Luiz Geraldo Mazza




O pote e o arco-íris
Na extremidade do arco-íris no horizonte impreciso há um pote de ouro. A turma do Lerner achou o miraculoso tesouro. É a única explicação sensata para os compromissos que o governo vai assumindo e não cumprindo, como se vê na lista de credores, alguns com mais de sete meses de atraso, que tentam, sem conseguí-lo, levar pelo menos alguma prestação. Com tudo isso há promessa de acrobacias como a dos Jogos do Mercosul, uma variante da megamolecagem, da qual jamais prestou contas, dos Jogos da Natureza; assanha-se também a gestão para receber mais fábricas de automóveis, o que implica em nova renúncia fiscal e envolvimento acionário na organização, isso sem falar em cessão de áreas e mais subsídios.
Joga-se em tudo contra o futuro: na arrecadação que está para vir, assim que terminar o período de isenções, e naquilo que se pretende arrancar com a privatização da Copel e do Banestado. Neste caso, o ingresso de dinheiro será mínimo, ficando perto de meio bilhão, cifra que Jaime Lerner queimou até agora com propaganda e sem dar bola pra ninguém.
Fazer negócios intensamente, embora a visualização do dinheiro seja pequena, é a marca do atual momento político-administrativo. Como o Tribunal de Contas não é o Mister ‘‘M’’ para decodificar a prestidigitação, somos obrigados a aceitar que tudo está nos conformes. Assim, à pergunta do tipo ‘‘onde foi parar o dinheiro’’ há outra, bem mais consentânea com a realidade, inquirindo de que cofre vem a dinheirama que permite dar recursos generosos a multinacionais e manter tantos interesses acesos quando se alega tanta escassez.
Esses faiscadores do arco-íris são geniais mesmo ou apenas sacam contra o futuro? Roberto Requião já os chamou de ‘‘exterminadores’’ do futuro quando eles se apresentam como ‘‘construtores’’. Mas também escondem o que gastam: a dinheirama da propaganda (R$ 500 milhões), os desvios do Banestado (eles lembram uma espécie de canal que nada tem com o extravasor, cheio igualmente de sortilégios), as prodigalidades dos Jogos da Natureza.


FILIGRANA
O governador foi vacinar vaquinhas contra a aftosa. E as ‘‘vaquinhas de presépio’’ do Legislativo dispensam medicação, já que o caso é incurável



BIZARRICE Todo o mundo espantado com o fato de Chico Lopes no BC fazer contrato com sua própria firma na condição de prestadora de serviço. Pelo jeito copiou do Paraná. Aqui a coisa vai mais longe: Taniguchi, quando presidiu tanto o IPPUC quanto a URBS, adjudicou concorrências em favor de sua empresa, a Executive. Esse é apenas um exemplo singelo e há mais.
E se ficar provado que a perda de dinheiro do Banestado, no caso dos títulos estaduais, foi programada, como é que fica?
AXIOMAVários médicos ligaram para o colunista Fábio Campana corrigindo sua informação sobre a obstrução das quatro coronarianas de Aníbal Khury quando só há três. Repique: erro de imprensa dá para reparar, o erro médico, não. Como Aníbal detonou o princípio tripartite de Montesquieu, aquele dos poderes e sobre os quais transborda, nada demais em imaginá-lo como fenômeno anatômico. Por exemplo, o Buda padece da vista com descolamento de retina, mas parece ser dotado até mesmo de retrovisão. Em política, pelo menos.
GLOSAUma pesquisa na Rádio CBN, ontem, mostrou que a maioria das pessoas está a favor do governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, na disputa com a Ford. Uma forma de expressar descontentamento contra Lerner. Pode até haver equívoco ou má informação, percebendo-se, no entanto, que transferem toda culpa da crise a Jaime Lerner.
MEMÓRIAFernando Pessoa Ferreira acaba de lançar, pela Record, em São Paulo o livro de contos ‘‘O umbigo do anjo’’. Quando Fernando morava por aqui aprontou várias como jornalista, diretor do Teatro Guaíra e escritor. No jornalismo, era de uma irreverência extrema como quando a cidade estava em pânico (claro que era sensacionalismo da mídia) por causa de um lobisomem do Tarumã. ‘‘Se é baixo e peludo, só pode ser o João Ribeiro Júnior’’, (secretário da Fazenda e ligado aos donos do jornais). No texto ‘‘Curitiba, a fria’’, da série ‘‘Livro da Cabeceira do Homem’’, ele disse que etimologicamente ‘‘ritiba’’ significa ‘‘do mundo’’. Fernando ganhou prêmio nacional, ‘‘Fábio Prado’’, de poesia quando morava no Paraná. Chamava-se ‘‘Os Instrumentos do Tempo’’.
VINHETAO tom monocórdio de Requião no programa do PMDB não é bem assimilado pelo público: muita gente se lembra do Enéas, candidato presidencial, depois que pregou o uso da bomba atômica. Acelerou a voz e dá um Enéas sem barba e com abundante cabeleira.
SPRAYMuita mistificação nessa história da Paranaprevidência: não há recursos de capitalização (Lerner e Follador falam em R$ 3,5 bi e a União admite R$ 1 bi da indenização por causa da adequação do regime único do funcionalismo) e o triunfalismo nos meios de comunicação persiste. - Na entrevista de ontem Lerner esbanjava otimismo. Todavia, sem capital não há como o sistema operar. Não pode também depender da venda da Copel, no momento suspensa. - Enquanto isso estão sendo fechados, a toque de caixa, os serviços do IPE com a relocação de servidores em áreas em que não há o que fazer como a Assembléia Legislativa. - O PT, por sua direção, condenou a maroteira dos deputados que desejam dobrar verbas de gabinete, mas seus parlamentarem parecem assanhados com a idéia, tanto que não ‘‘chiaram’’. Só o federal Doutor Rosinha escrachou a medida.
PLEBISCITOQuem vai aparecer historicamente como o autor da ‘‘quebra’’ do Banestado? O governo atual junto com os anteriores? O Banespa foi para o espaço e até hoje ficam as trocas de acusações: supõe-se que Quércia e Fleury foram os agentes principais. Se prevalecer o mesmo critério, a culpa recai no time que ainda permanece em campo.
FOLCLOREOrlando Pessuti, segundo consta, foi o primeiro a ter um terminal de computador da Celepar em seu gabinete. Como é do PMDB, a ciumeira sugeriu que o governo pretende cooptá-lo ou, o que é pior, uma sugestão de que estaria com-puta-dor-de-cabeça, como se dá com toda a oposição imobilizada.
CROMOQuem viveu no interior e sabe o que é o clima de uma despedida na estação ferroviária pode imaginar o que passa pelo coração da gente, aqui do jornal, com a saída da Marta Feldens. Sua passagem, sabidamente provisória, nós sempre a prolongamos no imaginário como se nunca fosse acontecer.
AFORÍSTICONão faça isso, que é cruel demais: não grite ‘‘ladrão’’ perto de uma roda de políticos. Dia chegará, logo, em que chamar alguém de político será uma agressão insuportável.

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