O presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, pode andar à vontade, sem o risco de ser espezinhado, num ponto assim como a Boca Maldita? Em Curitiba até que não é impossível, pois o presidente Figueiredo andou por aqui quando o regime estava em baixa e acabou sendo muito homenageado, embora um piadista da época argumentasse que por seu porte físico era confundido, e isso facilmente, com Anfrísio Siqueira, o ‘‘dono’’ do folclórico pedaço.
Isso vem a propósito do passeio de Jaime Lerner, sábado passado, no Calçadão. Embora não esteja com Ibope muito alto, o governador andou por ali à vontade e foi levado por frequentadores até a última novidade, estilo argentino, que é o Café Ritz, onde se faz a degustação sentado, batendo papo, lendo jornais. E ali se deixou ficar por cerca de meia hora, não falando em política, mas deixando clara a sua condenação (com o que concordo) à devassa no apartamento do ex-presidente do Banco Central, Francisco Lopes.
Não temos vocação para regicidas (os que matam o rei) e até corremos o risco por nosso estilo de homenagear chefes de Estado, às vezes com o exagero da província, de causar mal estar pelo excesso de afago, mas não deixa de ser ilustrativo o passeio do governador e numa fase, de certa forma negativa, de sua gestão açulada por dívidas impagáveis. Eu estava na roda e o governador teve uma queixa discreta às críticas que faço ao seu desempenho e à sua administração nos meios de comunicação (jornais e Rádio CBN) em que atuo. Se dá para extrair algum sentido desse encontro, o maior é o da tolerância recíproca: ele aguentando minhas críticas e eu, as ações e omissões do seu governo, pelo fato de nenhuma das partes se dispor a mudar de posição - um porque não quer e outro porque não pode.
GLOSA
Enquanto a blitz da Polícia fechava 200 bares na madrugada, 13 criminosos (culpa formada, condenados) se mandavam do xadrez da Furtos e Roubos. Uma no cravo, outra na ferradura
BIZARRICE Clubes têm uma predileção: passar para o governo aquilo que é de sua responsabilidade. A maior praça de Curitiba, a Redentor, na Vila Guaíra, virou o complexo esportivo do Paraná Clube (antes Estádio Orestes Thá, do Pinheiros) e a outra face, ocupada por um clube da terceira divisão, foi recuperada para logradouro (agora Munhoz da Rocha). O Atlético Paranaense fez a sua Arena e viu que não tem estacionamento, e já há um grupo, desses especializados em tirar o que for possível do governo, empenhado em valer-se da Praça Affonso Botelho, à frente, para aquele fim sob a modalidade subterrânea. O Coritiba também quer colher de chá do IPPUC para assentar as bases da ampliação de sua arquibancada na Rua Mauá. A Casa de Mãe Joana é alvo da cupidez insaciável. Por que será que essas coisas nunca beneficiam o interior?
AXIOMA Jogadores de futebol deveriam, domingo, no Maracanã, parar a partida e unidos (titulares, reservas, comissão técnica, árbitros e auxiliares) render homenagem ao público por sua criatividade e vibração. Seria um gesto de humildade dos tidos como ‘‘deuses’’ para os donos reais do espetáculo.
SPRAY Em Curitiba, tida como resistente a novidades (esse é um arquétipo que justifica a sua condição de praça de lançamentos em marketing), não foi testada a moda do ‘‘clube de mulheres’’. - Pelo ocorrido no Global Fashion Show, deu para perceber que emplacaria diante do entusiasmo do público, mormente o feminino. Aqui, certas resistências culturais fazem com que inovações cheguem tarde, como se deu, por exemplo, com o hábito do ‘‘clube dos desquitados’’, que, ao virar moda, caiu na vulgaridade e perdeu o encanto original do Café de Paris para diluir-se no Mouraria. - A política do Paraná está voltando a ganhar uma característica, que se supunha sepultada - o traço oligárquico, parenteral e intrafamiliar: os Requião (Roberto, senador, Maurício e Eduardo) e os Dias (Álvaro e Osmar, ambos senadores) são um exemplo forte e gravitam muito perto do poder. - O curioso, no caso dos Dias, é que isso se dê com oriundos do processo de pioneirismo cafeeiro que deveria implicar precisamente na ruptura com esse tipo de alinhamento. Os Requião, na verdade os Mello e Silva, derivam mais do processo urbano do que do rural da família Dias. Se as coisas caminharem nessa direção, teremos, em breve, como no Rio Grande do Norte, o caso da família Rosado, cujos integrantes tinham nomes como Dix-Huit e Dix-Neuf. - Polícias Civil e Militar testam, desde ontem, unificação de serviços com experiência-piloto no 1º Distrito. Objetivo é otimizar recursos sabidamente escassos, mas vai haver atrito: uns vão se achar patrulhados por outros, o que é, diante do que vem ocorrendo, altamente saudável. - Ligue-se isso à distritalização, desde que convenientemente desenvolvida, e o sistema vai melhorar. A concentração de poderes em especializadas não é conveniente e também o grau de qualificação dessas estruturas nem sempre justifica o alardeado domínio sobre o assunto. - A ameaça de fechamento do Centro Social de Itaperuçu (Monte Horebe), que atende 250 alunos de creche, pré-escola, fundamental, corte e costura, marcenaria, inglês e computação (primeira escola de informática para carentes no Paraná) está sensibilizando muita gente em Curitiba e há alguns advogados dispostos a prestar atendimento gratuito à entidade, ameaçada de fechamento por causa de uma disputa da titularidade do terreno em que está localizada. - Processo em Santa Catarina contra o ex-governador Paulo Affonso por causa da negociação com precatórios vai ter desdobramentos no Paraná. Na conexão, boa parte das artimanhas do Banestado (Leasing e Corretora) e de agentes que operavam lá e aqui. Tentativa de ocultar, botar a craca pra baixo do tapete, ‘‘dança’’.
FILIGRANA ‘‘A coroa do rei// não é de ouro// nem de prata// Eu também já usei// e sei que ela é de lata.’ A metáfora carnavalesca deveria servir para a faixa presidencial ou governamental. É inútil alertá-los: todos acham que o seu domínio irá além do tempo, como se reeditassem Alexandre, o Grande.
FOLCLORE Queixava-se o jornalista Leandro Donatti do excesso de patrulhamento da Comunicação Social do governo em cima dos profissionais, fazendo as mais absurdas cobranças. Isso só pode ser coisa de ‘‘aspone’’ empolgado com o ‘‘dream team’’ que hoje toma conta da área, pois o Davi Campos, o secretário, jamais aceitaria o papel de Golias. Nem o bíblico, nem o outro.
CROMO A paina no espaço, tocada pelo vento, é a utopia do bailarino, seu sonho exasperado de delicadeza e precisão.
AFORÍSTICO Desde a semana passada, ontem novamente, a derrota na batalha da informação da reforma agrária: indulgências plenárias absolutas para o MST, diante dos ruralistas definitivamente satanizados. Depois disso, reencontrar o ponto de equilíbrio, no julgamento das coisas, não será fácil.

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