Luiz Geraldo Mazza




O rei da omissão
Numa sessão do penumbroso Crafe, um dos secretários se queixava de que não conseguia emplacar um dos seus pedidos e apanhou, de uma só vez, vários processos, dizendo que gostaria de ver se alguém fosse ‘‘homem suficiente’’ para contestá-lo. Um outro secretário, aquele que age com mais liberdade neste governo, botou um revólver na mesa e respondeu ao desafio truculentamente.
Parece anedótico, mas é a expressão visceral do governo Lerner, empenhado que está em vender os ativos estatais com uma volúpia de mercador e cujo senso de ética é exatamente o lastreado na força e no grito, principalmente quando se sabe que o chefe não dá palpite, foge das divididas (de choque, é claro) e de qualquer atitude de determinação e coragem.
De um grupo que agiu contra o ex-governador Ney Braga, como se pretendessem sequestrá-lo para facilitar mais um meganegócio, pode-se esperar de tudo, menos aquele mínimo de normalidade em que os bloqueios e impedimentos de traço civilizatório filtram nas pessoas as pulsões mais primitivas.
Um jornal paranaense tentou sugerir, outro dia, que o secretário da Fazenda, Giovani Gionédis, seria a referência de austeridade porque estaria dando duro nos sonegadores, e como temos campanha eleitoral em 2000, boa parte dos políticos estaria fazendo ‘‘lobby’’ para amolecer a fiscalização. Ora, nada disso é verdadeiro: a nossa arrecadação caiu, em relação aos demais Estados meridionais, de uma forma assustadora. É claro que essa queda se deve ao nível de atividade econômica, afetado pela recessão e o problema incontornável desse governo pródigo (o saque selvagem no Banestado, o rombo dos R$ 500 milhões em propaganda, a sangria descapitalizadora para associações com montadoras) é a sua incompetência para administrar a despesa.
As nomeações dos mais de 500 cargos de confiança, a sustentação desse número irracional de secretarias e com sua hierarquia de aspones e de diretores ociosos, discurseiros, estão entre as causas da crise. O governo poderia enxugar essa estrutura com elefantíase a um terço das dimensões atuais, mas não o faz por causa dos compromissos políticos, com a tal base aliada, que tende a fragmentar-se com a aproximação do pleito e a pretensão hegemônica do PFL.
Ainda bem que a cena do Crafe era com uma arma de brinquedo e o gesto visou a mostrar a austeridade que, todos sabem, inexiste. Enfim, um brinquedo, como tudo nessa gestão caótica.
BIZARRICE
O senador Requião, segundo o Rubinho Ferreira, estaria identificando as duas maiores indústrias que Lerner trouxe ao Paraná: a IMC e a IMI, isso é a Indústria de Multas da Capital e a Indústria de Multas do Interior.
O argumento é simples: as outras só tiram dinheiro do governo por enquanto.
AXIOMA O governador é um incubador de problemas: foi assim com as invasões de terras e é, também, com o caso da remuneração da Polícia Militar. Deu aumento de capitão para cima e deixou o resto agarrado no pincel. A qualquer momento explode a crise que ele próprio cultivou. E que pode atingir o pessoal em meio ao rigor dessas campanhas de despejos rurais. É só o que falta.
GLOSA Mais uma para o ‘‘aparelho ideológico’’ da Universidade Federal: ela hoje, conforme o censo do INEP, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, relativo a 1998, perde para a UEL, Universidade Estadual de Londrina, na relação candidatos ao vestiba e vagas. A UEL teve 42.989 candidatos para 2.895 vagas (14,8 candidatos por vaga) e a UFPR, 42.763 para 3.408 vagas (12,5 candidatos por vaga). Outro detalhe: a UEL, que não bota essa banca sapiencial, ganhou da UFPR em vários níveis de avaliação e apareceu como uma das melhores do País.
Assumir a sua dimensão, eis o primeiro ato de humildade. Uma espécie de um socrático ‘‘nosce te ipsum’’, o ‘‘conhece-te a ti mesmo’’.
Quanto aos símbolos da cidade, embora o narcisismo de Lerner não o admita, devemos brigar pela Universidade Federal. A UEL, de certa forma, é um dos seus desdobramentos mais frutuosos. Como o próprio governador, aluno e mestre.
SPRAY A Procuradoria do Município está extremamente articulada com o escritório de advocacia Pereira & Gionédis. É farta a documentação em que procuradores municipais aparecem como constituintes daquela organização e esse assunto já foi levado a exame da OAB, que o desconsiderou.- O escritório aparece como fator interativo também na aproximação de grupos industriais como o caso da Sonae (especialmente na questão da Tafisa) e da Renault.- Críticos espantados com a intensidade erótica do espetáculo dos artistas paranaenses ‘‘Lerner & Chamecki’’ encenado no Rio. A vanguarda já não choca mais ninguém porque, como dizia o Bode, guarda pessoal do Horácio Rodrigues, ‘‘tudo é corpo’’.- Governo continua perdendo a batalha da comunicação nas invasões de terras e a audácia do MST se funda na frouxidão da autoridade maior. Ameaça de responder cada desocupação com duas invasões, típica bravata, revela apenas que a direção tenta mostrar uma força que não possui e que hoje já não conta com os apoios sociais de antes.- O ‘‘casamento canino’’ na praça do Japão é uma dessas mostras de mau gosto do condicionamento televisivo. Numa das mais recentes novelas da Globo houve uma cretinice dessas e foi o suficiente para que se decalcasse o episódio. Não deixa de ser, todavia, um contraponto na histeria dos que pretendem castrar os cães de guarda como solução radical para os ataques. Conforme o dono, um cão pode ficar igual a ele, uma fera, ou doce como um noivo.- A propósito, uma passeata de criadores de pit bull, em São Paulo, mostrou que os donos pareciam menos dóceis do que os cães.-
FOLCLORE Outra de Emílio de Menezes caricaturando Oliveira Lima: ‘‘De carne mole e pele bambalhona,// Ante a própria figura se extasia,// Como oliveira ele não dá azeitona,// Sendo lima, é quase melancia.// Atravancando a porta que ambiciona,// Não deixa entrar nem entra. É uma mania!// Dão-lhe por isso a alcunha brincalhona// De pára-vento da diplomacia.// Não existe exemplar na atualidade// De corpo tal e de ambição tamanha,// Nem para intriga igual habilidade.// Eis, em resumo, essa figura estranha:// Tem mil léguas quadradas de vaidade// Por centímetro cúbico de banha!...//’
CROMO A pereira em flor, como uma noiva, está hibernada em Dorizon pelo olhar da Helena Kolody, que a descobriu em noite enluarada.
AFORÍSTICO Graças à forma pouco hábil, como tratou o noticiário da cólera como se abrangesse todo o litoral e não apenas Paranaguá, o governo Lerner condenou os municípios balneários a um drama: parecem mortos.

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