Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
O tumor latejante
Ninguém contribuiu tanto nos últimos anos para que o MST ganhasse um peso fora do comum, como se nutrido a anabolizantes, na reacumulação de energia, como Jaime Lerner. A ele e a mais ninguém se deve o quadro criado no Paraná, o maior centro de invasões de todo o País, em que pese a circunstância de estar com as suas fronteiras agrícolas esgotadas. Graças a sua ausência de punch, de determinação e a inclinação compulsiva para amenidades e também homenagens e viagens chegamos a esse ponto como se estivéssemos a reprisar as tensões vividas de 1951 a 1957, das tropelias de Porecatu até a saga do Sudoeste, lá onde imperava a incontinência corsária das colonizadoras, apoiadas pela estrutura do poder institucional.
Depois de deixar o fluxo dos acontecimentos entregue ao espontaneísmo, como se pudesse chegar à auto-metabolização, empurrando sempre com a barriga, vasta e generosa, Lerner acabou dando aos sem-terra uma força imaginária que se sustentava na sua omissão. Daí aos transbordamentos foi um pulo, algo perfeitamente esperado, pois a audácia se tornava impositiva ante a frouxidão da autoridade.
Descumprindo de forma sistemática ordens judiciais, sob ameaça de intervenção federal e pressão da bancada ruralista, o governador levou muito tempo para processar as desocupações, dando margem a que um trabalho de contrainformação ganhasse força, levando por uma via psicossocial o governo à inibição e ao imobilismo.
Não há como fazer desapropriações sem conflitos. Essa é uma questão elementar e potencializa-se a perspectiva de criação de mártires com o que se nutre a chama fundamentalista da articulação, muito mais gincana do que revolução porque não há enfrentamento, mas uma disputa alegórica, sustentadora da utopia regressiva agrarista, expressão do Brasil arcaico e de concretude indiscutível, incapaz, porém, de dar respostas aos desafios da atualidade, posto que expressando, sem dúvida, o clamor dos excluídos.
Tudo o que acontecer daqui para a frente deve ser debitado ao governador do Estado: mesmo que não haja uma tragédia, o que ninguém deseja, ele é o culpado. É que a questão não se encerra nas desocupações, mesmo que feitas com critério e sem violência; permanecerão as sequelas que, por sua vez, gerarão novos focos de tensão.
Invadir terra improdutiva é uma imposição da realidade brasileira quando há tanta gente fora do racha do bolo; mas fazê-lo em terra produtiva é pura delinquência. Com a nova direção do Incra, articulada ao governo estadual, há uma chance de fazer a seleção das coisas. É o único avanço.
BIZARRICE
Alguém comentava o fato de nunca ter havido tanta negociata na vida paranaense como agora e surgiu, então, a piada na Boca Maldita: no Boqueirão há o pólo das malhas, no Centro Cívico o pólo dos malhos
AXIOMACá entre nós, mas o nosso ministro do Esporte e Turismo, Rafael Greca, está levando um baile da Rita Lee nessa polêmica dos rodeios. Sugerir que não há sofrimento para animais que têm os seus testículos pressionados nas provas de monta é desprezar um dado importante que só na aparência é miúdo.
GLOSACurioso: falaram que o Eugênio Stefanello saiu da Conab, mas todos nós continuamos a ouvir aquela sua voz sacerdotal, insistente e forte.
EPIGRAMAO repórter Ed Carlos tem um celular (isso, às vezes, quer dizer precisamente o contrário, que a pessoa não dispõe de comunicação) da Telepar, e depois de várias tentativas infrutíferas seguiu a orientação para que se dirigisse ao setor de reclamação. E nem em vinte minutos o atenderam. Por isso é que estão apelidando o aparelho de Tim-gano.
NO JAPÃOO prefeito Cássio Taniguchi esteve com o premier japonês Keizo Obuchi e lhe apresentou o projeto de transporte de alta escala de Curitiba. Atrás do mesmo tema, já que busca financiamento, esteve com o presidente da comissão orçamentária do Parlamento, Mizaaki Nakaiama, e hoje se encontra com o Fundo de Cooperação Econômica Ultramarina, um dos principais órgãos de financiamento daquele país. A novidade, todos sabem, é um elevado que sai do Pinheirinho e vai até o Atuba, um metrô que operará no meio da BR-116 no aguardo, é claro, das vias de contorno e fazendo integração com o sistema metropolitano.
SPRAYA cupidez das empreiteiras é conhecida: além de pretenderem ganhos absurdos, por um mínimo de investimentos com o pedágio, querem também o monopólio da faixa de domínio das estradas, cobrando royalties dos dutos como gasodutos e oleodutos. - Só não querem saber de CPI, estadual ou federal, como maiores financiadores, ao lado dos bancos, das campanhas eleitorais. - Ainda negativo o movimento de vendas industriais no trimestre em 7,26% e em 2,4% na taxa de ocupação. Há sinais de melhora para abril e maio, segundo a FIEP. - Fundos de pensão: olho neles. Vários andaram fazendo investimentos em shoppings, centros de lazer e a coisa não está indo bem. Um alerta para o oba-oba em cima do Paranaprevidência. - Outra coisa: procuradores do Estado entram com mandado de segurança contra a cobrança extra. Os que têm mais de 70 anos estavam isentos - e trata-se de direito adquirido. - Tirar a melhor figura do governo para botar na Paranaprevidência, como se pretende fazer com Miguel Salomão, é típico do time que está em campo e que só falta vender a camisa. - Caso Tuiuti é um escândalo: como acomodar decisões jurídicas conflitantes e estabelecer uma impossibilidade pedagógica como a de aula para 600 alunos? - Gente do governo empenhada em tirar do noticiário duas coisas: Copel e o pedágio, daí o desespero com que procuram gerar outras preocupações. As duas são nutrientes fortes para a oposição e chegam, no caso da indicação de Ney Braga, a irritar, pela ausência de escrúpulos, os próprios aliados. - Ibrahim Faiad, novo secretário de Política Agrícola, tem mais de um padrinho: ACM também é seu amigo. Nos meios rurais sua designação foi bem recebida, mas vai ter trabalho de folego já que precisa montar o plano de safra em junho.
FOLCLOREA Polícia quer desarmar a população. E quem desarma a Polícia, aquela que atira primeiro, como no caso do taxista, e pergunta depois? Ou a outra que, encapuzada, invade delegacia para matar um preso e depois bota panos quentes em cima como se nada de grave tivesse ocorrido?
CROMONo meio do caminho há um buraco// há um buraco no meio do caminho// Com tanto descaminho// a pedra de Drummond é suficiente para acertar esse embaraço?//
AFORÍSTICOAnos passados, Lerner foi um dos maiores entusiastas de prospecções sobre o ano 2000. Pois ele consegue estar numa espécie de bug muito antes disso. Há esperança, no entanto, que assuma o governo o ano que vem.





