Luiz Geraldo Mazza




O descarte humano
Qual a reflexão mais séria a fazer sobre a data de hoje, Dia do Trabalho? Em primeiro lugar a de que o trabalho como fator de produção já não tem a dimensão radical do passado. Estamos numa civilização do descarte de técnicas, de processos e também do próprio homem como trabalhador e isso se dá numa escala cósmica em meio à badalada globalização.
O capital hoje é internacionalizado, o trabalho não. Só romanticamente seria possível pensar numa Internacional Socialista como a de tempos heróicos: a Renault, para abrir em Curitiba, com uma fábrica de tecnologia de ponta, que emprega poucos e a salários inferiores, fechou mais de uma unidade na Europa, como a da Bélgica. Percebe-se aí a impotência do trabalho como fator de agregação revolucionária e que deu fundamento às várias formas de socialismo e anarquismo.
Às vezes acontece o inesperado com uma espécie de supervivência de coisas do passado: a greve de jornalistas em Nova York contra a automação (hoje regra no mundo inteiro) e a parede do Meneghelli nas montadoras em São Paulo quando colocava carros com defeito na operação ‘‘cambalacho’’ retomam algo parecido com a ação dos ludistas que destruíam teares na Inglaterra para obter, ao mesmo tempo, salário maior e o corte na malha produtiva para impedir que, pela tecnologia, àquele tempo ainda rude, se reduzisse o número de trabalhadores.
Ora, foi a exploração do trabalho que deu margem a todas as formas de socialismo, das românticas e utópicas até as supostamente científicas como as de Marx e Engels. Todas as correntes colocavam o trabalho no degrau máximo, não apenas quanto aos fundamentos morais, à sua dignidade essencial, tanto que se dizia ser o ‘‘capital humano’’.
Modernamente, depois principalmente que se consolidou a sociedade hegemônica, sob o ponto de vista militar (dá para percebê-lo na violência com que age a Otan contra a Iugoslávia, sob o fundamento do combate à purificação étnica) e a tão badalada globalização, o trabalho se tornou precário ante o predomínio de tecnologias poupadoras de mão-de-obra acopladas à financeirização da economia em escala internacional. Desapareceram os fatores de contestação e contraste como se as coisas estivessem confirmando o que Fukuyama, num texto superficial, teria afirmado a respeito do ‘‘fim da história’’.
Como seria ingênuo pensar numa nova Internacional Socialista (hoje a integram grupos liberais e dominantemente social-democratas), num momento em que a praga do neoliberalismo, a pretexto de reduzir o Estado ao mínimo, avança sobre a malha das conquistas sociais para reduzí-las e extinguí-las, é preciso uma revisão nessa axiologia fundamentalista e muito assemelhada com aquela que tentava, às avessas em fundamentos filosóficos, fazer crer que o socialismo real era verdadeiro e não policial.
De repente a esquerda, desorientada, recuperou Keynes como se fosse, por suas idéias intervencionistas, válidas num país como o Brasil, porque o lado profético de Marx não se confirmara e, ao contrário, hibernara na ditadura do proletariado, e ficou a reciclar cacoetes como o nacionalismo e formas bem primitivas de organização, como a de aspirar à utopia recessiva do agrarismo, tal qual se vê na pregação da Igreja e no MST.
A queda do Muro de Berlim deveria ter recuperado outros autores, e um deles, o padre Lebret que, com o seu Movimento Economia e Humanismo, fazia uma clara previsão das distorções que o capitalismo como sistema geraria, embora não se pudesse imaginar o grau de teratologia que alcançaria. Mas o Welfare State, o Estado de Bem-Estar, fundamento da social-democracia, e que existe até mesmo numa ordem liberal como a norte-americana, é defendido pelas organizações de massas nas ruas, como se dá na França e Alemanha.
BIZARRICE
Nesse falso incidente com os portugueses, por causa de uma fala do Rafael Greca, a frescura, convenhamos, é toda deles.



AXIOMA Dizia-se, anteriormente, que o Banestado estava em ‘‘bom estado’’. Era um trocadilho que traduzia uma realidade, que emergia dos seus balanços, pelo menos. Se se processar uma devassa no estabelecimento, o que o Banco Central não deseja porque o seu objetivo maior é acabar com os bancos estaduais, e isso a qualquer custo, veremos que se cultuou, o tempo todo, uma ficção. Hoje ele saiu da ficção para a fissão nuclear. E era o melhor banco estadual. É objetivamente um feito do governo atual, ainda que este alegue a herança.
GLOSA Deste governo, o do Paraná, é impossível prever o futuro porque não se pode conhecer o seu passado próximo.
EPIGRAMA Rubinho Ferreira, do diretório curitibano do PFL, tem uma tese para a qual já conta com sete assinaturas: o candidato a prefeito deve assinar um documento se comprometendo a cumprir os quatro anos de mandato. É casca de banana para o Cassio Taniguchi e o grupo de Lerner.
MÍNIMO Dizem ter havido uma guerra mundial no interior do governo por causa do salário mínimo: a direita queria dar quatro reais e os radicais da esquerda, nada menos que sete. Este quase emplacou porque, além de tudo, é cabalístico. Afinal sete eram as pragas do Egito, as colinas de Roma e os pecados capitais. E sete anos Jacó serviu a Labão, como um bóia-fria, para levar a Raquel.
Sobre o mínimo, em torno do qual o varguismo e o populismo faziam festas em cima do 1º de Maio, há uma piada do Arapuã, no governo Juscelino: ‘‘O patrão acha muito, o trabalhador acha pouco e o presidente acha graça’’.
FOLCLORE O escultor e professor de desenho Osvaldo Lopes veio da Europa, muito feliz com a última novidade em aparelho de audição. Encontrou o José Nociti na esquina da Travessa Oliveira Belo com a rua XV e contou-lhe, bem emocionado, o que estava acontecendo. Perverso como ninguém, o Zé ouvia o professor e movia os lábios sem emitir som. O escultor apurou o aparelho porque não estava ouvindo e nesse preciso momento um carro buzinou na esquina, o que quase levou o mestre para o espaço.
CROMO Para o médico a verruga na mão de alguém pode ocultar o tumor maligno e para o poeta tudo não passa de alguém que apontou estrelas.
AFORÍSTICO A democracia com Requião é uma contradição em termos: haja vista para o monopólio com que se vale dos programas eleitorais na televisão.

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