicamente e legitimar.
Aí é que se lamenta a falta de oposição articulada e inteligente para fazer a mineiração de tantos negócios, em que até os aparentemente ingênuos e lúdicos, como os Jogos Mundiais da Natureza, parecem imunizados contra a fiscalização competente e indispensável. Se tudo continuar do jeito que está, no futuro a cobrança não será apenas ao governo que mais se destacou na velocidade dos negócios e, consequentemente, das irregularidades, mas também à oposição, que não soube ou não quis exercer o seu papel, por acomodação ou cumplicidade.

BIZARRICE
O vereador Natálio Stica tem razão em querer abolir dos concursos públicos e privados, e também dos anúncios classificados, a expressão ‘‘boa aparência’’, que conota discriminação. Algumas figuras do primeiro escalão estão longe de atender tal imperativo.



AXIOMA Compagás e Rodonorte encontram-se amanhã para negociar a tarifa que será cobrada pela utilização da faixa de domínio da concessionária na 277. Se Curitiba precisar, para o seu abastecimento de água, captar o produto da represa Capivari-Cachoeira, vai ter que pagar pelo uso da tubulação na 116. Isso não é ‘‘servidão de passagem’’ apenas, mas servidão absoluta. O Brasil, como dizia o senador do PPS, Roberto Freire, precisa desprivatizar o Estado.
GLOSA Há motoristas e motoristas. O processo Collor tornou famoso, por alguns dias, Eriberto. Hoje ninguém sabe por onde anda. Requião teve o Tabaco, Valdir Leal, com quem se trama numa questão trabalhista antiga. E o ministro Rafael Greca continua com o mesmo profissional, o Almir, desde o tempo da Prefeitura. Motoristas desfrutam de muita confiança porque respeitam sigilos. Na vida dos políticos é uma parceria de primeira. Agora, por exemplo, surgiu a teoria de que o motorista de JK, no dia do acidente fatal, tinha sofrido um tiro, fato só agora revelado por um legista.
SPRAY Ambientalistas vão responsabilizar na Procuradoria da República o governo paranaense por causa da construção do canal de Pontal do Sul pela Superintendência e Desenvolvimento de Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental (Suderhsa). O enquadramento é ‘‘por formação de quadrilha’’ e exploração de conhecimento e informações privilegiadas para fins negativos. Quadrilha - essa é uma boa.- Por falar em ecologistas, eles vão atacar com tudo para defender o fechamento da Estrada do Colono. Primeiramente, vão divulgar um estudo do Claus Germer que revela ‘‘mitos e manipulações’’ em cima dos supostos prejuízos. E depois vão fazer circular no mundo 60 mil cartões postais em defesa da integridade do Parque Nacional. Esses cartões serão devolvidos a Lerner, após distribuição no exterior.- Outra ambientalista: um dos melhores pontos de pesca no Rio Iguaçu, em Fluviópolis, está hoje fechado porque os compradores das margens instalaram verdadeiras mansões no local, o que não permite a movimentação de pescadores. Um absurdo ecológico, com prejuízos econômicos para a região porque reduz a zero o trânsito do lazer que retinha recursos provenientes da recreação.- Indispensável que se vá a fundo no processamento dos seguranças do legislativo estadual que agrediram guardas da Diretran. Um ex-segurança da Assembléia, Postarek, foi morto numa emboscada até hoje inexplicada. Uma coisa nada tem a ver com outra, mas é indispensável que os seguranças, por causa da proteção política, não se sintam impunes e também os políticos deixem de ser cobrados pela ação dos seus ‘‘anjos da guarda’’ ou por seus eventuais sofrimentos. Getúlio Vargas foi vítima da sua guarda pessoal, que armou, por conta própria, o ataque a Carlos Lacerda no qual morreu o major Rubens Vaz.- Movimentos em defesa do Hospital de Clínicas, como o que se trava neste momento, deveriam ter em mente que a questão básica até hoje não foi tratada: o hospital-escola é um dos únicos do País que não tem o seu pessoal pago pelo Ministério da Educação. Uma vergonha para quem teve ministros, tanto da Saúde como da Educação, que poderiam resolver o impasse. Outra vergonha: não federalizaram uma só de nossas universidades estaduais. Tarso Dutra, gaúcho, numa só tacada, como ministro da Educação, federalizou todas daquele Estado. E depois ainda dizem que a timidez é um clichê discutível.
FOLCLOREQuando nem se pensava em ‘‘Mister M’’, o chato que desmistifica os mágicos, o público tentava em Curitiba bloquear as ações dos prestidigitadores com várias simpatias, como a de colocar um ovo no interior do bolso ou uma agulha, enfim algo típico daqueles tempos como forma de neutralizar magia. Valia tudo: sapo, teia de aranha, o escambau. Lembro de um dos magos da época, o Richard Júnior, que teve que enfrentar a armação da platéia do Cine Palácio, que ululava quando surgia alguma dificuldade para o Mandrake.
CROMO E esse vergão rubro no horizonte é o tempo do frio seco que se anuncia ou um despiste na formação de geadas: as pombas-rolas catam os grãos com a precisão de faiscadores na estrada.
AFORÍSTICO O governo mais programático que tivemos foi o de Ney Braga, em especial o primeiro, que abriu um ciclo; o mais democrático foi o de Richa, que levou a fundo a idéia de participação; o mais pragmático, o de Lerner, com suas incontáveis, às vezes insondáveis, parcerias.

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