Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Degradação parlamentar
Não bastasse o que está acontecendo nacionalmente em desfavor da chamada classe política, o que se percebe na apatia do público e no seu ceticismo, os nossos deputados continuam aprontando. Como as tetas da vaca pública estão secas, exercem a sua imaginação criadora para levar algum de qualquer modo e decalcando critérios de outros legislativos quanto às chamadas verbas de gabinete.
Hoje está uma verdadeira moleza fazer acrobacias do gênero, como a de aumentar esses pingentes (ou seriam badalhacos?) remuneratórios, pois a Assembléia perdeu o único vigia sistemático dessa área, o doutor Rosinha. Fica, portanto, mais fácil ante o pragmatismo da maioria, pular de R$ 15 mil (verbas de gabinete) para R$ 18 mil ou até R$ 28 mil. Dizem que Aníbal Khury não concorda, mas aí está um caso em que não surpreenderá de ele ser um voto vencido quando isso raramente acontece no interior da corporação.
Para tentar justificar a mexida há mil argumentos, todos falaciosos. Como a mídia, cumprindo o seu papel, dá a notícia, os deputados se alvoroçam e se mostram irritados. Sempre tiveram horror das manobras do Rosinha em relação a mordomias, disponibilidade de automóveis (nessa chegaram a desejar um Passat de mais de R$ 70 mil para esses generosos e austeros senhores).
Ninguém dá contribuições tão sistemáticas para a fujimorização do País do que a classe política. Ela é que incuba o ovo da serpente do autoritarismo, a saída perniciosa imaginada pelos desencantados com as fragilidades do regime democrático e dos seus predadores essenciais.
AXIOMA
Capa da Paraná em Páginas de maio mostra Lerner no foco da epidemia no litoral e o título gritante, bem ao estilo do Cândido Chagas: Cólera em Paranaguá é a transformação que Lerner faz (e mostra) e a gente vê!
BIZARRICE O release, quanto mais bem feito, mais nefasto é. Dá para percebê-lo no governo Lerner, que melhorou consideravelmente o padrão técnico e formal das informações e, por isso, as tornou mais deletérias porque são, como sempre, viciosamente promocionais e engajadas. Aquele informe no sentido de que não houve mortes pela cólera em Paranaguá é desonestíssimo, como palerma é a descoberta tardia dos remédios vencidos depositados na Capital, fato que não conseguiram ocultar como desejavam.
GLOSA Aos poucos vamos assistindo as nossas instituições - agora Copel e o Sercomtel, duas empresas-orgulho - se deixando envolver nas malhas pegajosas do mercado financeiro e com o famoso FonteCindam. Ou melhor, Fonte se danem.
FILIGRANA A maneira como a polícia age relativamente aos desmanches de carros lembra, e muito, aqueles flagrantes manjados de cambistas do jogo-do-bicho para fingir que existia repressão. Donos de desmanches andam muito fortes, até politicamente. Aliás, não custa lembrar que quando não tínhamos tantos investidores em campanha eleitoral os bicheiros eram contribuintes.
Diante de situações como essa é que se vê a impossibilidade de a polícia do Paraná adotar a tolerância zero, pois aqui se aceita tudo, desde a invasão de terra como a de uma delegacia por encapuzados (da segurança, conforme o delegado corregedor) que matam o acusado com a máxima tranquilidade, e tudo fica por isso mesmo.
Um adendo: até hoje a emboscada contra o secretário da Segurança, em sua casa, no Jardim Social, não foi esclarecida. Este governo se julga acima do bem e do mal e não dá explicações porque a sociedade é conformista e tudo aceita.
SPRAY Giovani Gionédis, secretário da Fazenda, ao contrário do que tem dito, não solicitou formalmente o seu afastamento dos quadros da OAB-PR. Discute-se ainda, no interior da instituição, se ele poderia advogar, mesmo que por intermédio de procuradores e sócios, contra o Estado, um dos maiores alvos do escritório.- Lerner não entra nessas bolas divididas e às vezes toma atitude contrária ao que se espera, como se deu com o caso específico da Leasing, quando, sabendo das irregularidades praticadas, promoveu o titular da área a secretário em área também explosiva e cheia de irregularidades.- O PT quer levar para a CPI dos Bancos no Senado as ocorrências do Banestado, especialmente as da Leasing e Corretora, envolvidíssima em operações ruinosas com títulos podres de Estados e municípios.- Há uma corrente que afirma ter o dirigente da Leasing agido emn função de ordens superiores, algumas do próprio Lerner, como as referidas aos empréstimos ao ex-governador de Sergipe, João Alves, e ao genro dele, cuja organização não tinha cadastro.- O médico Kit Abdala, de Francisco Beltrão, faz um show em que imita Frank Sinatra, hoje, em Goiás em benefício do Hospital do Câncer de Goiânia. E de 4 a 8 de maio participa, em Salvador, do Congresso Mundial de Reprodução Humana.- Helena Kolody, a poesia, recebe hoje na Câmara Municipal o título de Vulto Emérito. Por falar nisso, certa ocasião o mestre Rosário Farani Mansur Guérios, linguista, ao receber o título de emérito na Universidade Federal, tirou sarro da origem filológico-semântica da palavra insinuando que significaria imérito, logo sem mérito, o que provocou alguns constrangimentos e boas gargalhadas.- Vem mais maroteira por aí: Jogos do Mercosul. O Paraná não tinha dinheiro pra nada e pelo jeito esse pessoal descobriu aquele pote de ouro na ponta do arco-íris, como se deu com as prodigalidades acintosas dos Jogos da Natureza. No governo Lerner é possível: ao contrário do rei Midas, transforma ouro em coisa.- Sidney Santos Silva, ex-presidente da UPES, me corrige: a própria entidade foi quem recuperou a sede do Juvevê e a Prefeitura fez a calçada.
FOLCLORE Segundo denúncia nacional (JB de domingo), o tal espermecida, que sobrava nos depósitos da secretaria de Saúde do Paraná, tinha o custo de R$ 0,31 a unidade, mas o governo pagou R$ 6,05. Como se vê, espermicida, de um lado evita a fecundação, e de outro é altamente fecundo. Na área do governo, local ou nacional, é possível milagre superior ao da multiplicação dos peixes, do pão e do vinho como rotina. Jesus, aquele que andava sobre as águas, é fichinha.
CROMO Almofadas de veludo// o céu parece// as estrelas, alfinetes prateados// É o rebuscamento da música popular brasileira.
AFORÍSTICO Antes, em certos governos, dizia-se que estava para estourar o negócio do ano, e agora há o negócio do dia e logo chegamos ao negócio da hora.
A propósito, quais foram os negócios das últimas 24 horas? O de um minuto atrás você só vai saber daqui uns três anos.





