Luiz Geraldo Mazza
A alegoria como método
Se até na Santa Ceia havia traidores, dá para imaginar que na peixada de Paranaguá, induzida por Gerson Guelmann, sobravam oportunistas. Aliás, há mais disso do que focos do vibrião e a sanha se exerce em todos os planos, não poupando a bancada federal que alega ter de tudo com o ‘‘peixe’’ no esforço para o salvacionismo das cestas básicas e da oferta de um salário mínimo enquanto permanecer a proibição da pesca.
O prefeito de Paranaguá, Mário Roque, reagiu com altivez ao circo montado para o governo, que abandona o município, e tenta faturar simpatia em cima de uma desgraça, transformando a mobilização num aparato que tem tudo de campanha eleitoral e até um gerente especializado em forças-tarefa como aquela que foi desembarcada em Londrina no segundo turno.
Essa mania de botar cores no que é preto e branco é típica do lernerismo, o que se capta na propaganda sofisticada de Salto Caxias, caríssima no seu tom hollywwodiano, e que tinha em contraponto os comerciantes da região em greve de fome por indenizações diante do Palácio Iguaçu. Todo mundo quer tirar ‘‘casquinha’’ da desgraça litorânea: o deputado Algaci Túlio, para mostrar sensibilidade ao eleitor da região, apresentou fotos mais nítidas das cenas de Biafra e Burundi e que o ministro José Serra, igualmente espantado (o que soa falso porque em São Paulo há cenários piores), teria sugerido que aquilo fundamentaria a declaração de ‘‘calamidade pública’’.
Para completar o ‘‘show’’, só falta o prefeito Mário Roque declarar esse estado emergencial, enquanto Guelmann solta foguetes e tenta ganhar espaços à força num governo em que a sobriedade parece limitar-se ao secretário chefe da Casa Civil, Tato Taborda, e de Planejamento, Miguel Salomão, que foi contido ao comemorar o PIB paranaense do ano passado bem melhor do que o nacional.
Tomemos Engov que é o jeito de não regorgitar. Nunca tivemos, em tanta sincronia, razões tão fortes, estaduais e federais, para fazê-lo.


AFORÍSTICO
Requião quer candidatos próprios em Londrina e Maringá, como sempre à sua imagem e semelhança. Por isso se torna difícil encontrá-los



BIZARRICE Interessante seria que o Gerson Guelmann, que tenta mostrar tanto serviço em Paranaguá, fosse lá no Noroeste safar a imagem do governo na questão das invasões de terras. Camisetas e bonés com o dístico ‘‘Xô, Sem-terra!’’ seriam a adaptação do ‘‘Fora, Cólera’’. Com aquele latifúndio corporal, comum a ele, a Lerner e a Aníbal Khury, ficaria curioso o cenário diante da secura dos trabalhadores rurais.
Por falar nisso, sensatíssima a entrevista de Tato Taborda no ‘‘Bom Dia, Paranᒒ de ontem sobre as ocupações de terras. Disse que não dá mais para tergiversar, empurrar com a barriga, a questão.
AXIOMA Num governo que transforma em festa o problema da cólera não espanta que uma de suas figuras mais brilhantes, o ministro Rafael Greca, do Turismo e do Esporte, continue vendo lirismo na miséria e em cada molambo um Carlitos, aquele do Charlie Chaplin, em potencial. Uma gracinha, como diz a Hebe.
GLOSA A focinheira pra cachorro em Curitiba, lei municipal, é bem capaz de transformar-se em algo parecido com o ‘‘kit’’ de primeiros socorros. Embora ninguém tenha ouvido um cachorro, os veterinários, que dizem falar por eles, acham que as focinheiras existentes são piores do que as correntes nos pés de escravos e de presidiários.
VINHETA Ensino superior público, gratuito e de qualidade. Sendo público, é difícil que tenha qualidade nos tempos atuais. E sendo gratuito, com a crise de Estado que o País enfrenta, terá maior peso ainda e dificuldades maiores para resolver seus problemas de custos. Prioridade em educação pública deveria ser a do 1ª e 2º graus, como nos centros mais civilizados.
As exceções, eventualmente existentes, como a USP, Unicamp e aqui no Paraná as nossas UEL e UEM, que aparecem com melhor destaque do que a Federal, servem para destacar que onde há empenho e menos discurseira política, mais aplicação acadêmica, o resultado aparece.
SPRAY O primeiro processo criminal contra estudantes pula-catracas está andando na Justiça. Como a Prefeitura da Capital se empenha em divulgá-lo é porque tenta, de um lado, neutralizar a campanha ridícula do passe escolar (violência contra a maioria e os trabalhadores especialmente que pagam por isso) e esconder que está para sair um novo reajuste tarifário. - Procuradores do Estado entram com mandado de segurança contra as novas alíquotas da previdência estadual que devem ser cobradas em maio. O governo vai passar mais sustos aí do que no caso do pedágio. - Muitos políticos consideram o prefeito de Londrina, Antonio Belinati, o ‘‘traíra’’ clássico da política e citam o que ele aprontou contra Lerner, logo depois que este o ajudou a eleger-se. Não é o caso de Roberto Requião, que até admite alianças com ele, mas veta o seu nome para ingresso no PMDB, como desejam alguns correligionários locais. - Ontem em Maringá, o senador voltou a impor o veto a alianças do PMDB com PSDB e PFL. Só no Paraná porque o que é exceção aqui é regra em quase todo o País. - A polícia é sensacional: o cidadão Valter França Costa, moído por um PM, foi apontado como vítima de um acidente por ter escorregado e batido a cuca na pedra. E depois o Cândido Martins de Oliveira estranha quando é chamado a depor numa Comissão de Direitos Humanos. Lembrem-se do caso Zanella. - Grande iniciativa do procurador do Estado Jacinto Nelson de Miranda Coutinho: encabeça campanha que visa traduzir para o italiano a obra de Helena Kolody. Imaginaram os hai-kais luminosos na linguagem de Petrarca? - Surpreendente o fato de o Simepar estar prevendo possíveis geadas para hoje nas baixadas de Palmas. - Um sucesso a promoção do Lar O Bom Caminho, que dá assistência a crianças, ontem no Clube Curitibano. O show do grupo amador de São Paulo, ‘‘Os raposas e as uvas’’, que havia aparecido no ‘‘Faustão’’ domingo passado, foi espetacular.
FOLCLORE Até maio, anunciou o governo, 60% dos servidores da educação devem estar com o terço de férias pago. Quanto aos demais credores, empreiteiros, meios de comunicação, fornecedores, podem continuar rezando o terço para ver se a graça divina baixa sobre o Palácio Iguaçu.
FILIGRANA Quando a sujeira é dominante e toma conta do corpo fica difícil buscar um pingente, o badalhaco preso nos pêlos das reses.
CROMO Me redescubro no olhar e nos gestos do meu neto mais novo, Ângelo: ele liberta o menino que existiu em mim. Tento imitá-lo nos gestos, nos pulos e nos cambotes, e aí me reencontro no físico, distante do imaginário. Voltar é desejável, nem sempre possível.

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