Luiz Geraldo Mazza
Loucademia de polícia
Não tivemos ainda qualquer providência para esclarecer a invasão de uma delegacia por dezenas de encapuzados para extermínio de um matador de policial civil e já estamos às voltas com um problema grave na PM, com o ataque de uma equipe da P-2, em veículo descaracterizado, contra um táxi, confundido numa operação contra marginais. Os dois episódios estão interligados: o governo não controla a polícia e a sociedade, infelizmente, não controla o governo. Não apenas nesses fatos, mas na rotina que já tem demonstrado vinculação de parte da corporação com ações criminosas, como sequestros e roubos de carros, tal qual se deu na delegacia de Almirante Tamandaré.
Só falta a polícia, diante do caso do táxi metralhado com 19 tiros, alegar, como o operador dos mísseis da Otan, na Iugoslávia, que tudo não passou de um erro de boa fé, seja no caso do trem atingido ou no de civis mortos. Lerner continua olhando os problemas da segurança como se não fizessem parte de suas responsabilidades, face às concessões aos políticos nessa área.
No fim de semana houve um feito da PM ao desbaratar uma gangue de batedores de carteira que atuava na Rodoferroviária, com gravação em vídeo da tentativa de suborno aos que haviam prendido o chefe dos descuidistas. Todo mundo elogiou o feito, que é exceção e não regra porque há tolerância demais, não apenas quanto aos delitos menores como também com as articulações a respeito de roubos de automóveis. E aí há uma questão novamente política: se no passado a tolerância com o jogo do bicho se fundava, inclusive, na contribuição que os contraventores davam aos fundos de campanha eleitoral, o que era apropriado à escala da nossa economia, hoje a coisa muda com as notícias sucessivas de que os que detém posição de destaque no oligopólio dos desmanches de carros estão entre os contribuintes desse processo.
Um carro descaracterizado, como era a viatura de onde partiram os tiros, pode ser tanto de delinquentes como de policiais, e estes ficam mais parecidos com aqueles quando os seus ocupantes estão conscientes de que nada de errado fizeram. Esse fato vai dar margem aos tradicionais jeitinhos corporativistas, como se vê também no caso da execução do preso dentro da delegacia. Vai acabar caindo num arquivo morto, como tentaram fazer em 1992 com o massacre de Campo Bonito, em que três integrantes da P-2 foram linchados por sem-terra e a PM, como se operasse uma retaliação, prendeu, torturou e executou o líder Teixeirinha. Só agora é que se tenta fazer o processo andar na comarca de Guaraniaçu, pois o IPM havia sido arquivado, por mais incrível que pareça, apesar das dimensões da mortandade.
A falta de pulso de Jaime Lerner responde, ao mesmo tempo, pelos abusos e pelas omissões, tanto uns quanto outros hoje transformados em rotina, como se a sociedade que paga o mecanismo policial para protegê-la não tivesse o mínimo direito de conhecer mais essa caixa preta dessa administração sombria.
BIZARRICE
O jornalista Cândido Gomes Chagas, irriquieto como sempre, na Boca Maldita, dirige-se a Lineu Tomaz, advogado do time de Lerner, e pergunta em que academia está malhando para melhorar a musculatura. E explica: Vai ser fogo você levar sozinho o caixão mortuário deste governo.
AXIOMA Crime de formação de quadrilha não é mais ou menos isso que os governos fazem com suas alianças no mundo empresarial, sempre adulando os pequenos, pelo menos na oratória, e servindo aos grandes, na prática?
- GLOSA Estudantes pedem o passe livre no transporte, o que elevaria a tarifa dos outros, cidadãos de segunda classe, a R$ 1,20. Como estão defendendo a ação dos pula-catracas, a cidade deveria conceder-lhes um passe espírita.
- FILIGRANA Afilhada de um político famoso da praça, embora estudando em Londres, teve uma promoção em repartição estadual. Se fosse de Londrina pelo menos haveria proximidade regional para justificar.
- SPRAY Um dos aspectos mais deploráveis do consumismo no Paraná é o do abuso com agrotóxicos. No governo Richa, Claus Germer desencadeou na Secretaria da Agricultura uma guerra santa no setor, dada a gravidade dos acidentes, fatais inclusive.- A situação melhorou um pouco, mas em 91 tivemos 1.183 casos, com 100 fatais. Em 92, o registro foi de 1.061, com 126 mortes, o mais elevado da década. Em 93 baixou: 1.051 casos, 109 mortes.- O tema é sério e se agravou com o miniciclo da soja (que implicou em aquisição de pacote tecnológico, aí incluída a micoriza, o inoculante para fixar nutrientes no solo) que deflagrou o abuso.- O agrônomo Marcos Castanheira publicou um estudo nos anos 70, no qual afirmou que todas as fontes de captação de água potável no Paraná tinham percentuais elevados de organoclorados e organofosforados. Até hoje não se conhece o efeito residual no corpo humano.- Em 1994 houve 937 casos com 98 mortes, em 1995, 814 com 97 mortes, em 96 caiu para 558 e 81, em 97 sobe para 583 e 63 mortes. No ano passado o registro foi de 553 para 58 mortes. Entre os grupos de causa mortis o agrotóxico aparece com destaque nas estatísticas.- Em 48% dos casos de intoxicação, as vítimas foram trabalhadores rurais; tentativas de suicídio, por esse meio, representam 30%.- O último número da revista do CREA, Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia, esgota o tema em 12 páginas.- Globo Ecologia encerra gravações no Parque Nacional do Iguaçu e em Itaipu. Que não mostrem o destino do esgoto da cidade, que não é pequeno.- A Secretaria de Turismo alega que essa divulgação nada custa para os cofres públicos, que aliás foram arrombados nesse setor também.- Um workshop aprecia hoje com mestres paulistas Nina Ranieri e Hélio Nogueira, da USP - na secretaria de Ciência e Tecnologia -, os referenciais paulistas do processo de autonomia universitária. Autonomia só se obtém gastando menos e programando em cima da realidade e não da fantasia (discursada) corporativa.
- FOLCLORE Um assessor palaciano estava preocupado, inconsolável: O governador deve estar com algum problema sério, pois não marcou viagem para o exterior ainda este mês.
- CROMO Monótonos e monógamos, sabiás e joões-de-barro saltitam, nervosos, na grama do jardim. Hoje, mais do que ontem, permitem a nossa aproximação. Sabiás-laranjeira, a maioria, uma aurora na plumagem da barriga, mas de vez em quando pinta um preto, outro canto, outro vôo.
- AFORÍSTICO Se o governo fosse bem intencionado, admitiria a CPI do pedágio, já que é o único jeito de se saber das coisas e ocultar do povo o que há por trás desse tema é fascismo puro.





