Luiz Geraldo Mazza
O nível de liberdade da imprensa paranaense melhora na razão direta do mau atendimento por parte do maior cliente (não abrange a todos, mas a maioria), sabidamente o governo. Essa condicionante é terrível e explica porque a crítica mais aprofundada fica na dependência desse tipo de crise. No momento, com seus compromissos atrasados não apenas com fornecedores e empreiteiras, mas também com os meios de comunicação, estes se tornam mais ágeis e chegam a adotar posturas mais investigativas, o que é bom para eles, para a sociedade e, embora os áulicos não concordem, para o governo também.
Quando Richa assumiu tentamos, um grupo de jornalistas e políticos, convencê-lo a mudar essas relações viciosas. Alguns sinais de melhoria foram, logo em seguida, apagados e tudo voltou à acomodação que vem desde os tempos de Ney Braga. O único jornal que fez um acordo diferenciado com Ney foi o mais popular deles, Última Hora: eram preservados a figura do governador, as empresas financiadoras (Codepar, Banestado, Copel), as indiretas, e o resto ficava liberado para o pau geral, o que dava a impressão de combate.
Antes disso os grupos políticos e econômicos, que nem sempre simétricos em seus objetivos, tinham seus próprios veículos, o que tornava a emulação mais decente. Gazeta do Povo e O Dia, bem com a Rádio Guairacá eram de Lupion e por essa razão, logo após a eleição de Munhoz da Rocha, surgiu O Estado do Paraná (em seguida viria a Tribuna). Na sequência veio o jornal da cadeia associada de Chateaubriand Diário do Paraná também para cobrir o novo governo.
Uma das causas para o grande número de veículos impressos no Paraná e também em Curitiba é essa certeza de que há um cliente cativo, o que é um absurdo e que conflita com a tão decantada modernidade. Porto Alegre, mercado superior a Curitiba, tem três jornais e Curitiba conta com dez sem falar nos novos que pintam na região metropolitana que tendem a dar sequência ao ritual. Analogia idêntica pode ser feita com São Paulo, o que prova que as relações entre governo e essa clientela aqui são de relativa cumplicidade.
Um dos melhores momentos da imprensa paranaense foi quando do governo Leon Peres que, a despeito da pressão militar do regime, os veículos pertencentes a Paulo Pimentel partiram para a oposição destemida, o que também mantiveram durante a gestão de Canet Júnior. O que está acontecendo neste momento, com a melhor pegada dos meios de comunicação, deveria ser o permanente e não o ocasional e da mesma forma que pegaria mal um jornal bater no governo para tirar vantagens, ficaria igualmente constrangedor o governo cobrar fidelidades por causa dos anúncios e das verbas que patrocina. Isso tudo é de uma clareza solar, mas só a hipocrisia (homenagem que o vício presta à virtude, conforme a lição de La Rochefoucauld) tenta sugerir normalidade.
BIZARRICE - No festival das denúncias dos títulos estaduais, volta e meia é feita referência à Split. Orlando Carlini, o Careca, fez a observação: Antes havia a Banana Split, agora temos o Pepino Split.
SPRAY Meias verdades, como as que estão sendo obtidas da sessão secreta do legislativo, são mais devastadoras do que boatos. Como o Banestado não está funcionando bem em razão dos enxugamentos (corte das horas extras e acúmulo de pessoas na espera) e os servidores andam angustiados (salários deprimidos e perdas futuras, inclusive a do plano de demissões voluntárias), as dúvidas operam como gasolina na fogueira. - Tentar neutralizar o chio da oposição com a promessa de revelar os níveis de inadimplência dos tempos de Requião é de uma safadeza piramidal. Tudo o que se sabe, ao longo da história, de anômalo no Banestado sempre pingou assim de forma descontínua, nada clara, acentuando o dado bizarro como a estória do cachorro quente ou a do devedor que ofereceu sêmem de gado para pagar uma dívida de US$ 1 milhão. - Um chinês, que é funcionário da Câmara Municipal de Curitiba e vive há dois anos na França, é uma das denúncias de nepotismo no semanário Impacto de hoje. Conta ainda que uma telefonista da casa está em Londres. - Pitta ao defender-se do aluguel do carro para sua mulher disse que Requião tinha um motorista que era pago por uma empreiteira. Uma coisa não anula a outra e ambas mereciam análise política e judicial. O motorista é o Tabaco, Valdir Leal, que tocou uma ação trabalhista contra seu ex-empregador que, a certa altura, também o nomeou, juntamente com uma doméstica que prestava serviços à família, para inspetor de ensino. - TRE vai ter sede nova na Vila Parolin, onde funcionaram em tempos passados o parque de inflamáveis e a zona. - Circulou por aí a estória de que o João Alves que estava envolvido em negócios do Banestado com títulos era aquele anão do orçamento, o acertador da loteria. A referência a João Alves é ao-ex governador de Sergipe. - Greve, outra vez, no jornal Indústria & Comércio ontem: a grana de fevereiro não tinha saído, mas, como já se deu anteriormente, isso não impedirá que o dono da empresa viaje para o exterior outra vez.
FOLCLORE - Alberto Dinnes chamou Roberto Requião de centauro, acrescentando metade cavalo e a outra também. Tomou o cuidado de lembrar que a metáfora foi usada por Carlos Lacerda contra Brizola. Lacerda era terrível. Caricaturou o Napoleão Alencastro, que foi ministro, de forma radical e mexendo justamente com a sua elegância: Tem o porte de um senador romano clássico e a cultura de um Primo Carnera. Carnera foi um lutador de box, primaríssimo.
CROMO - O primeiro beijo, o primeiro cigarro: como recompor gostos e cheiros na memória? Nem Marcel Proust, especialista no sensorial, cuidou bem do tema.





