Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
100 dias de governo zen
Está aí uma explicação para o momento paranaense: temos um governo zen. Aliás zen por cento. Como já está ficando parecido com um Buda, o nosso governador estaria se entregando às artes da meditação e da contemplação. O prosaísmo dos problemas que o cercam - violência generalizada nas cidades, assassinato de sem-terra, descumprimento de medidas judiciais nas invasões, incompatibilidades com o próprio partido (PFL), a novela do pedágio, a moratória que pratica em relação a credores, o surto de cólera que desmantela o marketing ecológico - são, de fato, primários demais para afetar um espírito de eleição, superior e voltado para as grandes causas da humanidade.
Com a vinda do Dalai-Lama, a atmosfera, que cerca o governador, tornou-se ainda mais sensível. Não fossem as dificuldades físicas e adotaria a postura lotus, como fez o Affonsinho, que se cuida nessas contemplações também no plano corporal e, por vezes, se mostra um tanto quanto místico. Isso deu para perceber na campanha presidencial, quando Affonso Camargo se voltava para os baixinhos da Xuxa como se estivesse marcando pontos para a disputa após o ano 2.000, desvinculado da realidade imediata, como se dá agora com Lerner.
Um governo zen por cento é uma novidade, um corte epistemológico na evolução histórica do Paraná. Tivemos filósofos como Munhoz da Rocha no governo e que faziam do neo-tomismo, das lições vividas de Jacques Maritain, uma bússola do cotidiano. Houve quem o criticasse impiedosamente como Roberto Barrozo, o pai, que disse, com exagero óbvio, que Munhoz da Rocha seria capaz de fazer conferência detalhada sobre refrigeradores e bater-se na hora de abrir-lhes a porta. Mas agora estamos diante do yoguismo levado à prática sem necessidade quer das posturas físicas complicadas ou de exercitar o sono numa cama de pregos de um faquir.
Desligado da realidade aparente, que é gritada pelos que a sofrem, sintoniza a essência das coisas, o espírito vibrátil do próprio Universo ao qual está conectado permanentemente. Que relevância tem o materialismo primário da temática que diariamente lhe lançam aos olhos quando olha os céus e vê o pulsar do Infinito na cintilação das estrelas? Afastá-lo disso é uma violência, agressão à dignidade humana. Deixem-no viajar. Viajar é preciso, governar não é preciso.
BIZARRICE
Os cem dias de governo reeleito de FHC foram comemorados. A queda do câmbio e da inflação, a despeito dos escândalos financeiros e da recessão, o animaram a essa fala. Já para o governo paranaense seria impensável qualquer tipo de comemoração, que teria o sentido claro de uma provocação.
AXIOMA Quem tem aliados como o nosso governo dispensa a oposição.
GLOSA O Estado do Paraná, segundo manchete deste jornal no sábado, vai assumir a Reforma Agrária: agora é que ela não sai mesmo.
VINHETA Câmaras municipais do Paraná consomem anualmente R$ 50 milhões. Só em propaganda, o governo gasta mais do que o dobro e nem se constrange.
FILIGRANA Judiciário festejou a pesquisa que o aponta como menos vulnerável do que o Legislativo. Ocorre que os deputados e senadores estão mais expostos do que os magistrados até porque se detratam mais.
EPIGRAMA Figuras como as de Antonio Carlos Magalhães e Aníbal Khury serão, por acaso, compatíveis com a democracia?
SPRAY Depois que o Ministério da Justiça mandou a Polícia Federal apurar crimes contra os sem-terra no Paraná, uma ação conjunta das polícias Civil e Militar prendeu vários suspeitos. - Como a reforma agrária só anda na base da pressão das invasões, assim também as providências policiais, já que ordem judicial o governo não cumpre e não dá bola pra ninguém. - Felizmente o Banco Itaú, mais do que a Prefeitura de Curitiba, verificou que a exclusão do prédio da Universidade Federal dos símbolos da cidade era um acinte. Percebeu-se uma linha direcionada para beneficiar o marketing da Cidade-Espetáculo, desnudado no ensaio da arquiteta Fernanda Sanchez Garcia, e suas embalagens de cunho ideológico com ícones pós-lernerianos, o que é um abuso. - Até o Homem Nu da praça 19 de Dezembro, por estar vinculado ao centenário de emancipação do Estado, é mais expressivo do que boa parte da lista escolhida. Inconcebível, também, a não-referência da Praça Tiradentes como marco zero e centro de irradiação urbana. Enfim, nos merecemos tamanha calhordice. - Lista de apoio à empresa Emic, Equipamentos e Sistemas de Ensaio Ltda, no confronto com a Gonvarri Paraná (espanhola), de Capela Velha em Araucária, aumenta: várias instituições empresariais e culturais combatem o que chamam de colonialismo tecnológico. - Essa questão é outro aspecto que escapou aos estrategistas do Paraná e que ditaram o modelo que aí está. O caso Sonae é um exemplo forte e outros como o da Gonvarri (discriminação a supridores tecnológicos locais) servem de alerta. Se tudo continuar assim, o custo-benefício das iniciativas acabará mostrando o seu lado perverso e negativo. - O maior núcleo, ao menos em termos de organização, de interioranos em Curitiba, é de Santo Antônio da Platina, seguido do de Pato Branco. Agora quem está procurando recuperar seu espaço é a turma de Maringá. Interessados devem contactar Argeu Dias, rua Joaquim José Pedrosa, 199, apto 1.203, Cabral, CEP 80.035-120. - Reforma da residência do empresário Mário Petrelli será o tema da Casa Cor, destaque de decoração interior e arquitetura em maio. - Dificuldade de recuperar o PMDB é maior no interior do que na capital. Não há nomes viáveis em cidades como Londrina e dificuldades para fixá-los em Cascavel ou Maringá. E fazer acordos com Requião são mais difíceis do que com Lerner e Álvaro Dias. - Especialistas em infectologia acham difícil bloquear a chegada do vibrião na capital.
FOLCLORE No ano passado, pelo menos na área esportiva, Lerner teve algumas compensações: seu time, o Coritiba, ficou em sexto no nacional; o Rexona foi campeão brasileiro do vôlei feminino. Neste ano, o coxa não emplaca; o time de basquete da Hortência jogou ontem sua última chance e o Rexona perdeu a primeira partida da série. Como se vê, o inferno astral chega ao esporte e se não vai vestir faixas pelo menos será saudado por centenas delas, como já aconteceu, dias atrás, em Londrina.
CROMO Sempre as crianças: agora o menino de Kosovo, seu rosto de sonho, na capa dos jornais; ontem Hitler afagando cabecinhas loiras de futuros nazistas. A criança comove, mas também instiga e é instigada.
AFORÍSTICO A mais contagiosa das patologias políticas é a demagogia, sem a qual a maior parte dos políticos não sabe viver. Num caso sério como o do surto da cólera ela se revela com o mesmo potencial do vibrião.





