Luiz Geraldo Mazza
Xô, sem-terra!
O presidente FHC deu a dica: a polícia tem que expulsar invasores de terras. É a recomendação mais aguda na solenidade da estadualização da Reforma Agrária à brasileira. Como o ônus das desocupações sempre coube à Polícia Militar (vide os casos clássicos de Corumbiara e Eldorado de Carajás), percebe-se que nada há de novo no ‘‘front’’. Criou-se o Banco da Terra e delegou-se aos Estados funções até aqui exercidas pelo Incra, parceiro dos sem-terra na visão dos ruralistas, quanto ao problema pericial dos níveis de produtividade.
Diante da capilaridade que o MST ganhou, devida no Paraná, em grande parte, à omissão do governador Jaime Lerner, que transformou o Noroeste na área mais densamente ocupada, não é fácil fazer os despejos. A paranóia do Palácio Iguaçu é que ocorra com Lerner o que se deu com Álvaro Dias na repressão aos professores. Talvez essa consciência decorra da exploração exaustiva que o seu grupo fez na campanha eleitoral de 94 e que decidiu a parada. Os professores, que se prestaram ao papel de linha auxiliar, sentem calafrios quando lembram dos tumultos em comícios, de todo o agito, enfim.
É mais fácil Jaime Lerner deixar o Palácio Iguaçu, mesmo que não seja para uma nova viagem ao exterior, do que remover sem-terra. A própria PM aprendeu que ela não pode assumir ônus que o chefe não quer partilhar: isso se viu com Álvaro Dias no caso dos professores, com Requião no episódio de Campo Bonito e com Lerner em Santa Isabel do Ivaí. Em todos os episódios referidos sobrou para a corporação, enquanto os governantes eram poupados. A Polícia Militar, ainda que deva institucionalmente obediência ao Executivo, deve analisar com a maior profundidade a questão, pois lá na frente, em função das hesitações do governador, a remoção será mais difícil e os políticos buscarão safar a cara do responsável, jogando o peso da iniciativa, em tudo o que tem de negativo, em termos de impacto social, para o culpado de plantão de sempre.


BIZARRICE
O barbeiro de uma das áreas inundadas por Salto Caxias quer também lucros cessantes da Copel porque a sua clientela sumiu. E se um grupo dessas religiões místicas, que exigem que os fiéis não cortem os cabelos, empolgasse a região, haveria esse direito? Governo frouxo é assim: todos querem tirar a sua casquinha. Já que a turma de dentro se serve, por que não permiti-lo aos de fora? Vide Banestado.



AXIOMA Desquite ou separação de corpos entre Cassio Taniguchi e Lerner? É o que o Rubinho Ferreira pergunta com aquele ar samaritano que o caracteriza. Explicação: Cassio sempre foi a extensão do governador e sua saída do sistema abriu um buraco até agora não preenchido. Teve rala participação no episódio da montagem da chapa de ‘‘unidade’’ do PFL.
GLOSA O governo tira o seu da curva: o remédio podre é federal e o vibrião é municipal. A pouca vergonha, segundo ele, também não é estadual. Vamos lembrar o poema de Drummond de Andrade: ‘‘Enquanto o poeta municipal discute com o poeta estadual, o poeta federal tira ouro do nariz’’. Nada a ver, para que não existam mal-entendidos, com o ministro hedonista Rafael Greca.
FILIGRANA Vários leitores perguntam à coluna por que no Paraná não dá para fazer trabalho jornalístico assemelhado ao de São Paulo no caso da máfia das regionais? É simples: foi preciso um conflito de interesses para que o assunto aflorasse, tal qual se deu também com os anões do orçamento da Câmara Federal. Da mesma forma que a máfia estava institucionalizada, o mesmo se dava com o esquema do orçamento. Por sinal que deveria ser coisa antiga, alcançando alguns varões de Plutarco da fauna política que presidiram a Casa.
O jornalista Jânio de Freitas ganhou um Prêmio Esso por haver denunciado em linguagem codificada de anúncio classificado o resultado da licitação da Ferrovia Norte-Sul, e o governo deu um jeito de acertar os mesmos concorrentes na celebração seguinte.
Na medida em que a sociedade se torna complexa e se aguçam as contradições, há possibilidades de conhecimento das coisas. O leitor é importante no processo chiando contra a censura, a manipulação e reclamando clareza.
Esta ‘‘Folha’’ foi um dos poucos jornais que mostraram a vinculação do Sindicato do Transporte Coletivo com os vereadores curitibanos e que garantiu a eleição de Íris Simões à presidência da Câmara, pelo grupo compacto chamado Pró-Cidade, em aberto conflito com o prefeito Rafael Greca e o governador, o que mostra que o cartel extrapolava como expressão do poder político.
SPRAY O pós-debate é a prova da falta de democracia no encaminhamento dessa coisa sinistra que é o ParanaPrevidência: ontem a reunião no Tribunal de Contas, com a intervenção de especialistas, não pegou bem, pois deveria ter ocorrido antes e não agora, quando o governo já armou o que pretende.- Juiz sequestra bens de Cecílio Almeida, Congresso instala as CPIs do Judiciário e do Sistema Financeiro. Alegar, depois disso, apesar da farolagem e do espetáculo, que o Brasil não está mudando é ignorância ou má fé.- ‘‘Peixada’’ no governo Lerner normalmente é coisa excusa, como as da Leasing e Corretora do Banestado. Assim a peixada do Gerson Guelman em Paranaguá, pelo menos, apesar do tom carnavalesco, é honesta e bem intencionada.-
EPIGRAMA Do nosso governador pode-se dizer que não é ligado na defesa dos fracos e oprimidos. E muito menos na dos frascos e comprimidos que degradaram como se degrada o prestígio dos políticos, especialmente dos mais vaidosos, aqueles que conseguem a façanha de gastar R$ 500 milhões em quatro anos só em propaganda.
FOLCLORE Nos anos 70, como diretor de telejornalismo do Canal 12, em pleno regime militar, houve um problema ecológico em Paranaguá, mal explicado por cientistas oficiais, e que determinou a interdição da pesca. Com base em pareceres de mestres da área química, autorizei uma equipe da TV a comer o peixe servido na Ilha de Valadares, quando se constatou que um derramamento de produto tóxico na baía apenas agredia formas não adultas de vida. Lembro da repórter Marise Heleine e outros membros da equipe da TV Paranaense conseguindo, com seu gesto, devolver o trabalho aos pescadores.
CROMO Divaga o menino ao soltar o barquinho de papel na sarjeta no final da chuva: o boeiro é o Mar Tenebroso dessa geografia lírico-fantástica.
AFORÍSTICO A recomendação do secretário de Direitos Humanos a Cândido Martins de Oliveira, para que fizesse autocrítica da Segurança, é um alerta grave que não dá para esconder no noticiário induzido.

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