Luiz Geraldo Mazza




Colheita de sangue
O governador Jaime Lerner é o culpado prévio do que possa ocorrer neste momento em que a polícia cumpre decisões judiciais em terras invadidas. Esse é o ponto de vista da Pastoral da Terra, colocado, é claro, com o propósito de levá-lo a mais hesitações, o que vinha ocorrendo de forma crônica e estimulando a audácias, cada vez mais frequentes, no noroeste. Mas é também o entendimento dos ruralistas que vinham exigindo que se pusesse fim aos abusos.
Temos, portanto, uma convergência de pontos de vista, embora as razões, tanto dos sem-terra quanto dos proprietários, se fundam em coisas diversas.
Ideologizado, o tema dificulta o raciocínio porque uma revolução mimética, com jeito inocente de uma gincana, ritualisticamente praticada, se desencadeia com a maior naturalidade por todo o País. O MST é hoje a legião dos pobres com uma representatividade inexistente, por exemplo, no parlamento. Expressão clara das variadas formas de exclusão social, ainda que haja oportunistas de vários matizes no meio dos acampamentos e assentamentos, o movimento colhe em suas fileiras, além dos expulsos da gleba, também os favelados e desempregados da periferia urbana. É a pobreza organizada, direito inalienável de qualquer grupo social na democracia moderna.
Não dá para aceitar o saque dos supermercados, como alguns líderes pregam, valendo-se da atmosfera do nordeste retirante, como o presidente da CNBB o declarou quando venceu a disputa renhida com os conservadores. Tido como homem de esquerda, fez restrições às ocupações violentas e ao cerco às propriedades produtivas. É o que qualquer pessoa de bom senso aceita: a ocupação de terras ociosas é um ato legítimo, ainda mais num país com as dimensões do Brasil e a gravidade dos seus desequilíbrios regionais e desníveis sociais.
A polícia tem de agir com serenidade incomum porque a qualquer excesso será flagrada e isso favorecerá psicologicamente o MST. Não pode ser constrangida a recuar, como aconteceu em Eldorado de Carajás, quando, depois de acuada a pau e pedra, voltou com toda a fúria e agora assumindo a dimensão da fera que vem cobrar a humilhação. Um massacre, que poderia ser evitado, de 19 mártires.
É claro que a violência é maior contra os sem-terra, mas aqui no Paraná, no maior dos conflitos, o de Campo Bonito, tivemos três baixas entre os militares e a represália, com execração e tortura, na execução do Teixeirinha. Até hoje, sete anos depois, o processo anda lentamente, depois da tentativa de arquivá-lo na justiça castrense. Comissões de direitos humanos da OAB e também do Congresso andaram por aqui, como aconteceu ainda recentemente diante do assassinato de um sem-terra e o sequestro de outro, por sinal assessor do deputado federal Padre Roque, e tudo permaneceu na mesma.
O ritmo da justiça, tanto na questão dominial da terra quanto nos casos criminais, ajuda a manter esse nervo exposto das estruturas fossilizadas do Brasil, tão atrasado que a reforma agrária copia o andamento da abolição dos escravos. Se houvesse mais agilidade, não teríamos, por falta de definição, esse tumor que lateja e que não será puncionado tão cedo.

BIZARRICE
Affonso Camargo, vogal, e Werner Vanderer, segundo-tesoureiro, foram os postos que o Paraná obteve na Executiva do PFL. Amostra frágil de quem pretende fazer de Lerner candidato presidencial. Catarinenses dão um banho em nós, seja em Universidade Federal ou na política. E está lá o Jorge Bornhausen no comando.



AXIOMACritérios esportivos no Paraná: o Grêmio Londrina, que disputou o basquete, recebe R$ 20 mil por mês; a equipe feminina da Hortência leva R$ 100 mil, cinco vezes mais. São José dos Pinhais sai na frente de Londrina. Mas as montadoras, que lá estão, não ajudam em nada.
GLOSAE essa maquiagem do nível de emprego no Paraná, feita com o propósito de responder à pesquisa do Dieese que mostrou um déficit em 98 entre contratações e rescisões da ordem de 35.600 trabalhadores, como é que fica? Vamos aceitar passivamente, como boi na hora do abate, a mistificação? Sindicatos permanecem calados, Dieese e CUT idem.
SPRAYO celebrado ‘‘dossiê Lerner’’, gestado na base aliada, tem um capítulo relativo ao desmanche institucional e como se processou a entrega mais rápida da Sanepar e mais lenta da Copel, que só agora entra na etapa decisiva.- Caso Banestado se vale em grande parte das atas de diretoria com as respectivas e duras acusações internas. Reconhece, no entanto, que já estava no vermelho, ainda que mostre a gravidade das operações na Leasing e Corretora.- Na oposição a riqueza documental é maior e se fixa, entre outras coisas, em desapropriações para o canal extravasor, onde políticos e gente ligada ao poder recebeu sete vezes mais do que outros. Idêntica situação foi detectada na desapropriação da Cidade Industrial, onde a área de Canet Júnior valia mais de seis vezes a de Moisés Lupion.- A forma como alguns empresários cresceram com Lerner é destacada no caso de Salomão Soiffer, desde o Shopping Mueller, passando pela vistoria eletrônica de veículos e chegando ao contrato de exploração do Parque Nacional do Iguaçu.- A ligação societária entre Lerner e Cassio Taniguchi é outro ponto sensível. Aí aparece o caso das luxuosas coleções ‘‘Uma Experiência de Planejamento Urbano’’ pagas pelo governo municipal e entregues ao escritório dos dois, como o comprova a revista ‘‘Paraná em Páginas’’.-
FOLCLORECafajestice em cinema era comum. No ‘‘puleiro’’ do Cine Palácio, em Curitiba, saíam as maiores barbaridades, como o lançamento de um jornal com dejetos na platéia. De todas, a mais ousada foi a do Carta, que escondeu no casaco um urubu e o soltou no interior da sala de espetáculos. Ao passar pelo feixe luminoso a ave-gari provocou pânico. E tem a do polaco que soltou um estrondoso pum e depois se orgulhava de ter sido o autor da façanha:
‘‘E que tal o traque que io di?’’.
CROMOO estádio em silêncio lembra a concha que conserva o suposto marulhar do oceano: o frisson dos gols, a agressão ao juiz e em meio ao barulho o assobio nítido de quem tenta seduzir, à distância, a garota bonita que passa, suave, na passarela imaginária.
AFORÍSTICOO pior da política é perceber-se que somados todos os fatores, ainda o Jaime Lerner é menos ruim do que os seus concorrentes no Paraná. Lamentável essa pobreza de quadros que, por vezes, nos leva à advertência de que não devemos confundir quadros humanos com quadrúmanos.

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