Luiz Geraldo Mazza
As trapalhadas no governo Lerner são inesgotáveis: quando não é o chefe-mór quem dá a mancada aparece um dos seus secretários e até, por vezes, um aspone. Primeira bobeira do governador, quando percebeu a intenção de Requião envolver, a qualquer custo, a atual gestão na CPI dos precatórios, foi vir a público se valendo de uma ameaça: a de tocar o caso das diárias frias, que aliás seria do seu dever clarear o assunto e não empatá-lo, como se fez. Ora, uma coisa nada tem a ver com outra: se o Banestado não merecer enquadramento no caso não será a vontade pessoal de Requião quem o decidirá. De outro lado, se as acusações da manipulação com diárias frias são sérias, o governo não poderia tergiversar, anunciando providências como se buscasse, com isso, neutralizar o relator da CPI.
Agora, para levar o cenário à sublimidade em termos sonsos, o secretário Giovani Gionédis, da Casa Civil, em cuja área se deram os acontecimentos na bem aparelhada Subchefia de Assuntos Especiais, promete um parecer oficial sobre o assunto, logo depois dos feriados. É tonteira para ninguém botar defeito. Compensação de culpas não salva a cara de ninguém.
A sindicância e o processo administrativo, que se incumbiram do assunto, logo no início da gestão Mário Pereira, tiveram andamento tumultuário no fim porque o procurador de justiça aposentado, Ronaldo Botelho, chefe da Casa Civil, apontou, com base em parecer de um mestre em Direito Administrativo, Romeu Bacelar, uma série de nulidades nos procedimentos, entre as quais o fato de haverem sido enquadrados militares quando contam com instância própria e a circunstância de os sumariantes não se limitarem a informações, absolvendo e enquadrando.
As peças informativas obtidas no trabalho de Suez Nogueira são, no entanto, valiosíssimas como acentuou a última comissão, já no governo Lerner, composta por delegados de polícia e presidida por Aníbal Bassan. Essa comissão em seu parecer conclusivo decidiu anular os indiciamentos anteriormente feitos e sobrestar o processo e encaminhá-lo ao Ministério Público estadual, com cópia à Procuradoria da República em vista do envolvimento do ex-governador e atual senador Roberto Requião. A comissão acusou de indevida a interferência do Chefe da Casa Civil, Ronaldo Antonio Botelho.
Pelo volume de conflitos dá para imaginar que a despeito da seriedade das denúncias não vai ser fácil, mesmo com os feriados da Semana Santa, sanear um processo com mais de 7 mil páginas e fazer o enquadramento dos culpados para que devolvam ao erário o que foi desviado. Detalhe: o parecer foi entregue em maio do ano passado e quem fez a cera foi o governo, reticente por método e ligeiro apenas quando tem vontade, o que é raro, mas acontece.
BIZARRICE - A paranóia de 64 criava situações malucas na Boca Maldita. Aparecia por lá uma cara nova e já se pensava que fosse alguém do SNI, DOI-CODI, Dops, Cenimar e outras menos votadas como o Comando de Caça aos Comunistas. Não raro se tratava de algum solitário, tal qual personagem de Antonioni, desesperado para comunicar-se. Pois nesse clima pinta um vendedor de livros e muamba, que se dava muito com sua clientela de esquerda, e oferece, nada mais nada menos, do que aquele manual idiota de guerrilhas do Regis Debray. Alertado de que estava falando alto demais, o basbaque retrucou Está frouxando o garrão, cara?, não percebendo que o lugar era impróprio por ser aberto demais. Aí o provocado não suportou o embotamento do vendedor e passou a perguntar, em voz alta, o que ele tinha do Mao-Tse-Tung, de Guevara, de Camilo Cienfuegos. E ia citando os anarquistas e utopistas de todos os tempos, enquanto corria atrás do vendedor atarantado, ele sim frouxando o garrão como nunca. Uma cena, como diria o Fábio Campana, digna do Mário Monicelli.
SPRAY - Intenção do chefe da Casa Civil, Gionédis, de dar solução ao processo das diárias frias logo depois da Semana Santa contempla a hipótese de obrigar os bagrinhos a devolverem a grana que desviaram. - À época peemedebistas que usavam a mesma tática para ajudar Requião, colocando dizeres em muros de que eram ladrões e trambiqueiros, denunciavam o ex-líder por desvios que apontavam como próximos de R$ 1 bilhão. Há ainda alguns desses grafitos na cidade. - Tauílio Tezelli, prefeito de Campo Mourão, discorda do antecessor, Rubens Bueno, e defende o ingresso de Lerner no PSDB. Se isso acontecer, obviamente Lerner exigirá o controle do partido, e a incumbência de tocar a agremiação, agora por alguém afinado com o presidente FHC e os cardeais e mais do que isso com a doutrina, ficaria por conta de Euclides Scalco que voltaria para mandar, desejo também da cúpula nacional. - A esposa do empresário Osvaldo Rufka, funcionária pública, foi ao Banestado pedir que cortassem o seguro que vinha pagando e o gerente retrucou dizendo que lhe retiraria o limite do supercheque, o que acabou fazendo. Só falta alegar que esse negócio está no capítulo das reciprocidades
FOLCLORE - Renê de Vilmont, a atriz global, fez ontem belíssima e didática matéria sobre Monet. Só falta agora um sindicalista idiota sugerir que ela infringe a lei do exercício profissional. Outro dia vetaram César Maia no jornal O Dia como se teólogos como Frei Beto, empresários como Ermírio de Moraes, engenheiros como Luis Carlos Tourinho ou políticos como José Genoíno não aparecessem frequentemente nas colunas como colaboradores.





