Luiz Geraldo Mazza
MST na ofensiva
A estadualização da Reforma Agrária, apontada por algumas figuras como Aníbal Khury como um avanço na questão, colocou o MST na ofensiva e, como sempre, a explorar o filão do vitimalismo, do martírio. Tanto que há uma celebração hoje, na Capital, da Comissão Pastoral da Terra, MST e pastorais sociais da Arquidiocese de Curitiba, que evocará os 19 trabalhadores rurais mortos em Eldorado de Carajás e mais os 38 assassinados no Paraná desde 1990.
Parecer desprotegido, identificado com a pobreza e o martírio, vítima de todas as violências do latifúndio, é o jogo psicossocial que tenta fazer dos ruralistas o demônio e os sem-terra, os santificados. E nessa batalha dá para reconhecer que essa imagem dominante é o fator de maior dificuldade para o governo estadual postar-se como neutro e avesso à repressão. Com a fala de FHC exortando os Estados a cumprirem o papel de polícia nos despejos, concedeu-se mais munição à demagogia, explorando-se um filão típico da cultura brasileira - o do melodramatismo alimentado pelo falso enquadramento maniqueísta.
O governo está perdendo a batalha da informação, área em que arrogantemente se julgava insuperável, já que foi sobre ela que se construiu o marketing eficiente, mas ardiloso e mentiroso, de Jaime Lerner. Nada mais concreto para mostrar a falsidade disso do que o efeito-demonstração do Paraná falido nas mãos do suposto gênio e sob cuja direção também o Banestado quebrou em meio a sórdidas manobras como as desencadeadas na Leasing e na Corretora.
Para o glamour das propagandas de reassentamentos de colonos de Salto Caxias a resposta nas ruas, posto que demagógica e primária, do manifesto dos que pedem indenizações e partem até, pateticamente, para a greve de fome. É aí, na encenação do martírio, que o governo parece balofo, com plenitude gástrica, com o aspecto físico de vilão, diante do reivindicante iogue, esquálido, deitado em sua cama de pregos, mas cheio de luminosa esperança.
A ida de Cândido Martins de Oliveira e José Tavares, secretários da Segurança e da Justiça, à Comissão de Direitos Humanos do governo federal é outra das indesmentíveis derrotas de Lerner. Elas, mais a pregação cotidiana da Igreja, asseguram uma espécie de ‘‘indulgências plenárias’’ ao MST, que estaria até garantido teologicamente para fazer o que bem entende, uma espécie de cruzada pop, para ocupar a Terra Santa, através da gincana habitual. Que, aliás, terá continuidade esta semana e que culmina com novas ocupações e, é claro, o acampamento clássico na Capital. Haja cesta básica, porque o pão celestial e bíblico, o maná, está cada vez mais escasso.
O governo perdeu e hoje nem a saída de Lerner do Palácio Iguaçu mudaria esse quadro. É a herança de tanta desídia e incompetência acumuladas.


BIZARRICE
O braço político do MST, o PT, não poucas vezes, apóia candidaturas de pessoas que reprimiram de forma violenta líderes camponeses. De realismo em realismo, como ensinava o pragmático, se chega à realeza e daí à monarquia.



AXIOMA Quinze bancos estaduais estão autorizados a receber a declaração do Imposto de Renda. O Banestado não está na lista. Nem esse serviço, um dos poucos que pode prestar ao seu correntista (impositivo, quando se trata de servidor público, já que é obrigado a com ele operar) é concedido. Como se não bastasse o que ocorre na organização, há mais essa para ferrar a sua imagem.
GLOSA A peixada de Paranaguá foi tumultuada. À última hora, percebendo que a turma do governo estadual ‘‘faturava’’, de todos os jeitos e modos, o surto de cólera, o prefeito Mário Roque decidiu pular fora da tal peixada que o Gerson Guelman queria promover a todo custo. A disputa em torno de frutos políticos da cólera alcançava a bancada federal também. Como se trata de batalha de propaganda, o governo manteve a peixada no sindicato dos despachantes aduaneiros, oferecida pelos donos de restaurantes. Desse circo não dá sequer para tirar molho e fazer pirão. Uma vergonha.
SPRAY Dia 22, 19 horas, anfiteatro D. Pedro I da UFPR, instala-se o ‘‘Fórum do Orçamento de Curitiba’’, iniciativa do Conselho - Regional de Economia apoiada pela OAB, e que visa a acompanhar a lei de meios da cidade. - Mais racional do que o badalado ‘‘orçamento participativo’’, a prática já é adotada no Rio e em municípios de São Paulo com setores do público passando a acompanhar uma questão que nem os vereadores normalmente fazem, ainda que se trate de função essencial. - Tema central das preocupações no Palácio Iguaçu era em torno de uma fatura de R$ 6 milhões e meio que acabou não sendo paga e irritando mais um credor, o que afinal é rotineiro. - O público urbano, em maioria, está de tal forma envolvido na batalha da sobrevivência que não mostra receptividade às manifestações dos sem-terra. Eles voltam a partir de sábado, até o dia 22, a fazer mobilizações e acampamentos. - Mais uma prova de que o governo perdeu a batalha da informação: a visualização dos sem-terra, depois do assassinato de Anghinoni e sequestro de Seno Staats, mais o puxão de orelhas da Comissão de Direitos Humanos do Ministério da Justiça, é politização para inibir ainda mais o governo, embora FHC tenha reclamado dureza e repressão. - Quase como se fosse um templo, os irmãos Simões (o federal Íris e o estadual Carlos) montam, semana que vem, um pátio de assistencialismo na rua dr. Westphalen de onde vão transmitir seus programas radiofônicos. Ex-votos, como sempre, são dentaduras, cadeiras de rodas, óculos. - As questões trabalhistas eram uma das pragas do Porto de Paranaguá que em toda investigação ou CPI apareciam. Para enfrentar 2.800 reclamações (e eram comuns as fajutas), o Porto fez concorrência e contratou o escritório Camargo Pereira que, por R$ 40 mil mensais (custo menor do que R$ 14 por processo), traz economia à administração. O contrato vigorou até anteontem, dia 14, e as responsabilidades agora passam para a Procuradoria-Geral do Estado.
FOLCLORE Uma das iniciativas que marcaram a segunda gestão de Lerner na prefeitura (e o que lhe deu fama nacional) foi a realização, no Teatro Paiol, das ‘‘Parcerias Impossíveis’’, em que se colocava, lado a lado, um dicionarista e um sambista, por exemplo. De lá para cá, o estilo de parcerias no setor público foi tão intenso que tudo que é estatal é terceirizado ou encaminhado para a privatização. A mais recente dessas parcerias é a do pedágio. A mais antiga, a da locação de veículos, oligopólio de dois aliados eleitorais de sempre. Como se vê, desde aquele ato profético, descobre-se que todas as parcerias, mesmo as mais incríveis, são possíveis.
CROMO Os olhos fosforescentes de Bruna Lombardi na televisão onírica.
AFORÍSTICO Políticos se engalfinham no faturamento da cólera. Como se vê, a peste também rende proselitismo.

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