Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Hora do baixo astral
Para quem gozou, num ciclo dinástico, de muita sorte, como se tivesse nascido de bruço para a lua, não deve ser fácil enfrentar um período de adversidades. É o que está acontecendo com Jaime Lerner, que, depois de sua estada ontem em Londrina, onde foi apupado por professores e homenageado com faixas pelos ruralistas, uma quase unanimidade, deve estar programando nova viagem para o exterior. Londres, não, que logo vai lembrar Londrina.
Colhe o governador, como semeador de incertezas e de perplexidade, exatamente o que plantou: sem determinação, pendular em cima do muro, ambivalente, surfa o terreno movediço da queda de prestígio, da deterioração da própria imagem, afinal a tradução do seu reinado forrado à fantasia. É nessas horas que se constata a inocuidade dos áulicos, massageadores do ego, que tentam isolar-se numa espécie de ilha preservada da má notícia, ecossistema ao qual Lerner se ajusta com a maior naturalidade.
Ninguém de bom senso deseja que esse ciclo se transforme numa era porque todos seriam, de uma forma ou de outra, atingidos. Indefinição com a questão das terras invadidas e das decisões judiciais que determinam a desocupação, indefinição com o que fazer com o pedágio depois do corte para evitar perdas eleitorais irreparáveis, indefinição com a estruturação do PFL, com o surto de cólera no Litoral e de malária no Oeste. Como se fosse o Hamlet recitando o ser ou não ser - caveira de Yurik à mão -, declama o viajo ou não viajo.
Apesar de o presidente FHC ter andado por aqui inaugurando feitos de sua gestão, o Ministério da Justiça acertadamente mandou a Polícia Federal investigar a morte do sem-terra Eduardo Anghinoni e tortura de Seno Staats. O Paraná já se transformou na maior área de invasões do País e o governador teve oportunidade para dar um breque nos dois lados e pouco fez. Poderia ter tocado um processo contra fazendeiros que posaram na televisão, a cara à mostra, num ato de bravata diante de acampamento de sem-terra praticamente abandonado, e para tanto bastaria apanhar os fotogramas e processar o arremedo de Ku-Klux-Klan. Como também poderia, face à farta documentação, ferrar os sem-terra que torturaram e mataram o segurança Django.
Colhe o que plantou. Difícil vai ser ajustar-se a um período de queda. As vaias de ontem, em Londrina, são o acorde desse novo tempo. O tobogã, à frente, é mais suave do que o abismo, mas não serve de consolo.
BIZARRICE
Ontem, em Londrina, as pessoas exigiam uma atitude de Lerner diante das invasões de terras. Semana que vem, em Aracaju, é possível que a imprensa lhe pergunte o que houve na Leasing Banestado com tantos negócios com políticos sergipanos, apontados como irregulares pelo Ministério Público.
AXIOMA Quando crescia a vaia dos professores na recepção a Jaime Lerner em Londrina, o áulico deu uma interpretação para o ruído: É uma forma onomatopaica de defender a volta do trem no centro da cidade. Apito de trem mais longo do que grito de gol de locutor esportivo é coisa novíssima.
GLOSA Dois policiais do grupo Tigre, chamados à atenção por um gerente de banco para que entregassem as armas na porta magnética, deram voz de prisão ao bancário. Essa a subversão no Paraná: quem está com a lei leva a pior. Quem dá o exemplo é o governador, com sua omissão em problemas de qualquer ordem e confiando na propaganda, como sempre, para justificar-se.
FILIGRANA Requião declarou à Folha que a questão fundiária é de fácil solução: por sua resistência a ordens judiciais, o Paraná sofreu intervenção federal, decidida pelo STJ, e houve ainda a morte de três PMs e o líder sem- terra Teixeirinha, em Campo Bonito.
Esse fácil só pode ser entendido no sentido de uma tensão permanente. Que até hoje permanece, ainda por culpa do governo.
ANALOGIA Uma forma de encarar a cólera no estilo lerneriano deveria ser o de transformar a leitura da bula do remédio em solução.
MEMÓRIA Se Lerner tivesse sentido de antecipação - isto é, a capacidade de prever minimamente os acontecimentos -, teria levado algo de concreto a Londrina relativamente à sua promessa de que, logo após o retorno da Europa, cumpriria decisões judiciais relativas às invasões. Um mínimo de memória sobre a questão mostraria a resistência da cidade à demagogia que se aguçou no governo Sarney, quando o Incra declarou todo o município de utilidade pública para fins de desapropriação, o que não passou de provocação primaríssima.
Além do mais, as lideranças ruralistas não mais suportam as hesitações de Lerner, que apenas têm encorajado o MST a ações cada vez mais temerárias. Tanto que um dia após afirmar que desocuparia oito fazendas, houve nove invasões do MST.
SPRAY No Brasil, as ações contra a corrupção e a fraude andam mais rápidas do que no Paraná: o ex-deputado Talvane foi preso, e sequestrados os bens de Sérgio Naya no exterior e no Brasil. Aqui não há como montar uma CPI. Um dia seremos contaminados por isso, o que é mais saudável do que o vibrião da cólera.- Irritação de Lerner com a decisão do Ministério da Justiça de botar a PF para apurar crimes contra os sem-terra no Paraná é causada pela evidência não só da falta de elegância do governo federal, como do seu desprestígio pessoal.- A lentidão do governador e dos seus secretários é notória num assunto que exigiria, antes de tudo, mobilização rapidíssima.- Mobilização quente foi a dos fornecedores da rede Sonae ao procurarem o Legislativo estadual, obterem apoio do Ministério Público Federal e ao imporem a ameaça, que se esgota no seu significado de pressão, do corte dos incentivos da Tafisa, o que já apavorou o governador, quando se trata apenas de medida alegórica.- Queda-de-braço entre o Dieese e o Ipardes sobre o desemprego em Curitiba vai continuar. O primeiro acha que chegaremos aos 19% da população economicamente ativa. Ipardes, que discorda das metodologias adotadas por aquela organização, deve mostrar sua pesquisa no final do mês. Esse desemprego de 150 mil a 170 mil pessoas é de caráter crônico e abrange o subemprego. Esse contingente é de difícil absorção até mesmo na construção civil.-
FOLCLORE Última versão do prefeito de Paranaguá, Mário Roque, sobre a causa do surto de cólera: os governos de Richa, Álvaro Dias e Requião. Pelo jeito, não é parecido apenas com Lerner no aspecto físico, mas também nas hesitações.
CROMO Olhou o mar contaminado, apesar dos reflexos da lua e a reverberação das estrelas: parecia o governo e suas variadas embalagens.
AFORÍSTICO Impaciência de vários setores, dentre eles ruralistas, pode drenar para um pedido, ainda que inviável por questões óbvias, de impeachment contra o governador. Esse procedimento é uma questão numérica: se nem a CPI do pedágio sai, muito difícil a coisa andar.





