Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
O feijão e o sonho
Fomos bombardeados, nos três últimos anos, pela campanha massiva de Lerner sobre o novo perfil da economia paranaense. O assunto virou fundamentalismo no interior do governo e isso é perceptível no engajamento do Ipardes, que exalta os feitos sem um mínimo de enfoque crítico, uma espécie de crê ou morre. A realidade, no entanto, teima em contestar essa euforia e esse triunfalismo. E isso é visível na mancha imensa de desemprego, que costumo chamar de endêmico porque crônico, da Grande Curitiba.
Nem o ativismo proporcionado pelas colheitas e especialmente a movimentação das safras são suficientes para recriar o clima desejado pelo sistema. Mesmo a excepcional movimentação das cargas no Porto de Paranaguá, que geram a saturação rotineira, é suficiente para devolver confiança. Como não temos mais pesquisas sobre emprego e desemprego, ainda que o Ipardes tenha prometido restabelecê-las com apoio e metodologia do IBGE, o que deve estar demorando por falta de recursos, temos que nos valer das informações de órgãos como a FIEP ou a Federação do Comércio, cujas referências em nada acodem o governo.
Recentemente, o Dieese, que fazia a pesquisa de emprego-desemprego em convênio com o governo, que foi rompido por um desencontro metodológico, baseado nos levantamentos do tipo RAIS (Relação Anual de Informações Sociais), mostrou que em 1998, entre emprego e desemprego, houve um saldo negativo de 35.600 trabalhadores no Paraná. Não é um número alarmante, para quem acompanha o drama de São Paulo, com 20% da força de trabalho fora do mercado, mas não deixa de constituir-se num dado alarmante, já que isso trata especificamente do chamado mercado formal.
A cada vez que se trata de um assunto desses, o governo tergiversa. Discute a questão da metodologia empregada, especialmente o dado da faixa etária, alegando que, por princípio, repudia o trabalho infantil (haja discurso), e vai fugindo ao confronto entre a realidade e os seus desejos, transformados pela propaganda manipuladora em doutrina. Consulte-se uma publicação como a Análise Conjuntural do Ipardes e ver-se-á um céu de brigadeiro em ensaios muito bem encadeados, mas que isolam informações em primados como este: Apesar das restrições conjunturais, o Paraná construiu, ao longo dos últimos quatro anos, alguns mecanismos de resistências às instabilidades macroeconômicas.
Boa parte dos projetos industriais não teve a maturação programada em virtude da recessão. A questão da infra-estrutura está aí, estrangulada com o Anel de Integração amarrado na Justiça Federal por causa do corte radical de Lerner em cima do pedágio. Também o andamento das reformas (Previdência, Agência de Fomento, saneamento e privatização do Banestado, venda da Copel) não é de entusiasmar. Enfim, como tenho dito, sobra cítrico (laranja) e faltam críticos no interior do governo, que caminha, cada vez mais, para o fundamentalismo.
Por falar em feijão, a geada o detonou e o sonho acabou: sobraram coxinhas, risólis e pastéis.
BIZARRICE
Conta o vereador Paulo Salamuni que numa sessão da Câmara Municipal houve uma discussão sobre pastéis e frituras, que foi tratada com tal rigor que parecia exigir a presença de hermenêutas para apontar dissemelhanças entre uma coisa e outra
AXIOMA Governo não cumpre a lei. Sancionou a lei que obriga a exclusividade de uma frota a álcool e andou adquirindo 43 Renault Clio e seis Toyota a gasolina que ficaram parados num galpão.
Um texto constitucional diz o seguinte: Semestralmente, a administração direta, indireta e fundacional publicará, no Diário Oficial, relatório das despesas realizadas com a propaganda e publicidade dos atos, programas, obras, serviços e campanhas, especificando os nomes dos veículos publicitários.
Nem um dos governos até hoje cumpriu essa obrigação da Constituição estadual de 89. A desobediência constitucional é um hábito e ainda há juristas que falam que a CPI do Judiciário pode levar à desobediência civil.
GLOSA Nem só de pão vive o homem. De brioches também.
SPRAY O dossiê Lerner, que abrange os três períodos da Prefeitura e os quatro anos e três meses de governo estadual, está em elaboração. E não é obra do pessoal do Requião, mas da base aliada do governo federal. - Material das campanhas eleitorais, acusações de proteção a empresários como Salomão Soifer no Shopping Mueller e agora, mais recentemente, na vistoria eletrônica e aos executivos da Cidade Industrial, fazem parte do levantamento. - Episódios do Banestado (Leasing e Corretora) são detalhados e mais do que as famosas atas das reuniões de diretoria que o senador Roberto Requião mostrou na Internet. - Gráficos mostrando a vinculação do poder político ao empresarial que jamais teve tal grau de articulação na história paranaense. - Quando ouvem falar disso, os otimistas palacianos contraditam com o argumento de que se isso se dá na base aliada é porque temem a candidatura do governador à Presidência. Até o céu tem limite, áulico não. - Mesmo indo mal na conjuntura atual, não se pode subestimar os sedimentos da pregação ideológica de Curitiba, bem mais densa e intensa do que a estadual, não favorecida pelas circunstâncias, Lerner pode ser uma alternativa presidencial, desde que o seu segundo mandato mude de rumo e de forma radical, o que se espera com a injeção de recursos para sanear e privatizar o Banestado, o deslanche do Anel de Integração e a venda da Copel. - Se sair-se bem, o que não é fácil, mas igualmente não impossível, da questão fundiária e solucionando se não totalmente, pelo menos de forma parcial, o problema das desocupações de terras, marca pontos. - Há, portanto, equilíbrio entre fatores negativos, estes consumados, e os positivos, dependentes de eclosão. - Outra questão que pode projetar o governador, a da Previdência, e que também não é fácil, é algo tão paradigmático e forte como o que se disse dele, com exagero e mitificação, das suas soluções urbanas.
FOLCLORE Pode-se dizer de tudo do governo, menos que não tenha o sentimento de comiseração. Como se vê na isenção oferecida ao pagamento da Previdência aos que têm 70 anos, são inválidos e ganham menos de R$ 300. Ao saber disso, a dupla Sade-Masoch baixou em sessão espírita pedindo um psicanalista. Sentiam-se irremediavelmente desmoralizados e complexados.
CROMO Luciana, com sua face meridiana, diante dos peixes no aquário, é uma sereia que canta com o olhar, o sol de todas as manhãs.
AFORÍSTICO Aí o senador Requião, com a serenidade habitual, apelou pelo desarmamento dos espíritos: do vídeo ninguém duvida.





