LUIZ GERALDO MAZZA
O cofre estourado
O Estado quebrou e de tal forma que não dá sequer para dizer, como o rei de opereta, ‘‘depois de mim, o dilúvio’’. Não suportando a pressão de credores, mais de um secretário do atual governo já pediu demissão no sentido de tentar comover, sensibilizar, o titular da Fazenda. Este, por sua vez, manietado com a escassez de recursos, ganha tempo com promessas, diálogo sem fim, como se vê no caso específico do terço de férias do funcionalismo estadual.
Vamos aos fatos objetivos: com que agente no governo houve esse turbilhão? Com Lerner, é claro, embora se reconheça que é expressão de uma crise geral. O Banestado, por exemplo, entrou no ‘‘vermelho’’ para valer na gestão Lerner, na qual houve a pirataria, que ninguém esclarece, da Leasing e da Corretora.
Aí é que se pergunta em que alquimia se fixa o governo para gastar aqueles já célebres R$ 500 milhões em propaganda, quando os próprios veículos estranharam o volume de recursos da rubrica, tanto que o dirigente empresarial Abdo Aref Kudri fez uma interpelação, até hoje não respondida, e que pretende ratificar. É sabido que seria um ‘‘non sense’’ o setor beneficiado pela propaganda chiar como se praticasse autocídio. É que a ‘‘grana’’ foi para outros condutos e que certamente driblam as normas do Código de Contabilidade Pública e geram imagem de prodigalidade, como se viu na campanha eleitoral, que os meios de comunicação não desejam assumir por não ser justa.
Empreiteiros, prestadores de serviços, fornecedores, locadores não conseguem receber seus créditos, mas assim mesmo há os que ‘‘furam’’ a fila por serem mais iguais do que os outros. É pelo menos o que se diz ocorrer na área das empreiteiras, uma das quais teria conseguido acertar uma fatura grande diante dos outros que sofrem com a crise e que passam, também, a não pagar os seus compromissos e ingressar na lista da inadimplência.
Essa realidade, no entanto, é oculta: o que se vê é o oba oba permanente num clima interminável de festas, como se observou na inauguração do Centro de Excelência de Basquetebol e que permanece sem patrocínio, embora o governo tenha dado as calças para os megaempresários com renúncia fiscal e tantos outros incentivos. Também essa iniciativa esportiva é totalmente coberta com dinheiro público, que falta para pagar funcionários e credores e de repente pode escassear no front da luta contra a cólera.
BIZARRICE Um colunista estranhou que o governador Jaime Lerner estivesse anteontem às 20h45 no Hotel Bourbon, quando ninguém, principalmente à noite, poderia afirmá-lo se se tratava dele ou do prefeito de Paranaguá.
AXIOMA Com a forma como o grupo Sonae entrou no Paraná e pressiona seus fornecedores, como se dá no cartel de supermercados, fica bem claro que o português da anedota somos nós.
GLOSA Deputados agiram bravamente contra o Sonae, mas isso não os absolve do papelão de tomarem a iniciativa de sair à frente pelo aumento do pedágio.
PLEONASMO Eis um caso ao mesmo tempo de redundância e metalinguagem: alguém fazer uma tatuagem com o desenho de um tatu.
FILIGRANA Autoridades estaduais estão alegando que há alarmismo excessivo em torno da disseminação da cólera e que o próprio governador teria garantido que o vibrião não chegaria a Curitiba. Quem sabe se recuse a pagar o pedágio mesmo com os 50% de desconto.
SPRAY Legítima como encenação a ameaça legislativa de cortar subsídios do grupo Sonae, embora sem um mínimo de fundamento jurídico, teve importante função como mecanismo político, obrigando o cartel a negociar com os seus fornecedores.- As fusões são apropriadas ao regime capitalista (Marx expôs com maestria a mecânica da teoria cumulativa do capital) e contra elas só há uma saída: exercício agudo, radical, de democracia, via sociedade organizada, que se mostrou no episódio capaz de sensibilizar deputados.- Estamos, agora sim, vivendo com intensidade o sistema capitalista em suas formas superiores e as reações secundárias da globalização aí estão expostas: descarte humano por causa da tecnologia, devido também à operação em escala internacional (casos da Electrolux e da Philip Morris) e nacional (perda de 10% da mão-de-obra da Batavo).- As basbaquices do governo escondem esses efeitos perversos da alta escala e do grande empreerndimento. Basta ver os anúncios mentirosos da campanha oficial da chegada da Renault, em que gente humilde imaginava, o que não aconteceu e nem vai acontecer, transformar seu botequim em restaurante.- Propaganda enganosa é também insistir nessa picaretagem de sugerir que vivemos num Paranaíso.- Por falar em propaganda, uma empresa baiana, que se supõe com a benção de ACM, viria disputar espaço com o grupo fechado que serve o governo estadual.- Bingogol do Onaireves Moura bateu na trave: a Receita Federal teria desautorizado. Prometia, imaginem, sortear um carro por dia. Ninguém se esquece dos abusos com bingo feitos em parceria com a CNT.- Rubinho Ferreira está convicto de que se Lerner pretende ser candidato presidencial, vai ter um adversário aqui mesmo, em Belinati. Essa, pelo menos, é a impressão colhida ante o staff do bravo prefeito londrinense.- CPI do Judiciário, dos bancos, grampo a três por dois: é impossível deixar de reconhecer que o Brasil está mudando.- E o caso do preso morto no interior de uma delegacia, por encapuzados, como é que fica? Igual ao dos despejos judiciais contra o MST não cumpridos.-
FOLCLORE 1 Algo tão inesperado como o encontro do Rei Sol com o Dalai Lama em Brasília (imagem é do Elísio Marques) foi a presença de Cassio Taniguchi na palestra do Raimundo Pereira no ‘‘Reage Brasil’’. Laços de amizade e coleguismo de bancos escolares em São Paulo os aproximam.
FOLCLORE 2 Se Lerner for a Londrina, vai encarar faixas bem mais hostis do que as registradas anteontem no ginásio de esportes de São José dos Pinhais por causa da questão das terras invadidas. Mais uma promessa não cumprida. Os professores farão com ele o que fizeram com Álvaro Dias em campanha. Já os ruralistas têm bronca mil vezes maior.
CROMO No giro do pião na calçada, o menino filosofa sobre os limites entre a realidade e as aparências. Parmênides de calças curtas.
AFORÍSTICO Não vá o nosso governador fazer como aquele dirigente andino, que para negar uma epidemia de cólera resolveu comer peixes e mariscos crus e pegou a doença. Imaginaram um sashimi de baiacu?

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