Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Humanismo radical
O governo paranaense se credencia, ao lado dos prêmios que já recebeu por atendimento à infância e urbanização de organismos internacionais, a ganhar, também, laurel específico em prática de humanismo radical. Isso está, mais ou menos, exposto na doutrina previdenciária aprovada anteontem na Assembléia Legislativa. Para fugir à demagogia do assistencialismo e em nada contribuir para que medrassem por aqui resquícios do Estado-albergue, o governo buscou um máximo de racionalidade quando estabeleceu isenções do pagamento do Fundo de Previdência para aqueles que tenham mais de 70 anos, que sejam inválidos e recebam até R$ 300.
Essa busca de lucidez extrema, de rejeição à pieguice comum nos brasileiros, deve ser saudada como um tributo à racionalidade, exigência, aliás, ao curso da globalização que está aí diante de nós. O governo federal teve dificuldades notórias na tramitação da obrigatoriedade de os aposentados pagarem também o seu tributo à Previdência, ainda que escudados em princípio constitucional. É por isso que o governo Lerner vai se transformar num paradigma nesse campo previdenciário, no qual foi efetivamente um pioneiro.
A expectativa de vida no Paraná, conforme registros do IBGE, não chega aos 70 anos. Trata-se de um indicador em que no Brasil meridional perdemos de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Como o governo sabe que dentro de alguns anos chegaremos aos 70 e até aos 72 anos, dá para ajustar os cálculos atuariais e cuidar dos nossos idosos com essa providência saneadora. Para fazer jus à imunidade, o idoso deverá enquadrar-se rigorosamente nas exigências: estar com mais de 70 anos, ter algum tipo de invalidez e receber menos de R$ 300.
Se o nosso governador tivesse um olho de vidro como aquele oficial germânico do romance Kaput, de Curzio Malaparte, e perguntasse qual dos dois teria sido o alvo da prótese, tão perfeita, ouviria a resposta correta é aquele ali, e ao ser indagado por que chegara a essa conclusão, responderia: Porque é o mais humano!. Vai ser humanista na Casa do Chapéu. Do Chapéu Pensador.
FOLCLORE
Emílio de Menezes viaja com Eduardo Prado e este decide provocá-lo ao apontar uma casa de tolerância da Alice e diz: Ali se vive do amor. Emílio replica: E do ar do prado também
BIZARRICE Aníbal Khury, por mostrar-se disposto a mudar de partido, acabou recebendo, em termos de gozação, é claro, uma ficha do PC do B. É um problema mais de incompatibilidade física do que ideológica (isso não conta, vejam os nossos burgueses ingressando no PPS), já que os quadros do PC do B não cabem numa kombi e esta é microscópica para o Aníbal.
AXIOMA O governo quebrou o Estado e agora se prepara febrilmente para vender os seus ativos, do já desequilibrado Banestado à virtuosa Copel. Pensam em arrancar R$ 3,8 bilhões, o que é muito baixo. Se a Comgás de São Paulo, empresa incomparável, por suas dimensões, com a Copel, foi colocada em leilão por R$ 700 milhões e obteve mais de R$ 1 bi, dava para dobrar, no mínimo, o valor.
Para mostrar a saúde de vaca premiada da Copel, basta verificar que, a título de participação nos lucros, distribuiu entre seus diretores, técnicos e funcionários nada menos de R$ 18 milhões. Uma humilhação que transforma os demais servidores do Paraná em cidadãos de segunda classe que não recebem sequer o terço de férias.
O time que vai cuidar da venda é aquele de sempre: o pessoal ligado por via política e administrativa, a turma insubstituível, ainda que venham de empresas que quebraram ou, malsucedidas, foram obrigadas a passar para o domínio multinacional. Mais vale o currículo da aproximação do que qualquer outro fundamento.
GLOSA Quando rico deseja alguma coisa, o governo concede: o pessoal de Caiobá ia virar sem praia e o governador da época mandou fazer aquele aparato, inútil e horrendo, dos gabiões como obra de contenção. Cada ressaca e aquela infra-estrutura vai para o saco. Inclusive a imprudência da construção da Avenida Beira Mar por Álvaro Dias. Não está mais na beira, está no fundo.
EPIGRAMA Hoje e amanhã vão ser feitas sondagens na Vila Guarani, em Paranaguá, por causa dos efeitos das ressacas (atingiram mais de duas mil casas) para apurar se não houve alastramento de focos da cólera. A redução radical em casos novos não pode servir de descuido com o rigor da profilaxia e do cordão sanitário.
ANALOGIA Um dos argumentos cínicos que os aproveitadores do Banestado (aqueles que falcatruaram ou deixaram de pagar seus débitos) vão usar no andamento da operação saneamento é o de o caso do Banco Central é muito mais sério. Como se perder dinheiro, deliberadamente, com a compra de títulos podres, não fosse assunto sério. 20% dos empregados vão ter de aderir ao Programa de Demissões Voluntárias e nem 1% dos privilegiados, que meteram a mão, que não pagaram suas contas (porque não quiseram ou não puderam), que cometeram faltas, serão alcançados por qualquer forma de punição.
SPRAY Hermeneutas e exegetas (especialistas na interpretação de textos legais) se debruçam sobre a decisão do TR do Rio Grande do Sul no caso da Tuiuti: as aulas não estão suspensas até a decisão final e o vestiba é mantido. - Façamos uma hipótese aterradora: a justiça decide que os dois vestibas vão valer e daí a escola, que tinha autorização para 100 vagas e que abriu para mais 200, se vê obrigada a aceitar mais 200. Volta o fenômeno do excedente, comum nos anos 50. - Excesso de zelo do governo na proteção ao Palácio Iguaçu, em função do acampamento do MST, levou muita gente a bater com a cara na porta ao buscar a exposição do Tibet. - O senador Roberto Requião vai valer-se da CPI do Poder Judiciário para nela descarregar problemas do Paraná, não apenas decisões que considerou absurdas durante o seu governo, como fatos novos como um que colocou num discurso relativo à desapropriação de terras em Cambará. - A inexperiência política de magistrados é uma das fragilidades básicas da corporação num momento como esse. Assim também se deu, no Paraná, quando houve o atrito com o então governador Roberto Requião, o que levou a categoria a uma greve impopular e que apenas deu mais força ao Executivo, pois a magistratura não soube sequer, quando era atacada, exercer o direito de resposta.
CROMO Só um guarda-chuva aberto na noite: não era o de Gene Kelly, mas de um transeunte regado por uma nuvem passageira, exclusiva.
AFORÍSTICO Quando na cidade o MST dá idéia de imobilismo e não do ativismo que o caracteriza no campo. O pior é que no meio urbano não faz proselitismo.





