Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Choque pedagógico
A Rede Sonae, decorrência de um estágio elevado de acumulação de capitais, ao impor regras intoleráveis aos seus fornecedores, deu margem, mais uma vez, a que se percebesse que só a democracia pode oferecer instrumentos contra abusos do poder econômico. Da mesma forma que se diz que o poder cria o direito e este o controla, há de aplicar-se regra assemelhada quanto às ações do capital numa ordem democrática. E isso depende mais de ação do que de lei prévia, como se viu no caso da cartelização de supermercados.
Um dos ensinamentos básicos de Norberto Bobbio sobre a dinâmica política está explícito na idéia de que ao poder descendente do governo e dos cartéis se contrapõe, em sentido inverso, o poder ascendente das bases. E foram elas, no caso representadas pelos produtores hortigranjeiros, especialmente, que exerceram esse papel, mais tarde apoiado pela própria Federação das Indústrias em defesa também dos seus associados como supridores da rede e sujeitos às mesmas e draconianas imposições.
Louve-se o ato de Aníbal Khury, destituído de fundamento jurídico, mas dotado de força política, pondo sob ameaça o sistema de incentivos fiscais que permitiu a instalação da Tafisa em Piên. O impacto da decisão unânime arrepiou os portugueses, que evitaram a ampliação do conflito e partiram para o acordo.
Essa vigilância e essa dinâmica precisam ser mantidas a qualquer preço como garantias do estabelecimento de limites às fusões, incorporações, enfim, ao fenômeno da cartelização. Jaime Lerner, quando adotou a estratégia de mexer no perfil de nossa economia, rompendo com a dependência paulista, nem de longe imaginava o desencadeamento de efeitos secundários, isso sem falar no não atendimento das expectativas geradas quanto ao pleno emprego dos fatores de produção.
O Paraná se multinacionalizou e se desnacionalizou. As empresas absorvidas como a Refripar (Electrolux) e a Batavo (Parmalat), para citar esses dois exemplos, tiveram programas de expansão revistos e, é claro, o corte da mão-de-obra. Mas o exemplo mais forte de hegemonia, dirigida para liquidar qualquer devaneio de competição livre, veio justamente da área supermercadista. Foi um bom momento de nossa gente e de nossas instituições. Aduza-se aí a postura do Ministério Público Federal, enquadrando o grupo Sonae no CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), a nossa ainda embrionária, embora exista desde 1946, lei antitruste, imaginada pelo liberal Agamenon Magalhães.
BIZARRICE
Quando começou a vaia, lá em Londrina, o áulico palaciano acalmou o governador Jaime Lerner: Admirável, hein Excelência, essa imitação coletiva do mugir do gado em homenagem à feira pecuária e ao Senhor!
Outro tinha explicação diferente: tratava-se de uma substituição do berrante por emissões guturais.
Há puxa-sacos que chegam à sublimidade.
AXIOMA Lerner não cumpre decisões judiciais sobre ocupações com medo de que lhe aconteça o que houve com Álvaro Dias (e que ele tanto explorou) e os professores. Pois agora quem pega no seu pé é o professorado. Mais, é claro, o funcionalismo estadual, os ruralistas, os empresários paranaenses, a massa de desempregados e os ameaçados pela cólera. Essa unanimidade não é burra.
GLOSA Hoje vai haver uma promoção no Gugu Liberato, em Curitiba, em que se fará troca de armas por brinquedos para simbolizar a paz e antiviolência. Há o risco de o pessoal entender o contrário diante da falta de segurança: o de que a polícia dará armas e a população, brinquedos.
PATENTE Num país em que pelo menos uns 30% dos domicílios não contam com privadas, torna-se chocante ouvir falar em privatização.
FILIGRANA Armando Raggio, da Saúde, ao ser perguntado a quem se atribuía culpa pelas mortes no surto de cólera, respondeu: Toda a sociedade. Normalmente o poder partilha com os ricos (pedágio, montadoras, locadoras de veículos) e quando faz com os pobres tenta transferir-lhes a parte mais aguda dos seus próprios remorsos.
SPRAY Alguns sinais de que o país melhora: as CPIs, embora o lado espetáculo, do Judiciário e do sistema financeiro; a cassação e prisão do deputado Talvane, confisco dos bens de Sérgio Naya.- Aqui os casos do vestiba da Uniandrade e do Tuiuti (curso de Direito) e agora o do grupo Sonae são também consideráveis como a vaia em Lerner em Londrina, dose de simancol.- Bom mesmo seria a instalação, o que no esquema ditatorial é difícil, da CPI do Pedágio. - Por que Paranaguá não tem representatividade? Porque não elege o pessoal da terra e acaba favorecendo adventícios ligados ao governo, como se deu agora com Marcos Isfer e anteriormente com Nestor Baptista.- O empresário Salomão Soiffer leva muita sorte com Lerner: sua decolagem veio com o Shopping Mueller facilitado, pois o direito à área era de Dias Martins. Agora está no Parque Nacional do Iguaçu e habilita-se a explorar a vistoria eletrônica e também a área portuária.- A Emic, Equipamentos e Sistemas de Ensaio Ltda. denuncia a empresa espanhola Gonvarri, instalada em Araucária, de discriminatória e preconceituosa por prática de colonialismo tecnológico. É que a Emic opera com alta tecnologia, inclusive com certificação ISO-9002, e foi esnobada como eventual supridora da multinacional. A denúncia circula nos meios científicos, empresariais e políticos e reclama cautelas e salvaguardas na globalização.- 3 mil habitações precárias em Paranaguá tiveram a água cortada por falta de pagamento e muitos dos ocupantes fizeram poços superficiais para resolver o problema com o que facilitaram a propagação da cólera.- Nova versão para a presença de Lerner, no meio da semana, antes das nove da noite, no Bourbon Hotel: era uma conversa com tucanos.-
FOLCLORE Passarinho, ponta direita do Coritiba, dá três dribles no lateral do Seleto e é derrubado. Rola na grama, no ritual de todo jogador que pretende fazer cena. A torcida de Paranaguá ulula, fica eufórica diante do jogador que debochava do time da terra. Como não se recupera é tomada subitamente de uma espécie de sentimento de culpa e fica em silêncio. No meio dele uma vozinha típica de parnanguara dá o conselho de mestre: Sopra o cuzinho dele que ele levanta! Há um pouco de lirismo nisso, pois quando as crianças abatiam passarinhos com estilingue e tentavam reavivá-los, seguiam o conselho.
CROMO Cada estrela apontada no céu, uma verruga e como derrubá-las, uma a uma, com o fio de cabelo ou esfregando o anel na porta da igreja?
AFORÍSTICO Pesquisa da Folha de S.Paulo é educativa: o Judiciário, com tudo o que se diz dele, é mais respeitado do que o parlamento (os políticos).





