Luiz Geraldo Mazza
O senador Roberto Requião, quando estava no governo, costumava referir-se a um caso clássico de entropia na comunicação social: o suicídio dos bonzos no Vietnã que saltou, pela frequência, das primeiras páginas para as internas e daí para os gossips e potins das colunas de curiosidade. O horror banalizado perdeu o impacto.
O nosso combativo e combatido senador corre o risco de ser vítima da mesma engrenagem que o vem projetando positivamente, mesmo quando o papel que exerce sai da ironia para a crueldade, o que também num primeiro momento recebe o apoio da plebe, como se dá em qualquer auditório. Há a caminho uma operação para desplugá-lo do processo: parece até uma orquestração a série de artigos e testemunhos contra a sua pessoa, entre os quais de um paradigma à esquerda, o cardeal don Paulo Evaristo Arns, que afirma, com todas as letras, que uma CPI deveria examinar o relator.
Não bastasse isso o comportamento heterodoxo de fazer audiências paralelas na casa do irmão, o deputado federal Maurício, com o maxi-implicado Fábio Nahoum e o vazamento das informações, feito de forma sistêmica, levaram tanto o presidente da CPI, Bernardo Cabral, como o presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães, a dar um deixa pra lá nos transbordamentos do relator, que acabarão gerando nulidades na hora em que o processo for ao Judiciário, conforme a OAB e vários juristas têm alertado.
Desde o início do processo houve a lembrança de que também na CPI de PC Farias tivemos pessoas candentes como o senador Bisol e o deputado Ibsen Pinheiro, este com a máscara de um jurisconsulto romano, e que na sequência se deram muito mal, o primeiro por causa de um pecado venial, privilégio num empréstimo, algo próximo do caso Vacarezza, e outro por aparecer envolvido até o pescoço na CPI do Orçamento. É pouco provável que se repita algo do gênero, pelo menos com essa contundência, mas o empenho em fazer da CPI um palco eleitoral começa a exigir doses de Engov para o público, atarantado, com tanta comunicação e pouca informação.
BIZARRICE - A polícia decide hoje, juntamente com servidores penitenciários, se faz ou não uma greve por causa do arrocho salarial. Anos passados os delegados fizeram uma greve, decidindo, entre outras coisas, suspender prisões para averiguações. Resultado: baixou o nível de violência em Curitiba e a greve funcionou como um gol contra. Quem andou ameaçando greve também, no auge da crise salarial, foi a Polícia Militar. A ameaça bastou. A greve no serviço público é ilegal porque o texto constitucional, que a assegura, não foi regulado em lei complementar. Mesmo assim os magistrados do Paraná, sob Requião, fizeram greve, um absurdo, apoiado inclusive pela OAB numa atitude de cortejamento primário e emocional aos paredistas.
SPRAY - Pressionado, o governo estadual suspendeu o contrato com a Inepar para a subestação da Copel. - Bateu de frente com um lobista que desejava licitação, o que é correto. E com a oposição, ainda que diplomática, do Tribunal de Contas, que defendia prerrogativa sua. - Pressionado, vai mudar toda diretoria do Banestado, logo depois da ida à CPI. Mas as pressões forçam a coesão interna, embora no terceiro andar houvesse quem comemorasse a idéia de envolver Mário Celso Petráglia na CPI. - Ontem houve encontros voltados para o exame dos depoimentos no Senado: deixar o time afiado, que nem vestiba no dia do aulão, para perguntas inesperadas. Pode haver surpresa, segundo os que dominam tecnicamente o problema. - Lerner esteve ou não com FHC? O Palácio diz que não. Então esteve. Afinal até São Pedro negou Jesus três vezes e nem o canto do galo o despertou para o simancol. - Teria ocorrido o seguinte: Luis XIV teria pedido tempo a Lerner para remover as resistências do tucanato da paróquia e que sensibilizaram (até pela demora de Lerner) a cúpula. O PFL fica e os apressados olham no pito de ACM em Requião um sinal de aproximação e, mais do que isso, afinidade. Pescar em água turva é rotina de político. - Como pressionar dá resultado, policiais e servidores penitenciários tentam fazer greve. Mas aí há um problema incontornável: falta de caixa. - No Tribunal Regional de Porto Alegre (4ª Região) tramita uma ação popular em torno da transferência de uma concessão da TV Carimã de Cascavel para a TV Independência. O assunto é complicado por envolver cisão societária e na perícia ter sido comprovada falsidade de assinatura de dois sócios. Parecer do Ministério Público é pela manutenção da decisão do juiz federal de Curitiba que anula os atos praticados. - Como se não bastasse a pressão de categorias funcionais agora voltam à carga os professores com a hora-atividade. Mais de 100% e ainda chiam. Imagine-se se o restante tivesse um mínimo de disposição. - De 7 a 9 de abril, no Senac, das 19 às 22 horas, curso de atualização e análise em ISS. De 7 a 11, mesmo horário, cursos de Telemarketing e Relações Interpessoais no Trabalho. - Jornal do PT, 150 mil exemplares, fez um mural das denúncias relativas ao Banestado. Sem novidades, um bom documentário.
FOLCLORE - Todos vivem falando na voz rouca das ruas a partir de um saque do nosso presidente FHC ( velho aceno de todos os autoritários de Mussolini a Collor). Neste momento, depois da reportagem da Globo que flagrou a polícia de São Paulo em atos de tortura e assassinato, todos aguardam a voz sempre rouca de Mário Covas. É algo que depois do Carandiru sob Fleury prova que a Polícia Militar está fora de qualquer controle.
CROMO - O céu assim como está com essas nuvens mutantes é arte abstrata.
AFORÍSTICO - Lá pelo ano 2.000, se houver PSDB e PFL, Lerner persistirá em dúvida. Cá entre nós com toda razão, pois não há nada pior do que três alternativas ruins.





