Luiz Geraldo Mazza



Autonomia universitária
Cada hora pinta uma palavra-chave e nada mais sensível ao mundo universitário do que a tão decantada autonomia. Normalmente afirma-se que ela existe. Quando se vai apurar a fundo o que há é de efeito declaratório, como dizem advogados, e não atributivos de direito.
O governo paranaense anda com a mania compulsiva de sair à frente das coisas, como se dá com o Fundo de Pensão dos servidores estaduais e com o pedágio. Pela encrenca que essas duas iniciativas estão provocando, recomendar-se-ia o controle de hormônios e o uso do freio de mão. Também outra inovação, a das organizações sociais, como já existem o ParanaCidade e o ParanaEducação, que a paranóia esquerdeira enxerga como o demônio da privatização, está aí para mostrar que o ideal é encontrar formas de discussão ampla desses temas antes de transformá-los em fato consumado.
Estudou-se ontem, diante de mestres da USP, como se processa o modelo paulista, e o debate é inesgotável porque a concepção dominante no Brasil é a de colocar a instituição a serviço do mercado. Essa condicionante ontológica acaba, de certa forma, contaminando o conteúdo. A filósofa Marilena Chauí fez pesadas críticas no ‘‘Roda Viva’’ da TV Educativa sobre essa linha de engajamento que, segundo seu ponto de vista, compromete a função essencial da Universidade.
Na gestão Álvaro Dias também se debateu o problema e ficou nítido, pelo menos nas intervenções do governador, que era impossível atender as demandas da classe interessada, porque se criaria um buraco sem fundo. Isso também não impediu que o governador de então, apesar da alegada falta de recursos, decretasse a gratuidade no terceiro grau nas universidades estaduais.
A Universidade tem de atuar dentro de um orçamento-programa e ajustado ainda à sua realidade econômico-financeira. O Estado quebrou. Só não enxerga isso quem não quer e não parece justo que se aplique mais dinheiro no terceiro grau, quando as prioridades recomendam atenção maior - para atender a necessidade de ampliar taxas de escolaridade e habilitação ao trabalho - ao primeiro e segundo graus. O ideal seria que mais recursos fossem colocados à disposição das universidades estaduais, que tiveram desempenho incomum no provão. Todavia, a realidade é dura e não comporta criar expectativas que não possam ser satisfeitas. É possível, com o enquadramento do Paraná nas imposições da Lei Camata, o que se pretende fazer com a ParanaPrevidência, que surjam mais recursos. Não se deveria desprezar igualmente parcerias com empresários.

BIZARRICE
Alguém pergunta a um tucano se Lerner e Requião estivessem na beira de um abismo, qual deles empurraria em primeiro lugar. Resposta: o Requião e depois o Lerner. ‘‘Primeiro a obrigação, depois a diversão’’. A piada lavra entre os tucanos, que estão bem no fundo do abismo diante da taxa de credibilidade do seu maior eleitor, Álvaro Dias.



AXIOMA O Paraná em liquidação: saiu o decreto que cria o grupo que cuidará da privatização da Copel. Empresas privadas estão sendo quebradas ou absorvidas por multinacionais. O último a sair, que não será o Lerner, que apague a luz, se até lá não for cortada por falta de pagamento.
GLOSA Essa exposição a que se submeterá o Judiciário nos transbordamentos da CPI terá até aspectos positivos em episódios pontuais, mas não conseguirá que o Legislativo melhore o seu nível de credibilidade junto ao público. Isso em efeitos imediatos. Lá para a frente o Parlamento cai mais ainda.
FILIGRANA A OAB decidiu que vai criar um núcleo para acompanhar casos como o do ataque da PM a um táxi. Só falta sugerir agora que os policiais pensaram que os ocupantes do carro de praça (falemos como antigamente, pô) eram os autores da emboscada, de anos passados, contra o secretário de Segurança.
A OAB tem um setor de direitos humanos. Caberia fazê-lo analisar aquela ação de encapuzados contra um homicida morto no interior da delegacia de Furtos e Roubos de Automóveis. Pena de morte informal, essa não.
CARTÉIS Quando Kurt Mirow escreveu ‘‘A ditadura dos cartéis’’, teve problemas com Dops, Doi-Codi, Cenimar porque os milicos, histéricos e paranóicos, tinham entendido ‘‘a ditadura dos quartéis’’, o que obviamente acontecia.
Nunca vimos, com tanta clareza, a força dos cartéis. O acordo feito para preservar o emprego metalúrgico beneficiou-os mais do que aos trabalhadores com as reduções do IPI e ICMS.
A reação da Assembléia Legislativa em favor dos fornecedores da Rede Sonae foi uma prova de que há armas para restabelecer o equilíbrio na ordem frenética do capitalismo.
Ao reagir à tentativa de ‘‘cartelização’’ na licitação da hidrelétrica de Segredo, o então governador Álvaro Dias mostrou que uma atitude pode ser tão ou mais importante do que uma obra daquele porte.
IRONIA Na rapidez da privatização da Copel, é emblemática a idéia de botar Ney Braga na comissão, com um detalhe: no seu governo as estatais e companhias mistas foram criadas e se desenvolveram e tentam colocá-lo como coveiro para aplicar a pá de cal. Não é uma homenagem, mas um comprometimento com gente sequiosa para arrumar dinheiro e calafetar o barco que perfuraram com imprudência e muita prodigalidade.
PROPOSTA Por mais de uma vez sugeri aos governantes do Paraná que fizessem, entre outras coisas, um Núcleo de Estudos Estratégicos (o coronel Cavagnari, parnanguara, maior autoridade brasileira no assunto, mestre do setor da Unicamp) em parceria com empresariado, área científica. Outra sugestão, a de montar um cadastro de massa cinzenta de paranaenses, tanto dos que aqui permanecem quanto dos que estão fora. Um deles seria o filósofo matemático, um dos maiores do mundo, Newton Carneiro Affonso da Costa, que deu um excelente depoimento ao projeto de memória da Fundação Inepar, domingo passado, na CBN.
CROMO E de repente me vejo, tanto na rádio quanto no jornal, cercado de mulheres ruivas: Michele, Giordana, Luciane, Vivian, Mari, Mônica, Juliana. Em cada cabeça uma sentença: um pôr de sol e daqueles que sugere o tempo bom.
AFORÍSTICO Colocar o Ney Braga na Comissão de Desestatização da Copel é o mesmo que, se vivo fosse, nomear o engenheiro Parigot de Souza para o desmanche. Os que constróem deveriam se recusar a demolir. Não é o caso deste governo, que vai demolindo tudo com a maior naturalidade.

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