Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Um modelo discutível
O conselheiro Acácio já dizia que todo o modelo é discutível. Tanto, por exemplo, o adotado nacionalmente para a economia brasileira, onde é visível a falta de um projeto estratégico que passe pelo crivo da área científica, como o que estaria orientando as decisões no Paraná. Aqui também não há projeto, em que pese a insistência do governador em utilizar a expressão, o que revela carência de conhecimento, pois não há um plano articulado com tal objetivo. Isso é visível na forma como reagiu diante da hipótese de sediar a Ford: percebeu, o que já vínhamos alertando desde o início, que a concentração na Região Metropolitana tenderia a produzir desequilíbrios regionais e a aprofundar a perda de qualidade de vida. Daí ter falado em interior como se estivesse passando às prefeituras o jogo das emulações.
Já está demonstrado que, a despeito do volume de investimentos da ordem de R$ 16 bilhões no Paraná, estamos fortemente atingidos pelo desemprego. Em 98, no mercado formal, entre contratações e dispensas, tivemos um saldo negativo de 35,6 mil vagas. Pode-se argumentar que há drenagem de trabalhadores para o mercado informal. O Linhão do Emprego é um desses casos. Empresas que geram empregos se inviabilizam se cumprirem as suas obrigações fiscais, causa aliás da evasão de rendas e da sonegação articulada.
O mais grave, porém, diante da crise financeira, é a bateria de concessões feitas, entre as quais as de imunidade fiscal e subsídios, mais as relativas à injeção de recursos por via societária. Nesse aspecto a visão do governador melhorou, uma vez que declarou a inexistência de dinheiro para esses aportes. Empresas como a Batavo, por exemplo, poderiam ter sido salvas do cerco multinacional com um pouco de boa vontade e empenho, que não precisariam ser iguais às generosas ofertas para as montadoras.
Agora Cascavel, Londrina, Ponta Grossa e Maringá querem a fábrica pela qual ainda chora o prefeito de Guaíba, na Grande Porto Alegre. Como se tudo não dependesse de avaliações logísticas muito cuidadosas, vários Estados se habilitam e há disposição para concessões que o Paraná não quer mais fazer porque não pode. O cofre está vazio de verba, mas o verbo sobra, transborda.
BIZARRICE
Enquanto Lerner vende o seu peixe em Sampa, o guaratubano Paulo Chaves, que levava uma carga de pescado àquele mesmo Estado, teve a recusa da mercadoria por causa da cólera. Prejuízo do comerciante foi grande, enquanto Lerner vendeu de graça os seus feitos à imprensa paulista. Há pessoas que ficam encolerizadas com essas coisas.
AXIOMA Deus morreu, Marx também e não estou me sentindo bem. Grafite num muro perto do Círculo Militar, em Curitiba.
GLOSA Não dá para suportar a discurseira safada em cima da dignidade do trabalho e da conciliação com o capital. O papo pegajoso nada significa diante do flagelo universal do desemprego. Também não é suportável ouvir obreiristas que acham o salário mínimo o começo e o fim de tudo. Lembro de uma advertência de John Galbraith, o grande liberal (aquele que com mais de 80 anos disse que o Brasil simplesmente não devia pagar a dívida externa) e que era mais ou menos assim: Um empresário jamais dirá que está fazendo um empreendimento para lucrar e, sim, para gerar empregos.
Há quem ache que o patrão sempre ama o empregado, embora não repasse o FGTS, o INSS e por vezes se recuse até a assinar a carteira. Há amores perigosos como o da mãe que abraça demais o filho e o acaba matando por asfixia.
FILIGRANA Lerner não concorda com a inclusão da Universidade Federal como símbolo de Curitiba. Falou isso numa roda em que eu estava. Pois bem: o médico Affonso Antoniuk, presidente da Associação de Ex-Alunos da Universidade, está recebendo mensagens pela Internet, de várias partes do mundo, de profissionais que fizeram sua formação acadêmica na Federal, pedindo empenho para que todos votem naquele símbolo.
A vaidade do governador é visível. Todos os símbolos escolhidos, fora o da Universidade, que entrou por pressão da Gazeta do Povo, detonada num trabalho do jornalista-historiador Cid Destefani, são referências de sua passagem pela prefeitura. Ora, Lerner passou também pela Universidade como aluno (Engenharia e Arquitetura) e professor (Arquitetura), e só essa referência torna os seus supostos feitos subordinados àquele centro de ensino, com o qual deveria, se tivesse humildade, partilhar tanta glória.
A criatura pretender ultrapassar o criador é um velho tema da ficção e da realidade. Não há criatividade nenhuma em repeti-lo. É puro repeteco e de péssimo gosto. Vamos votar em massa na Universidade. É imperioso fazê-lo.
MISTÉRIO A OAB-Paraná, por meio de seu secretário, conselheiro José Hipólito Xavier da Silva, certificou publicamente que o advogado Giovani Gionédis não tem impedimentos para o exercício profissional desde 1979, que jamais comunicou o exercício de função incompatível com a advocacia e que não integra nenhuma sociedade civil de advogados registrada na seccional.
O assunto é grave porque qualquer profissional da advocacia é obrigado a comunicar exercício de função pública, que estabelece, de saída, a proibição de atuar contra a Fazenda Pública. A data dessa certidão é 21 de setembro de 1998. Gionédis afirma ter se afastado da sociedade, mas não fez qualquer comunicado à OAB. Outra coisa: diz que após assumir cargo público jamais exerceu a advocacia ou assinou qualquer petição judicial. Entre 80 e 88, teve várias ações contra o Estado.
Se for correta a verificação feita nos arquivos da OAB, percebe-se que também enquanto esteve na Procuradoria do Município de Curitiba, de 89 a 94, não houve a informação à OAB da investidura, o que o inabilitaria, como uma espécie de capitis diminutio, ao exercício na área fazendária.
FOLCLORE Havia um jogador do Britânia que tinha a mania de prender a bola entre as pernas como um saque pessoal como o Leônidas da Silva patenteava a bicicleta. Pois num dia ele foi repetir a jogada e a bola passou. Não teve dúvidas: correu atrás da pelota, apanhou-a com as mãos e disse para o árbitro, perplexo, que não era número cinco!
CROMO Nem os delinquentes escapam de um passado lírico: banho nu, troca-troca, bolinha de gude, passa anel, e a psicanálise não vai atrás desse universo de pandorgas que deixam seus cadáveres no fio da luz.
AFORÍSTICO Das atas de negócios deste governo não constam negociatas. Dá um bom trocadilho, mas não é verdade.





