Luiz Geraldo Mazza




A mesma praça
O quadro político do Paraná, até aqui hegemônico porque as alternativas conseguem ser piores, lembra em tudo a arrastada composição, sucesso do cantor Ronnie Von, sobre a praça. Nada mais parecido com aquele cenário com o mesmo banco, as mesmas flores e o mesmo jardim. É o que se percebe agora, no caso da mudança da presidência da Comissão da Copel, com a saída de Ney Braga, o que era expressão de máximo mau-caráter, para envolvê-lo, com a mística do nome e da imagem que este governo não tem, numa operação suspeita e que deveria ser assumida integralmente pelos que fizeram naufragar o Estado. Sai Ney, entra Rischbieter, do mesmo time e da fase, convenhamos, mais piorada.
Incrível o poder de fogo do Rischbieter: o jornalista Cândido Gomes Chagas comprovou, documentalmente, que uma irmã do ex-ministro estudou em escola nazista na Alemanha e o Lerner, a despeito de sua origem, jamais fez restrições a isso, em que pese a gravidade da alegoria. Por aí se vê como as questões de convicção mais profundas cedem ante a malha de interesses de outra ordem, não excluídos os de natureza afetiva, o que às vezes é qualidade.
Alguma coisa, muito forte, que sobrepuja as idiossincrasias, faz a coesão do grupo. Beneficiários do neysmo, que lhes facilitou a decolagem, não hesitaram em ‘‘usar’’ o ex-governador na operação desmonte da Copel, sem considerar o constrangimento moral que isso implicava. Ney os projetou a todos. Ou ele ou seguidores seus como Parigot de Souza, que manteve Lerner na Prefeitura após a cassação do governador Leon Perez, que o nomeara, ou ainda Emílio Gomes e o próprio Canet Júnior. As posições ocupadas por esse pessoal são devidas, é claro, aos talentos pessoais, mas também à tutela neysta: Rischbieter foi ministro da Fazenda, presidente do Banco do Brasil, da Caixa Econômica e da Codepar (Companhia de Desenvolvimento Econômico do Paraná).
Há 38 anos, o Paraná deu o seu salto e contou, em grande parte, com o apoio desse pessoal. O cenário era outro: a carreira desses então jovens decolava no projeto ousado de diversificar a economia regional, implantar a infra-estrutura moderna, por meio justamente daquilo que hoje se abomina, a existência de um Estado atuante. Hoje eles estão aí mandando, exatamente para fazer o contrário: entregar o esforço de poupança social, traduzido no patrimônio público, a grupos fortíssimos que vão parasitar, como já estão fazendo com as estradas, no festim do pedágio, o bem comum.

BIZARRICE
A Ford já está no Paraná: ontem em Londrina, amanhã em Curitiba, a caravana das curiosidades mecânicas, desde 1910, chega na praça.



AXIOMA Sobre a Ford estão contando que Lerner, ontem, em Porto Alegre, teria ‘‘posado’’ diante do Palácio Piratini e de um fordeco ‘‘bigode’’ pelo jornal ‘‘Zero Hora’’. Não deveria fazê-lo e se o fez agiu de forma deselegante com um colega, Olívio Dutra, em seu território. Ora, há uma batalha política em torno do assunto no Rio Grande do Sul e pode-se até discordar da forma como Dutra agiu na velha cartilha atrasada do PT, mas há algumas regras de cortesia e respeito que não podem ser desprezadas. Dizem que quando o governador Amin, de Santa Catarina, soube da cena, ficou de cabelo em pé.
GLOSA Evite intermediários: vote em Aníbal Khury para a Diretran.
CHARGE Ótima a charge de hoje do semanário ‘‘Impacto’’: Lerner mostra a Mister M, o famoso desmistificador de mágicos, como fez desaparecer R$ 500 milhões em propaganda e aí, no final, aparece o inimigo dos magos, mostrando as agências de propaganda, as do time do governo, deitando e rolando no dinheiro. Não é bem assim, mas não deixa de ser altamente pedagógico, já que a acusação de Abdo Aref Kudri, presidente do sindicato de jornais e revistas, persiste: a parte do leão ficou com elas, as agências.
SPRAY A eleição na Associação dos Professores da UFPR mostra que a classe está rigidamente dividida, uma rigidez quase fóssil: 556 votos a 551 a favor da situação. Havia 2.300 aptos para votar.- Divisor de águas: a tonalidade de modelo de autonomia. A oposição acusa praticamente a situação de estar cooptada.- Virão, daí, as impugnações, recontagem de votos, mas algo fica bem nítido: com esse tipo de unidade, o governo impõe tranquilamente o seu modelo, e com a maior facilidade.- Sobre autonomia o detalhe essencial, e isso não entra na cabeça de militante fanático, é que a prioridade no Brasil é o primeiro e segundo graus (recuperar a corrida com a Argentina, cujo trabalhador tem média de oito anos de escolaridade contra quatro dos nossos; gerir, com cautela, recursos escassos) e que não se pode gastar mais do que se arrecada.- A Universidade, só para os ‘‘politizados’’, é um mundo à parte; ela deve razões à sociedade que a sustenta, especialmente por sua ineficiência comprovada. Bastou um mínimo de teste para que tanto a pública quanto a privada se revelassem deficientes, saindo-se mal no ‘‘provão’’.- Imaginem se há um sistema interno de avaliação sério. Ora, essa era uma dimensão que a maior universidade do país, a USP, não queria admitir em nome da ‘‘autonomia’’, do clã corporativo e de sua auto-suficiência.- Elogie-se no caso da eleição da UFPR a elegância das posições colocadas no jornal ‘‘Trilogia’’ e também no debate entre o filósofo Emmanuel Appel e o geólogo Antonio Carlos Gondin. Aliás, o embate lembra um conflito entre o Alka-Seltzer e o Sonrisal, pois o diferencial é mais de pessoas do que de matizes doutrinários.-
FOLCLORE A Paixão de Cristo é encenada no Cine Santa Helena, em Paranaguá. Na passagem para o ato final é preciso mostrar o Cristo quase expirando e, por trás do pano, alguém arremessa um balde d‘água no ator Roberto Menghini, que interpreta o filho de Deus, para acentuar seu esgotamento, como se suado estivesse. A água surepreende Jesus, que responde com um palavrão. Está no meio do xingamento quando abre a cortina, ele deixa de emitir as duas últimas sílabas na boca fechada e faz pender a cabeça no ombro, liturgicamente.
EPIGRAMA De 21 a 24 de maio haverá uma feira erótica em São Paulo: está aí uma chance para o governo brasileiro (o estadual também) aparecer com toda força. Pois o que ele está fazendo no povo e com tanta frequência é pura compulsão.
CROMO ‘‘num vaso de flor// planto futuras begônias// e um cacto cantor// florescem róseas falenas// e uma flor, dizem, de menos//’’ Wilson Bueno.
AFORÍSTICO Com a notícia de que o país se recupera: queda do dólar e mais da inflação e aumento do Produto Interno Bruto, dá para imaginar o desespero dos pregadores do caos que apostam no quanto pior melhor. Calhordas!

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