Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Paraná, a exceção
O Paraná vive num paraíso, o Paranaíso. Só que no Sul é, a despeito do oba-oba oficial em torno do novo perfil da economia e dos US$ 16 bi (quem contou, quem analisou isso com um mínimo de rigor?) investidos, a unidade que mais perdeu espaços no mercado de trabalho com um déficit de 35.600 vagas. A cada chute, como esse e outros relativos à qualidade de vida, que a cólera em Paranaguá desmascarou, segue a resposta. Tal qual se deu com o documentário triunfalista sobre Salto Caxias, em que embutiram uma reforma agrária de gravura de calendário, bem mais rebuscada que a das Vilas Rurais, respondido na rua com a greve de fome dos empresários que tiveram suas atividades em declínio ou extinção por causa do represamento do Rio Iguaçu.
Num momento em que o País se reavalia, sob o ponto de vista moral com os escândalos do Banco Central e do Judiciário, dá impressão que nada disso se dá por aqui. Tanto que, apesar dos esforços do senador Requião para colocar o Paraná no contexto das duas CPIs, não se vê maiores indagações e muito menos explicações para a roubalheira do Banestado, que não é apenas deste governo, ou as acusações de abusos como a gastança delinquente em propaganda, o balanço dos Jogos Mundiais da Natureza, o lado sacana da história do pedágio, o aberto sistema de advocacia administrativa desencadeado em vários fronts.
Só o conflito faz emergir as denúncias. Assim se deu com Pedro Collor contra o irmão presidente Fernando, o ex-genro contra o ex-sogro no problema do juiz presidente do TRT de São Paulo e o custo da sede do Tribunal inacabada, Mário Pereira contra Requião (o vice contra o titular na hora em que assumiu) na questão das diárias frias que tramitou na primeira instância. As amarras de solidariedade interna do governo Lerner são mais fortes do que a notória cumplicidade dos meios de comunicação que, por tradição, em maioria, fecham os olhos para pecadilhos ou lesões graves ao patrimônio.
Ninguém questiona, por exemplo, o fato de a queda de arrecadação no Paraná ser maior do que em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, apesar de botarmos banca diante dos investimentos recebidos. A dinâmica desses dois Estados, pela tal estatística de emprego-desemprego, conforme o estudo do DIEESE, é bem superior à do Paraná e naquilo que realmente interessa: o trabalho, os níveis de ocupação, a apropriação humana desse jorro de capital, tão badalado pelo governo e os seus corifeus.
AFORÍSTICO
Quando se diz que um político tem um grande coração, a afirmativa pode ser maliciosa e sugira que o referido padece da Doença de Chagas. A ação política é ambivalente e às vezes no aparente gesto de bondade há maldade
BIZARRICECássio Taniguchi vai ao Japão, e segundo o Rubinho Ferreira coloca predominantemente descendentes nipônicos na comitiva. Ele pergunta se isso não é um forma de discriminação étnica e pede polacos e negros para expressar, num momento de intolerância racial, como se observa na Iugoslávia, a integração que é praticada aqui como rotina.
AXIOMAPode-se não concordar com o estilo do governador Olívio Dutra, do Rio Grande do Sul, mas a entrevista da Veja é de extrema e impiedosa má vontade ao ponto de haver até uma pergunta sobre relação homossexual que teria com um padre, revelada ao jornal alternativo Tchê em 1981.
GLOSAO Paraná, em 97, estava em posição melhor do que Santa Catarina e Rio Grande do Sul: teve saldo positivo de 7.465 empregos contra 3.300 criados dos catarinenses e 11.400 postos fechados para os gaúchos. Em janeiro de 99, o Paraná perdeu 6.300 postos enquanto Santa Catarina criou 4.800 e o Rio Grande do Sul mais 4.700 vagas. E o governador ainda faz onda orquestrado por todo o time de que tudo vai bem hoje e o ano que vem. Rima e não é verdade. Mais, portanto, um rima do que uma solução como na velha sentença literária.
Como se vê da realidade não dá para fugir. O governo alegava que o Dieese ampliava, com sua metodologia, os níveis de desemprego na Grande Curitiba. E agora esse levantamento, que é de todo o Estado, confirma a queda.
Para criar a aparência de que tudo está bem apela-se de novo para a propaganda e argumenta-se que a economia alternativa aproveita os descartados.
FILIGRANAPaulo Cordeiro, ex deputado, diretor da Inepar, defensor entusiástico da privatização, deixou o seu jeep Cherokee no estacionamento do Aeroporto, o Autopark, empreendimento privado que explora e serviço, e encontrou o veículo seriamente danificado por artes dos manobristas. O Cordeiro virou um leão e, inconformado, está brigando com toda razão.
SPRAYLimites à transpartência são permanentes: ontem, na CPI do Senado, Chico Lopes acabou preso por seguir a orientação dos seus advogados. Também ontem, num caso mais ameno, o governador se recusou a detalhar o papo havido com o PFL em Palácio junto à imprensa. - Deputados foram lá para pedir, como sempre, e acabaram ouvindo pedidos do governador para que se tire mais recursos no caso específico da Lei Kandir. - Paraná teve o pior incremento do Sul na parte tributária, embora tenha características muito semelhantes às unidades que se saíram com melhor desempenho. O sistema é ruim ou o gerenciamento? As batidas para evitar sonegação como as havidas à semana passada dão bem a idéia de como se pretende reagir. Inútil. Se a fiscalização monitorar com eficiência os 200 maiores contribuintes, obtém-se mais resultados do que com as blitz, que são necessárias sem se constituir no remédio único. - Paraná é o 9º Estado no ranking da queda de emprego no ano passado: aparece com menos 2,68%. Sampa caiu 4,09% e é absoluto 1º lugar; Minas com menos 3,99% é o 2º. Os serviços industriais de utilidade pública no Paraná tiveram oscilação negativa de 7,9% e em seguida aparecem os setores extrativo mineral e agricultura com menos 4,79% mais a construção civil com menos 4,78%.
FOLCLORECom a prisão do ex-presidente do Banco Central, Francisco Lopes, que seguramente será temporária, percebe-se, uma vez mais, o lado do espetáculo nas CPIs e que geram expectativas na população depois diluídas na sequência dos acontecimentos. A CPI mostrou, de qualquer forma, que prende bem mais do que a atenção dos telespectadores da TV Senado.
CROMOComo buscar a annalogia da Anna Camanducaia, delicada repórter, com a graça de um camafeu que nos deixou? Esse entra e sai das redações é marca de nossos dias. Elas saem, e a ternura, como um perfume, permanece.





