Como Hamlet, o esqueleto de Yurik à mão, embora com um corpo mais adequado ao de Macbeth (penso no primeiro caso em Lawrence Olivier e no segundo em Orson Welles), Lerner declama, pendular (Gerald Thomas o imaginaria no trapézio a girar pelo espaço), o ‘‘ser ou não ser’’ de William Shakespeare. Como não se ajusta bem, no rigor do uniforme, ao PDT ou aos PSDB e PFL que desejam seduzi-lo, permanecerá repetindo o monólogo à exaustão.
‘‘O ser e não ser’’ trata de algo mais profundo do que a dúvida comum, a que pode assaltar a qualquer mortal. Ela é rebuscada, metafísica e psicanalítica, conforme a versão de intérprete (Olivier ou Vitório Gasmann), é ontológica porque se liga também a essências, ao ser. Não sei se foi Mário de Andrade, cultor da antropologia e da etnologia, quem disse que o índio brasileiro não tinha filosofia porque não conjugava o verbo ser.
Lerner está longe de enfrentar a rede de realidades e fantasias que atingiam o atormentado príncipe de Elsinor, com problemas de traições familiares, que guardam similaridade com as da política e intrigas do reino, mas seu estilo, lento demais para as decisões, parece alongar a novela. Íntimos do sistema de governo asseguram que menos de um mês atrás num encontro no Hotel Rayon, num domingo, Lerner teria confidenciado aos íntimos que deixaria o PDT.
Várias vezes, diante das especulações, o governador afirmou que permaneceria no partido que afinal teria consolidado a sua carreira política. Com o ‘‘sim’’ e o ‘‘não’’, não sabendo se entra ou se sai, os momentos da Semana Santa são os derradeiros para prolongar a avaliação interminável de Lerner, enquanto os tucanos da praça, na verdade destituídos de poder de veto, mas tentando de todas as formas preservar seus espaços e ainda por cima nutridos de ressentimento, buscam se valorizar em suas ações de resistência, pois sabem que a hierarquia brasileira é vertical e as ordens de cima, quanto mais majestáticas, devem ser cumpridas. Ainda mais quando a vassalagem é a regra.
Os tucanos regionais, sem a expressão de Lerner, ao menos sabem o que querem e de forma clara. Não é o caso do governador, confuso e hesitante.
BIZARRICE Definição do Judas deste ano para a ‘‘malhação’’ de amanhã feita pelo Elísio Marques, advogado e anarquista: ‘‘O boneco a ser malhado, nesse ano, tem cara de Pitta, tronco de Fernandel e pernas de Maluf. O fraque é indispensável, porque ‘‘noblesse oblige’’. Haja malho!’’
SPRAY Paraná Investimento, de repente, encolheu, conforme decisão de sua sétima (êta número cabalístico!) assembléia: seu capital cai de R$ 106 milhões para R$ 6 milhões e 637 mil. - PT saiu-se mal quando o senador Suplicy quis dar uma de detetive no caso da localização da mulher do economista nos States que acertava os chunchos do orçamento e outra quando Bisol, vice de Lula, um dos acusadores de Collor, foi flagrado em privilégio. Pois agora a situação pode chegar no Paraná com a troca de chumbo entre Jannani e Cheida. Algo menos constrangedor do que o caso do Vacarezza, todavia chato para quem se apega no moralismo. - Aliás, o PT começa a ficar cada vez mais pragmático, tanto que desistiu daquelas batalhas em cima de verbas generosas para os deputados e não opôs resistência ao aumento de R$ 7.500 nos gabinetes para R$ 15 mil. - Jornal do vereador Tadeu Veneri, do PT, diz uma coisa interessante e suspeita: a prefeitura paga R$ 6 por marmita servida nas unidades de saúde 24 horas, quando qualquer restaurante fornece a mesma ração pela metade do preço. - Viúva do ‘‘Teixeirinha’’, líder sem terra, morto na tragédia de Campo Bonito, no Oeste, tem tudo para ganhar uma ação indenizatória contra o governo não apenas em matéria pericial como em testemunhos. - Contenda está sob impacto recessivo em cima da inadimplência. Isso é visível na entrada e saída da cidade na estrada do xisto no alertamento de que está proibido o comércio ambulante no município. Resultou claramente da reação do comércio sem grana e que ainda tinha o dissabor de enfrentar a concorrência. A mobilização de produtores rurais, maiores vítimas do calote, vai transformar a cidade no início de abril num agito sério que deve sensibilizar também o governo. - Anuncia-se greve para 2 de abril da Polícia Civil: o risco é repetir-se o que aconteceu numa paradade delegados, quando a violência diminuiu de forma considerável. A bronca é contra o arrocho, o chio comum. -
FOLCLORE 1 O líder do movimento em Contenda é secretário da Agricultura e tem o nome de Pinto Pius. O que pretende é muito mais do que um pio com o fechamento do comércio da cidade e concentração de máquinas agrícolas dos batateiros.
FOLCLORE 2 Essa tem tudo de imaginária e realismo fantástico. Toca o telefone celular do Assad Jannani. Segue-se um diálogo maluco. ‘‘Quem é?’’ pergunta o estranho. Jannani responde: ‘‘Se você ligou pra mim, cabe a você se identificar logo’’. Passada a cena ‘‘non sense’’ há o esclarecimento de que é alguém do Senado e da CPI dos títulos. Jannani diz que está disposto a dar depoimento até porque ajudou a eleger Requião, o seu relator.
CROMO Há sempre um amanhã de ressurreição: o martírio de um por todos redime o homem e o santifica.
AFORÍSTICO Jocelito Canto, prefeito de Ponta Grossa, derrubou o secretariado e devolveu pelo menos três vereadores, que ocupavam postos, à Câmara Municipal. É exatamente o contrário de Lerner em matéria de velocidade. Raciocínio não precisa necessariamente ser lento, mas pressa demais é incompatível com ele.

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